
Quando um comentador televisivo afirma que uma família teria o direito de pedir a um jovem que “reconsidere ser gay”, expõe uma realidade entranhada na cultura portuguesa: a persistente ideia de que a orientação sexual e a identidade de género são escolhas, passíveis de revisão, como se fossem preferências passageiras ou decisões triviais. Mais errado não poderia estar.
A dita afirmação, além de revelar uma ignorância científica e humana, perpetua a violência simbólica e concreta contra pessoas LGBTI+, reduzindo as suas vivências a um mero capricho. Importa sublinhar que esta ideia não é apenas incorreta; é perigosa pelo pressuposto que abre: de que as identidades LGBTI+ são escolhas, quando a ciência e a experiência de milhões de pessoas as demonstram como partes intrínsecas da sua identidade.
A ciência já há décadas desmontou este mito. Desde 1973, a Organização Mundial de Saúde deixou de classificar a homossexualidade como doença, e em 2019, a mesma organização reafirmou que as identidades trans não são condições de saúde mental. Estudos de neurociência, genética e psicologia mostram que a orientação sexual e a identidade de género são dimensões fundamentais da existência humana. Não há “reorientação” ou “conversão” possível porque não existe nada a converter: não há doença, não há erro, não há pecado. Há apenas pessoas que merecem ser tratadas com dignidade, respeito e amor.
As “terapias” de conversão: o abuso disfarçado de amor
Quando se fala em “práticas de conversão”, o que está em causa não é terapia, mas abuso ou tortura. Estas práticas, muitas vezes envoltas em linguagem pseudo-científica e justificadas por dogmas religiosos ou morais, não “curam” ninguém, mas destroem. Deixam marcas profundas e duradouras como depressão, ansiedade, ideação suicida, isolamento social e uma sensação de rejeição que acompanha as vítimas para o resto das suas vidas.
Os danos são reais e conhecidos. A OMS, a Associação Americana de Psicologia, a Associação Mundial de Psiquiatria e inúmeras organizações de saúde pública em todo o mundo já classificaram estas práticas como abusivas e sem qualquer fundamento científico. Não há cura para quem não está doente. Não há “reorientação” que não seja uma violação dos direitos humanos e da integridade física e emocional de uma pessoa.
E, acima de tudo, não há justificação para pais ou mães que, em nome de um suposto amor ou de uma crença, infligem sofrimento às suas crianças. O amor não é possessão. O amor não é controlo. O amor é acolhimento, é segurança, é a garantia de que, independentemente da orientação sexual ou identidade de género de uma criança, ela será amada incondicionalmente.
O papel da família: entre o armário e a liberdade
Muitas pessoas LGBTI+ crescem com a mensagem de que o seu amor, a sua identidade ou a sua existência são um erro. Essa mensagem vem muitas vezes de quem devia ser o seu refúgio: a família. A vergonha e o armário não são um espaço de privacidade; são uma prisão. São o pesado fardo de esconder quem se é, de mentir sobre a própria vida, de viver com medo da descoberta. E o custo emocional é imenso: a vergonha internalizada, a auto-aversão, a sensação de que nunca se é “suficiente”.
Os pais e as mães ao pedirem que “reconsiderem” quem são estão, no fundo, a dizer-lhes que não são dignas de amor tal como são. E isso destrói. Porque o maior desejo de qualquer criança — e de qualquer pai ou mãe — deveria ser a felicidade. Não a conformidade com as expectativas alheias, não a submissão a dogmas, mas a liberdade de ser quem se é, com orgulho e sem medo.
A responsabilidade coletiva: ninguém nasce com ódio
O ódio não é inato. O ódio aprende-se. Aprende-se quando se normaliza a ideia de que uma criança pode ser “curada” de ser quem é. Aprende-se quando se permite que discursos de ódio se disfarcem de “preocupação” ou “amor”. Aprende-se quando se silenciam as vozes de quem sofrem com estas práticas.
Mas o amor também se aprende. Aprende-se quando se reconhece que a felicidade de uma criança LGBTI+ não é negociável. Aprende-se quando se escolhe escutar o que nos dizem. Aprende-se quando abraçamos alguém na sua plenitude. E aprende-se também com as valiosas famílias escolhidas quando as biológicas nos falham irremediavelmente. Há muitas formas de aprender o amor.
Por isso, se são pais ou mães: ouçam os vossos filhos e filhas. Criem laços de confiança. Garantam-lhes que, independentemente de quem amem ou de como se identifiquem, haverá sempre amor. Porque a confiança que constroem hoje será a base da saúde, da liberdade e da felicidade que viverão amanhã. Reconsiderem, pois, o amor.
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