Sobre abuso sexual, orientação sexual e o silenciamento das vítimas

Sobre abuso sexual, orientação sexual e o silenciamento das vítimas
Fotografia por Kat J.

Abuso sexual, orientação sexual e o silenciamento das vítimas. Este podia ser um tópico unânime na nossa sociedade, mas parece que, além de não o ser, há quem escreva artigos de opinião em jornais que minam o trabalho de décadas de apoio e investigação na área. Este é um texto pessoal de resposta a outros dois onde, num deles, é promovida a ideia de que o abuso sexual ‘confunde’ as vítimas quanto à sua orientação sexual e as pode “tornar” homossexuais.

Sem meias palavras, é uma mentira e pura desinformação. Maria Helena, a propagação destas falácias fere, ainda mais, as próprias vítimas. Somos assim constantemente questionadas sobre os porquês e os comos do que nos aconteceu e no que nos tornámos. A educação sexual, além dos benefícios que traz à saúde sexual e reprodutiva, é também uma ferramenta de prevenção à violência e aos abusos sexuais. Combatê-la é tornar mais vulneráveis crianças e jovens e isso é indefensável.

Considero-me uma pessoa relativamente racional, mas, perante toda as evidências, todos os argumentos mostrados por profissionais clínicos, levei anos a interiorizar que, não, não sou gay porque fui abusado. Uma parte sempre esteve em mim e a outra aconteceu-me tinha eu 8 anos. A ideia de que a minha orientação sexual foi moldada por um acto de violência é abjeta e é contrariada pela evidência. E sei-o. E interiorizei-o. Mas – e há sempre a porra de um mas – ler num jornal alguém a dizer o contrário, só porque sim, mina o apoio que tenho recebido. Porque me obriga a repetir todo o processo de confirmação, de interiorização e de valorização. E isso pode ser – absolutamente – cansativo.

Os abusadores sexuais tendem a procurar alvos, neste caso crianças e jovens, que possuam algum tipo de fragilidade que lhes permitam cometer o crime. Uma criança desapoiada pode assim estar à mercê da manipulação do abusador. Ora, quando jovens LGBTQ+ são vítimas preferenciais de bullying em Portugal, é fácil perceber a ponte que existe entre um abusador e uma vítima especialmente vulnerável. A educação sexual, repito, é uma das ferramentas que crianças e jovens precisam ter para a sua própria proteção. Entender o simples conceito de consentimento é um primeiro, mas essencial passo para o seu bem-estar.

Gonçalo Portocarrero, a denúncia é ainda hoje um passo extremamente difícil. Quem denuncia sabe que vai ter que lidar com todas estas pessoas que escrevem este tipo de artigos e tantas outras que, eventualmente, rever-se-ão neles. O argumento apresentado no seu artigo de que os abusos na Igreja não são os únicos é uma forma de silenciar as vítimas. É atirar areia para os nossos olhos e minorar a responsabilidade da instituição quando, por fim, estão a ser tornados públicos os casos de abuso perpetuados e silenciados dentro da mesma. Ler-vos é sempre um murro no estômago.

Levarei o resto da vida a tentar apropriar-me do meu próprio corpo quando houve no passado um momento que deixou de ser meu. Estes textos, mesmo estando eu num ponto de relativo conforto sobre o tema, conseguem sempre fazer-me questionar novamente. Nem que seja por um breve segundo, uma hesitação que, se estiver num dia menos bom, poderá impor-se e levar-me, mais uma vez, àquele período da minha vida. É doloroso e sinto-me naqueles momentos incapaz de fugir deles. Sinto-me preso, tocado e sem força para sair daqueles estados. Felizmente, o apoio que tenho recebido tem-me ajudado a que sejam hoje em dia mais espaçados e raros.

E escrevo estas palavras, porque sei que nem toda a gente tem, ainda hoje, o apoio devido. Nem toda a gente revelou que sofreu violência ou abuso sexual. Podem passar décadas até ganharmos a coragem para o fazer. Quem escreveu estes e outros textos devia ter vergonha do mal que faz. Do mal que nos faz. São pessoas que escrevem constantemente sobre uma alegada proteção de crianças e jovens, mas o mal que causam é tremendo. E atiram essas mesmas crianças e jovens para a vergonha, para a dúvida e para o silêncio. Instrumentalizam-nas para proveito próprio, espalhando teorias da conspiração e impondo moralidades bacocas a quem as lê.

O jornal que as publica, já agora, também não é isento de culpa, porque lhes dá plataforma para perpetuar todas estas mentiras e todo este mal. As vítimas de abuso sexual continuam a não denunciar e a sofrer sozinhas durante anos perante isto. O Observador está pois a fazer um péssimo trabalho no combate a este flagelo ao dar palco a estas Marias Helenas e a estes Gonçalos Portocarreros e às suas ideias estigmatizantes.

No caso dos homens que sofreram abuso no seu passado, impulsionados por uma masculinidade que lhes é imposta e os impede de mostrar publicamente fragilidades, o tempo de silêncio solitário é ainda mais alargado. Foi o que me aconteceu. E deixa-me profundamente incomodado que três décadas passadas estejamos neste ponto novamente. De mofo, preconceito e privilégio violentos.

Venham por isso as denúncias e que a educação sexual seja um direito cumprido a todas as pessoas, porque daquelas ajudas não precisamos nós!

Nota: Para apoio a homens e rapazes vítimas de abuso sexual, contactar a Associação Quebrar O Silêncio; ou a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

Linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal

Linha LGBTI+ da ILGA Portugal
Quintas e sábados, das 20h às 23h
218 873 922
969 239 229

SOS Voz Amiga
(entre as 15h30 e as 00h30)
213 544 545
912 802 669
963 524 660

Linha de Prevenção do Suicídio
1411

Telefone da Amizade
(16h-23h)
228 323 535
jo@telefone-amizade.pt

Escutar – Voz de Apoio – Gaia
(21h-24h)
225 506 070

SOS Estudante
(20h00 à 1h00)
969 554 545
915 246 060
239 484 020

Vozes Amigas de Esperança
(20h00 às 23h00)
222 080 707

Centro Internet Segura
800 219 090


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11 responses to “Sobre abuso sexual, orientação sexual e o silenciamento das vítimas”

  1. Obrigado por isto, texto mais que necessário

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  2. […] Um número recorde de alemães deixou as suas congregações nos últimos anos, com a adesão à igreja a cair abaixo de 50% pela primeira vez em 2021. Os resultados de uma pesquisa publicada em setembro sugeriram que 58% das pessoas católicas alemãs opuseram-se às declarações contra a interrupção voluntária da gravidez feitas pelo Papa Francisco. A igreja também foi abalada por escândalos de abuso sexual infantil. […]

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  3. […] polémica mundial e recorrente dos abusos sexuais contra crianças e jovens dentro da Igreja Católica também chegou ao Papa emérito. Em janeiro de 2022, um relatório descobriu que Ratzinger não […]

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  4. […] As notícias relacionadas com os abusos sexuais na igreja estão a deixar vítimas em crise, avisa a associação Quebrar o Silêncio. A mesma registou, esta semana, um aumento dos pedidos de apoio relacionados com os casos de abuso sexual no contexto da igreja. “São homens que foram vítimas de violência sexual na infância e que não conseguem ter um momento de paz, pois são constantemente confrontados com notícias de abuso sexual”. Vivem assim “um constante reviver das suas próprias histórias”, refere Ângelo Fernandes, fundador da associação. […]

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  5. […] Sobre abuso sexual, orientação sexual e o silenciamento das vítimas […]

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  6. […] as crianças que, se calhar, se metem a jeito“. Se calhar não. Se calhar as vítimas, e estamos aqui a falar essencialmente de crianças e jovens, não se metem a jeito. Este é um exemplo da importância da Educação Sexual nas escolas e de […]

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  7. […] Sobreviventes de violência e abuso sexual são constantemente relembrados e questionados sobre os porquês e os comos do que lhes aconteceu e no que se se tornaram. A educação sexual, além dos benefícios que traz à saúde sexual e reprodutiva, é também uma ferramenta essencial de prevenção à violência e aos abusos sexuais, empoderando crianças e jovens. […]

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  8. […] Mariana foi confrontada por Djalme dos Santos, que a filmou de perto e a acusou de ser “promotora da homossexualidade infantil e pedofilia“. A segurança do evento e outras pessoas autoras presentes intervieram, removendo Djalme dos […]

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  9. […] No segundo julgamento, o juiz chegou a afirmar que homens não podiam ser abusados, tornando o argumento irrelevante no tribunal. Este ponto é abordado no documentário com uma visão crítica, realçando que, nos dias de hoje, o caso provavelmente seria julgado de forma diferente, tendo em conta o impacto psicológico do abuso continuado. […]

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  10. […] O caso expõe mais uma vez a hipocrisia de figuras religiosas e políticas que usam a retórica “anti-LGBTQ+” como escudo moral, enquanto perpetuam abusos que dizem condenar. […]

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