Róisín Murphy ataca Madonna pelo apoio às pessoas trans. Mas as suas alegações repetem velhos mitos

Róisín Murphy ataca Madonna pelo apoio às pessoas trans. Mas as suas alegações repetem velhos mitos

Róisín Murphy voltou a atacar publicamente as pessoas trans e quem defende os seus direitos. Desta vez, o alvo foi Madonna, que acusou de apoiar o que chamou de «comboio TQ+» e de ignorar a sua alegada «homofobia inerente».

A cantora irlandesa foi mais longe. Segundo Murphy, Madonna não se preocupa com «crianças que teriam crescido para serem gays» e que estariam a ser «medicalizadas e prejudicadas antes de terem maturidade para saber quem são».

As declarações surgiram numa discussão sobre Geno Segers, ator que deveria estrear-se na Broadway em Hadestown, mas acabou por deixar a produção após a recuperação de várias publicações transfóbicas das suas redes sociais.

Segers e a produção anunciaram que tinham «mutuamente acordado» que o ator não integraria o elenco. Dias depois, Segers pediu desculpa, reconhecendo «o impacto» das suas declarações e dizendo estar empenhado em aprender.

Murphy aproveitou o caso para questionar a liberdade de expressão na indústria do entretenimento.

Róisín Murphy fala em artistas «amordaçados»

Numa publicação no X, Murphy escreveu ter sido informada de que a maioria dos contratos das grandes editoras inclui cláusulas de moralidade.

Estas disposições contratuais podem permitir a uma empresa terminar uma relação profissional quando determinada conduta provoca danos reputacionais ou comerciais. Murphy afirmou ainda que a indústria estaria agora a tentar tornar estas cláusulas comuns nos contratos de espetáculos ao vivo.

Os contratos profissionais podem naturalmente conter obrigações e consequências. Organizações representativas de artistas, como a Musicians’ Union e a Equity, recomendam precisamente que artistas conheçam e negoceiem cuidadosamente as condições dos seus contratos.

A discussão sobre o poder das empresas sobre artistas é legítima. Mas é diferente de afirmar que uma consequência profissional perante declarações públicas constitui, por si só, censura.

Foi neste contexto que outra pessoa questionou se Madonna alguma vez teria estado sujeita a uma cláusula semelhante.

Murphy respondeu atacando diretamente a cantora.

«Madonna não tem essa desculpa para apoiar o comboio TQ+ ou para não denunciar a sua homofobia inerente», escreveu.

E acrescentou:

«Talvez simplesmente não se importe que crianças que teriam crescido para serem gays estejam a ser medicalizadas e prejudicadas antes de terem maturidade para saber quem são. Estranho.»

Ser trans não impede ninguém de ser gay

A alegação recupera uma narrativa recorrente em movimentos que apresentam os direitos das pessoas trans como incompatíveis com os direitos de gays e lésbicas.

O problema começa na própria premissa.

Identidade de género e orientação sexual descrevem dimensões diferentes da identidade de uma pessoa. Uma pessoa trans pode ser heterossexual, gay, lésbica, bissexual, assexual ou ter outra orientação.

Por isso, uma criança ou adolescente reconhecer uma identidade trans não significa deixar de poder reconhecer, agora ou posteriormente, uma orientação homossexual ou bissexual.

A ideia de que existe necessariamente uma população de «futuras pessoas gays» transformada em pessoas trans cria uma oposição entre duas experiências que podem coexistir na mesma pessoa.

Não existe evidência sustentada de que os cuidados de afirmação de género estejam sistematicamente a transformar crianças homossexuais em pessoas trans.

Crianças trans estão a ser «medicalizadas»?

Também aqui a linguagem usada por Murphy pode criar uma imagem muito diferente daquela que consta das recomendações clínicas.

Reconhecer uma criança como trans não significa submetê-la automaticamente a tratamento médico.

As orientações clínicas, por exemplo, recomendam explicitamente que crianças pré-púberes não recebam bloqueadores da puberdade nem tratamento hormonal de afirmação de género.

Antes da puberdade, o acompanhamento pode ser social e psicológico.

Os bloqueadores podem ser considerados em determinados casos, após avaliação clínica. As recomendações preveem acompanhamento por profissionais com experiência em desenvolvimento infantil e adolescente, saúde mental e identidade de género.

Tratamentos hormonais posteriores envolvem critérios adicionais, avaliação multidisciplinar e capacidade para consentimento informado.

Isto não significa que não exista debate científico, mas tal é diferente de afirmar que crianças que «teriam crescido para serem gays» estão a ser sistematicamente medicalizadas, como afirma Murphy.

Direitos trans contra direitos gays?

Também não é nova a tentativa da cantora de apresentar pessoas trans como uma ameaça ao restante movimento LGBTQIA+.

Em junho, Murphy acusou pessoas trans de estarem a «negar a orientação sexual», a aproveitar-se do movimento pelos direitos de gays e lésbicas e a «desmantelar a cultura» da comunidade.

Chegou depois a afirmar que não queria «ativistas trans» nos seus concertos.

As novas declarações sobre Madonna seguem a mesma lógica: os direitos das pessoas trans seriam não apenas diferentes, mas incompatíveis com os direitos de gays, lésbicas e bissexuais.

A história de Madonna torna-a um alvo particularmente simbólico desta acusação. O apoio da artista à comunidade LGBTQIA+ atravessa várias décadas e começou muito antes do tema estar normalizado no debate público.

Durante a crise do VIH/SIDA, Madonna falou publicamente sobre a doença, participou em iniciativas de angariação de fundos e combateu o estigma numa altura em que poucas estrelas com a sua dimensão o faziam.

Em 2019, tornou-se a segunda pessoa a receber o prémio Advocate for Change da GLAAD. A organização destacou precisamente décadas de ativismo, desde a crise da SIDA aos direitos LGBTQIA+ internacionais. Recentemente, Madonna voltou a reforçar o seu apoio à comunidade trans.

Apresentar agora o seu apoio às pessoas trans como uma traição às pessoas gays ignora essa história — e pressupõe uma divisão que muitos movimentos LGBTQIA+ rejeitam.

Uma história que se repete

Para quem acompanha Róisín Murphy, as declarações dificilmente surpreendem.

Em 2023, a cantora foi criticada depois de atacar o uso de bloqueadores da puberdade por jovens trans. Acabaria por lamentar a polémica e anunciar que abandonaria aquela discussão pública.

Não aconteceu.

Em outubro de 2025, Murphy partilhou um gráfico sobre uma alegada redução de jovens trans e não-bináries e concluiu: «Nunca foi real

A própria investigadora Jean Twenge, cujo trabalho estava na origem dos dados, alertou que estes não permitiam concluir simplesmente que a população trans estava a desaparecer. Entre as explicações possíveis estava uma menor disponibilidade para assumir publicamente essa identidade perante um ambiente social mais hostil.

Na altura, The Blessed Madonna reagiu duramente às declarações da cantora.

«O teu post é uma opinião rápida para ti. Mas é uma questão de vida ou morte para as pessoas trans», afirmou.


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