“A cultura queer é vulnerável”: co-criador de Drag Race alerta para “crise de representação” após saída da BBC

"A cultura queer é vulnerável": co-criador de Drag Race alerta para «crise de representação» após saída da BBC

Na imagem: Júri do Drag Race UK: Michelle Visage, RuPaul Charles, Graham Norton e Alan Carr
Júri do Drag Race UK: Michelle Visage, RuPaul Charles, Graham Norton e Alan Carr.

Fenton Bailey, co-criador e produtor executivo de RuPaul’s Drag Race, alerta para uma “crise de representação” na televisão depois de a BBC decidir deixar de transmitir Drag Race UK. A competição continuará através da plataforma WOW Presents Plus, mas a saída do serviço público britânico levanta questões sobre quem continuará a encontrar estas histórias fora dos espaços especificamente queer.

Mesmo nos melhores momentos, a cultura queer é vulnerável e não podemos dar nada por garantido“, afirmou Bailey numa entrevista à BBC. “Só porque uma porta se abriu ontem, não significa que não possa ser fechada amanhã.

A atual temporada será a última de RuPaul’s Drag Race UK transmitida pela BBC. O programa, que chegou à televisão britânica em 2019, continuará, porém, a ser produzido pela World of Wonder (WOW). As próximas temporadas, incluindo uma nova edição All Stars, serão disponibilizadas exclusivamente através do serviço de streaming WOW Presents Plus.

Bailey rejeita a ideia de que exista uma “agenda escondida” por detrás da decisão da BBC. Pelo contrário, atribui-a às fortes dificuldades financeiras que atravessam atualmente as televisões tradicionais.

Ainda assim, para Bailey, as consequências ultrapassam Drag Race. “As comunidades vulneráveis vão ficar ainda mais vulneráveis“, alertou, falando numa “crise de representação” que se estende ao setor televisivo.

Um programa que continua, mas deixa de estar onde todas as pessoas o podem encontrar

A diferença entre estar na BBC e passar exclusivamente para uma plataforma de streaming própria não é apenas uma questão de distribuição.

Kate Butch, participante da quinta temporada de Drag Race UK e de UK vs the World, chamou a atenção para aquilo que se perde quando o programa deixa um serviço público acessível a uma audiência generalista.

É ótimo que o programa continue e dê destaque à incrível arte drag que o Reino Unido tem para oferecer“, afirmou. “Mas lamento a possibilidade de alguém estar simplesmente a mudar de canal e o encontrar por acaso.”

Essa descoberta acidental pode ser particularmente relevante num programa que, por detrás do humor, dos fatos e das performances, levou regularmente experiências LGBTQ+ a audiências que poderiam não procurá-las de outra forma.

Ao longo das suas temporadas, concorrentes falaram abertamente sobre identidades trans e não binárias, viver com VIH, saúde mental, consumo de substâncias, rejeição familiar e outras experiências pessoais.

A escritora Juno Dawson resume a fórmula de Drag Race: “Vens pelas lantejoulas e pelo brilho, mas, na realidade, por baixo da superfície, estás a lidar com temas muito grandes, pesados e importantes.”

Três programas LGBTQ+ deixam a BBC

A preocupação surge também porque Drag Race UK não desaparece isoladamente da programação da BBC. Este ano, a estação anunciou igualmente o fim de I Kissed a Boy e I Kissed a Girl, dois formatos de encontros especificamente LGBTQ+.

Para Dawson, a sucessão de cancelamentos explica por que motivo parte do público começou a identificar um “padrão“. A escritora sublinha ainda uma diferença entre uma estação comercial e um serviço público: a responsabilidade da BBC de procurar representar a diversidade da população britânica.

Isso não significa que as histórias LGBTQ+ tenham desaparecido da estação. A BBC renovou recentemente Smoggie Queens para uma terceira temporada e mantém personagens e narrativas LGBTQ+ em produções como EastEnders, Vigil, Mr Loverman e Amandaland.

Mas Scott Bryan, crítico de televisão e autor de Out Now: A Queer Journey Through Modern Television, distingue essa presença da existência de programas especificamente pensados em torno de experiências queer.

Vemos vidas LGBTQ+ representadas de forma muito mais casual em novelas e dramas de horário nobre, mas continua a ser necessário haver programas especificamente dirigidos a uma audiência queer“, defendeu. Para Bryan, “parece que, muito rapidamente, a ponte levadiça está a subir“.

O espírito do drag é fazer alguma coisa a partir do nada

Drag Race UK não acaba, mas deixa um dos espaços mais acessíveis e generalistas da televisão britânica.

Para Bailey, a própria história da cultura drag oferece uma resposta ao desafio: “Podemos não ter os recursos que a BBC tem, mas o espírito do drag e de RuPaul’s Drag Race é fazer alguma coisa a partir do nada.”

E termina com uma declaração que transforma a incerteza sobre o futuro num princípio de resistência: “Sobrevivemos. Podemos fazê-lo. Vamos fazê-lo.


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