
Se a Eurovisão sempre celebrou a diversidade, por que motivo está agora a limitar as expressões de identidade no palco? A edição de 2025 traz uma nova política de bandeiras que, apesar de permitir mais liberdade ao público, impõe regras apertadas a artistas, incluindo a proibição da bandeira arco-íris em espaços oficiais do evento.
A organização da Eurovisão 2025 atualizou as suas regras sobre bandeiras e símbolos visuais, levantando a proibição da bandeira palestiniana no público, mas apertando o controlo sobre o que as pessoas artistas podem mostrar nos espaços oficiais do concurso.
De acordo com a União Europeia de Radiodifusão (EBU), qualquer bandeira permitida pela lei suíça poderá agora ser exibida pelo público na arena em Basileia, incluindo a da Palestina. A mudança marca um recuo na política anterior, que proibia bandeiras de países ou territórios não participantes. No ano passado, o artista sueco Eric Saade protestou silenciosamente contra essa proibição ao usar um keffiyeh durante as semifinais em Malmö.
Mais liberdade para o público, menos para artistas da Eurovisão
Contudo, enquanto o público verá mais liberdade, as delegações enfrentam agora maiores limitações: nos espaços oficiais da Eurovisão — como o palco, a green room, a passadeira turquesa e a Eurovision Village — só será permitida a bandeira oficial do país que representam. Isto exclui expressamente símbolos como a bandeira arco-íris, a bandeira da Palestina e até a bandeira da União Europeia.
Segundo a EBU, a decisão pretende garantir “clareza visual” e “neutralidade”. A emissora neerlandesa Avrotros afirmou que o objetivo é que se perceba de imediato que país está a ser representado. Mas várias organizações LGBTQ+ não concordam. A COC Nederland chamou à proibição da bandeira arco-íris “francamente ridícula”.
“É como se proibissem as pessoas dar as mãos, beijarem-se umas às outras ou de usarem um brinco”, disse porta-voz. “A bandeira é (um) símbolo de quem você é.” Já a Outright International criticou o que vê como um recuo nos valores de diversidade e liberdade que sempre marcaram a Eurovisão.
Entre política e visibilidade
Apesar de afirmar ser “não política”, a Eurovisão tem sido palco constante de debates políticos, sociais e culturais. A atuação da drag queen Conchita Wurst em 2014 com “Rise Like a Phoenix” foi um momento marcante de visibilidade queer. Já em 2022, a vitória da Ucrânia foi vista como um gesto de solidariedade europeia em plena invasão russa.
Em 2024, a presença de Israel em plena guerra em Gaza gerou grande controvérsia. A canção original teve de ser alterada pela EBU por alegadamente referir os ataques de 7 de outubro. Mesmo assim, a substituta — Hurricane — gerou protestos fora da arena em Malmö.
Nos últimos anos, a bandeira arco-íris tornou-se presença habitual no palco da Eurovisão. Várias artistas usaram-na para expressar apoio à comunidade LGBTQ+, e o público reagiu sempre com entusiasmo. Em 2016, por exemplo, a bandeira foi momentaneamente proibida e o público respondeu levando ainda mais bandeiras para a arena, forçando a organização a recuar. Em 2023, Marco Mengoni levou bandeiras do Orgulho LGBTI+ e de Itália ao palco. Não é por acaso que a Eurovisão se tornou ao longo das décadas num festival de celebração Queer. E ainda bem.
Haverá quem faça frente às novas regras?
Este ano, a exclusão explícita da bandeira arco-íris para artistas pode ser vista como um novo capítulo nesta tensão entre celebração e censura. Ao tentar controlar todas as mensagens políticas, a EBU arrisca-se a apagar expressões de identidade e solidariedade que fazem parte do ADN do concurso. Haverá quem lhe faça frente?
Portugal estará representado pelos NAPA na primeira semifinal da Eurovisão 2025, a 13 de maio, em Basileia.

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