Rainbow ghosting: fala-se menos sobre direitos LGBTI+ em Portugal, mas o discurso de ódio ganha espaço

Rainbow ghosting: fala-se menos sobre direitos LGBTI+ em Portugal, mas o discurso de ódio ganha espaço

Imagem da campanha inclusiva para famílias do Benfica: “O importante é haver amor!” (2019)
Imagem da campanha inclusiva para famílias do Benfica: “O importante é haver amor!” (Março, 2019).

Portugal continua entre os países europeus e do mundo com um dos enquadramentos legais mais fortes na proteção dos direitos das pessoas LGBTI+. Ainda assim, um novo relatório alerta para um fenómeno preocupante: fala-se cada vez menos sobre diversidade, equidade e inclusão (DEI), precisamente numa altura em que aumentam a hostilidade, o discurso de ódio e a pressão política contra estas políticas.

O estudo Orgulho Sem Resposta, da consultora espanhola LLYC e divulgado pelo P3, identifica este fenómeno como rainbow ghosting: um desaparecimento gradual da diversidade no espaço público. Fala-se aqui de uma perda de visibilidade. Empresas, instituições, meios de comunicação e outras organizações deixam de abordar estes temas de forma consistente ao longo do ano, concentrando quase toda a atenção no Mês do Orgulho.

Em Portugal, a conversa pública sobre direitos LGBTI+ caiu 66%, segundo a análise, acompanhando uma tendência internacional que levanta uma questão: o silêncio significa que a igualdade está mais consolidada ou que falar sobre diversidade se tornou politicamente mais difícil?

Menos visibilidade não significa menos conflito

O relatório analisou mais de 15,1 milhões de notícias publicadas entre 2021 e 2026, cerca de 202 milhões de publicações na rede social X desde 2018 e mais de 4,6 milhões de conteúdos considerados violentos em 12 países.

As conclusões revelam um paradoxo. Enquanto a cobertura mediática sobre diversidade diminuiu cerca de 10% por trimestre nos últimos três anos e a conversa sobre a comunidade LGBTI+ no X caiu para metade desde 2023, o discurso de ódio seguiu precisamente a direção oposta.

Em oito dos dez países analisados, os ataques aumentaram, com um crescimento médio de 38% relativamente aos quatro anos anteriores. Atualmente, três em cada cinco mensagens analisadas correspondem a ataques diretos contra pessoas LGBTI+.

Para a LLYC, a consequência é óbvia: “Aquilo de que se fala menos explica-se menos. O que se explica menos, entende-se pior.”

A redução da visibilidade não elimina o conflito. Apenas reduz o espaço para contextualizar, esclarecer e contrariar narrativas falsas.

Na prática, não há menos conflito. Há menos contraditório.

Da celebração ao silêncio

Outro dos aspetos destacados pelo relatório é a concentração crescente da conversa no segundo trimestre do ano, coincidindo com o Mês do Orgulho.

À primeira vista, isto pode parecer um sinal de maior visibilidade. Mas o relatório defende precisamente o contrário. Junho está a transformar-se numa “ilha” de atenção num calendário em que a diversidade desaparece progressivamente do debate público.

Esta sazonalidade significa que muitas organizações continuam a associar os direitos LGBTI+ apenas a campanhas pontuais, deixando de integrar estes temas na comunicação institucional durante o resto do ano.

O problema é, portanto, a comunicação praticamente desaparecer nos restantes onze meses do ano.

Uma tendência que acompanha a ofensiva internacional contra as políticas DEI

Embora o relatório não atribua uma causa única ao fenómeno, o crescimento do rainbow ghosting coincide com uma mudança política internacional marcada por uma crescente contestação às políticas de diversidade, equidade e inclusão.

Nos Estados Unidos, a administração de Donald Trump transformou o combate às políticas DEI numa prioridade política, pressionando empresas, universidades e instituições públicas a abandonarem programas de diversidade. Diversas multinacionais reduziram ou reformularam iniciativas públicas nesta área, procurando evitar confrontos políticos ou consequências económicas.

Os efeitos desta estratégia começaram também a sentir-se em Portugal.

Em abril de 2025, universidades portuguesas receberam questionários enviados pela embaixada dos Estados Unidos, acompanhados pela possibilidade de cancelamento de financiamento e parcerias científicas caso mantivessem determinadas políticas de diversidade, equidade e inclusão.

Mais do que um fenómeno de comunicação, o rainbow ghosting parece refletir um ambiente em que falar sobre diversidade passou a representar, para algumas organizações, um potencial risco político, reputacional ou financeiro.

O discurso de ódio também mudou

O estudo identifica igualmente uma transformação na forma como se manifestam os ataques às pessoas LGBTI+.

Os insultos explícitos continuam presentes, mas são cada vez mais substituídos por argumentos apresentados como preocupações legítimas.

Entre eles surgem frequentemente referências à proteção das crianças, à defesa da família tradicional ou à oposição à chamada “ideologia de género“. Quase um quinto das mensagens hostis analisadas invoca precisamente a alegada proteção da infância.

Imagem da campanha inclusiva para famílias do Benfica: “O importante é haver amor!” (Março, 2019).
Imagem da campanha inclusiva para famílias do Benfica: “O importante é haver amor!” (Março, 2019).

Esta mudança acompanha uma tendência observada em vários países, onde a oposição aos direitos LGBTI+ procura apresentar-se menos como discriminação aberta e mais como uma posição política ou moral.

A inteligência artificial reproduz o mesmo padrão

O relatório analisou ainda diferentes sistemas de inteligência artificial generativa e concluiu que estes reproduzem enviesamentos semelhantes aos encontrados na conversa pública.

Quando os modelos geram respostas sobre pessoas cisgénero e heterossexuais, associam-nas mais frequentemente a conceitos como autonomia, independência, planeamento e futuro.

Já os perfis LGBTI+ aparecem ligados sobretudo a medo, rejeição, respeito ou necessidade de aceitação. Segundo a investigação, os conceitos relacionados com autonomia surgem com uma intensidade 140% superior nas respostas dirigidas a perfis cisgénero heterossexuais.

Também na geração de imagens surgem padrões repetitivos. Cerca de sete em cada dez representações de pessoas LGBTI+ recorrem automaticamente a bandeiras arco-íris ou outros símbolos explícitos da identidade, enquanto a diversidade étnica permanece limitada.

Estes resultados demonstram que a invisibilidade não afeta apenas a esfera pública. Acaba também por influenciar as tecnologias treinadas com os conteúdos produzidos pela sociedade, acabando por replicar estes padrões.

O silêncio também produz consequências

Face a estas conclusões, a LLYC recomenda que empresas, instituições e organizações mantenham políticas de inclusão e estratégias de comunicação ao longo de todo o ano, representando as pessoas LGBTI+ para além dos contextos de vulnerabilidade ou das celebrações do Pride.

Os dados mostram, contudo, que essa tendência parece estar a enfraquecer. O número de empresas com políticas ativas de diversidade e inclusão caiu para cerca de dois terços do registado em 2023.

Num contexto em que os ataques continuam a aumentar e as narrativas hostis se tornam mais sofisticadas, o desaparecimento gradual da diversidade do espaço público pode ter consequências que vão muito além da comunicação institucional.

Porque direitos de que quase não se fala tornam-se mais difíceis de explicar, mais fáceis de distorcer e, por isso mesmo, mais vulneráveis ao retrocesso.


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