
Quando a seleção mexicana venceu a África do Sul no jogo de abertura do Mundial de Futebol masculino, milhares de pessoas saíram às ruas para celebrar. Entre elas estavam Issac Flores, de 28 anos, e Edson Gonzalez, de 27. O que nenhum dos dois imaginava era que um simples momento de alegria acabaria por se transformar num símbolo internacional de visibilidade LGBTQ+.
A fotografia mostra o casal a beijar-se no Paseo de la Reforma, uma das avenidas mais emblemáticas da Cidade do México, rodeado por adeptos e bandeiras mexicanas. Tirada pela amiga Karen Gutierrez a 11 de junho, em pleno Mês do Orgulho, a imagem permaneceu quase despercebida durante vários dias até ser republicada nas redes sociais após uma nova vitória mexicana. Em pouco tempo tornou-se viral.
Para muitas pessoas, a fotografia captou um casal de homens a celebrar publicamente um momento de orgulho nacional associado ao futebol, um espaço que continua frequentemente marcado por ideias tradicionais sobre masculinidade.
Um beijo num território historicamente difícil
A viralidade da imagem não aconteceu por acaso. Ao longo das últimas décadas, o futebol mexicano tornou-se conhecido internacionalmente por episódios de homofobia nas bancadas. O cântico insultuoso dirigido aos guarda-redes adversários levou a sucessivas multas e sanções por parte da FIFA, tornando-se um dos exemplos mais discutidos de discriminação no futebol mundial.
Foi precisamente por isso que a fotografia de Flores e Gonzalez teve um impacto tão forte. Em vez do machismo frequentemente associado ao desporto, mostrava afeto, celebração e autenticidade.
“Gostaria de usar a visibilidade que o meu namorado e eu temos neste momento para dizer ao mundo que o amor é diverso e pode ser encontrado não apenas no desporto, mas em todo o lado”, afirmou Flores à Outsports.
“Estar na rua a celebrar um jogo durante um Mundial é algo que todas as pessoas merecem viver.”
Um México em transformação
A fotografia também surge num momento-chave para os direitos LGBTQ+ no México.
Nas últimas duas décadas, o país tornou-se uma das referências mais progressistas da América Latina em matéria de diversidade sexual e de género. Em 2022, o casamento entre pessoas do mesmo sexo passou a ser reconhecido em todos os estados mexicanos, após um longo percurso de avanços legislativos e decisões judiciais.
Nos últimos anos, o Governo mexicano deu também passos importantes no reconhecimento da diversidade de género. Em 2023, o país passou a disponibilizar passaportes com marcador “X”, permitindo que pessoas não binárias possam obter documentos oficiais sem terem de se identificar exclusivamente como homem ou mulher.
Na altura, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Marcelo Ebrard, afirmou que a medida representava um compromisso com a diversidade e com o combate ao discurso de ódio.
Uma diversidade com raízes muito mais antigas
Embora frequentemente apresentada como uma conquista recente, a diversidade de género tem raízes profundas em várias culturas indígenas mexicanas.
Um dos exemplos mais conhecidos é o das muxes, pessoas reconhecidas como pertencentes a um terceiro género na cultura zapoteca, particularmente no estado de Oaxaca.
A sua existência é documentada desde antes da colonização europeia e continua a fazer parte da vida social e cultural de várias comunidades. Em cidades como Juchitán de Zaragoza, as muxes são amplamente reconhecidas e celebradas como parte integrante da identidade local.
A sua presença desafia a ideia de que as identidades não binárias são um fenómeno moderno ou importado, mostrando que diferentes formas de viver o género existem há séculos em diversas culturas.
Da Chavela Vargas às novas gerações
A história da visibilidade LGBTQ+ no México também passa pela cultura. Ao longo do século XX, poucas figuras tiveram um impacto tão profundo como a cantora Chavela Vargas. Nascida na Costa Rica mas radicada no México, tornou-se uma das vozes mais importantes da música ranchera ao desafiar as normas de género da época.
Enquanto outras mulheres eram pressionadas a apresentar-se de acordo com os padrões femininos tradicionais, Chavela adotou uma imagem masculina, vestindo calças, cortando o cabelo curto e interpretando canções que até então eram reservadas aos homens.
Décadas mais tarde, novas gerações continuam a ampliar essa visibilidade. Um exemplo recente é o de Cristian Peralta, vencedor da primeira temporada de Drag Race México, que tem usado a sua plataforma para promover a diversidade e desafiar preconceitos.
O poder de uma fotografia
A imagem de Issac Flores e Edson Gonzalez recorda que a visibilidade continua a ser importante. Num país onde persistem episódios de discriminação e violência contra pessoas LGBTQ+, a fotografia mostra algo simultaneamente simples e poderoso: duas pessoas felizes, apaixonadas e orgulhosas de ocupar o espaço público.
Num universo como o do futebol, durante décadas dominado pela ideia de que existe apenas uma forma legítima de ser homem, esse simples gesto continua a ter força suficiente para dar a volta ao mundo.
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