‘A Bola Negra’ tem novo trailer, excelentes críticas e já há data de estreia em Portugal

‘A Bola Negra’ tem novo trailer, excelentes críticas e já há data de estreia em Portugal

Depois dos prémios em Cannes e Toronto, o novo filme de Los Javis continua a somar elogios. O novo trailer revela mais das três histórias de amor queer que atravessam quase um século de história espanhola.

A Bola Negra (La Bola Negra, no original), o novo filme de Javier Calvo e Javier Ambrossi, ganhou esta semana um novo trailer. E chega numa altura em que o projeto de Los Javis se consolida como um dos filmes queer mais aclamados de 2026.

Depois da estreia em Cannes, dos prémios conquistados em vários festivais e de uma receção crítica particularmente positiva, há também uma novidade para o público português: a estreia nos cinemas nacionais está marcada para 5 de novembro.

O novo trailer revela mais das três histórias que compõem uma narrativa atravessada pelo desejo, pela repressão, pela memória e pelas marcas que uma geração deixa nas seguintes.

O filme decorre em três momentos distintos — 1932, 1937 e 2017 — e acompanha três homens cujas vidas acabam por se revelar intimamente ligadas. São histórias separadas por décadas, mas unidas pelo amor, pela sexualidade, pela dor e por aquilo que permaneceu por dizer.

No presente, Alberto, interpretado por Carlos González, começa a investigar um segredo familiar e a história do seu avô. A procura conduz-o a um passado onde relações entre homens tiveram de existir perante a ameaça da clandestinidade, da repressão e do silêncio.

Uma das questões centrais do filme é precisamente aquilo que fazemos com essa herança.

«A questão central é aquilo que fazemos com o nosso passado», explica Javier Calvo, associando essa reflexão aos objetos, à arte e aos vestígios que a História deixa para trás.

Três histórias separadas pelo tempo

O novo trailer torna mais clara a dimensão épica que Los Javis deram a esta ideia. Na Espanha dos anos 1930, as personagens vivem num país à beira — e depois no interior — da Guerra Civil. Décadas mais tarde, outra geração tenta compreender aquilo que sobreviveu dessas vidas.

Sebastián, interpretado pelo músico Guitarricadelafuente na sua estreia como ator, encontra uma ligação afetiva em plena guerra. Carlos, interpretado por Milo Quifes, procura o seu lugar numa Espanha fragmentada. No presente, Alberto tenta finalmente dar forma a um segredo mantido durante gerações.

É através destas três linhas que La Bola Negra procura recuperar experiências queer frequentemente ausentes da memória histórica.

O silêncio não surge apenas como consequência da repressão. Torna-se também numa herança transmitida entre gerações. Essa ideia é condensada no trailer pela personagem de Glenn Close, Isabelle, ao questionar por que razão o avô de Alberto terá passado a vida «a esconder-se».

De Federico García Lorca a La piedra oscura

La Bola Negra nasce do encontro entre dois textos: uma obra inacabada de Federico García Lorca e La piedra oscura, peça do dramaturgo Alberto Conejero, também coargumentista do filme.

Calvo conta que o projeto começou a ganhar forma quando voltou a ler a peça de Conejero cerca de uma década depois de a ter visto em palco.

La piedra oscura recupera a figura de Rafael Rodríguez Rapún, secretário da companhia teatral La Barraca e uma das pessoas associadas sentimentalmente a Lorca. O texto acompanha os últimos momentos da sua vida durante a Guerra Civil.

Los Javis não procuram, porém, reconstruir a obra que Lorca nunca conseguiu terminar. Usam antes aquilo que permaneceu dela — juntamente com a peça de Conejero e diferentes personagens ficcionais — para pensar nas inúmeras histórias LGBTQIA+ que também ficaram incompletas.

A própria ausência transforma-se assim em matéria narrativa. Lorca foi assassinado em 1936, nos primeiros meses da Guerra Civil Espanhola. A sua vida e obra ficaram profundamente associadas tanto à repressão política como à perseguição da diversidade sexual durante aquele período.

Em La Bola Negra, essa memória não permanece fechada no passado. As consequências atravessam décadas e chegam às personagens contemporâneas.

Um percurso pouco habitual pelos grandes festivais

O entusiasmo em torno do filme começou em maio, quando La Bola Negra estreou na competição oficial do Festival de Cannes.

Javier Calvo e Javier Ambrossi conquistaram então o prémio de Melhor Realização, partilhado com Paweł Pawlikowski. A primeira apresentação ficou também marcada por uma ovação de cerca de 20 minutos.

Seguiu-se o Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde o filme venceu o People’s Choice Award, o principal prémio atribuído pelo público do TIFF.

A vitória teve ainda um significado particular: La Bola Negra tornou-se no primeiro filme da Netflix a conquistar o prémio e no primeiro filme internacional a vencê-lo em 15 anos.

Pouco depois, conquistou também o Prémio do Público no Festival de San Sebastián, alcançando uma classificação média de 9,4 em 10 — o resultado mais elevado conseguido por um filme espanhol na história desse prémio.

Espanha escolheu entretanto La Bola Negra como a sua candidatura ao Óscar de Melhor Filme Internacional.

As críticas acompanham os prémios

A receção da crítica tem sido igualmente forte.

No momento da publicação deste artigo, La Bola Negra apresenta 85 pontos em 100 no Metacritic, correspondentes a «aclamação universal».

Entre os aspetos mais elogiados estão a ambição visual, a forma como as diferentes épocas convergem e a escala invulgar concedida a uma narrativa histórica centrada em personagens queer.

O Observer destacou precisamente essa dimensão: materiais culturais nascidos nas margens são aqui transformados numa produção de grande escala, algo que durante muito tempo dificilmente seria concedido a um drama queer.

A receção não é inteiramente consensual. Algumas críticas apontam desigualdades entre as diferentes linhas narrativas e algum excesso na duração e estrutura.

Mas os números colocam o filme, para já, entre os títulos mais bem recebidos desta temporada.

Guitarricadelafuente entre a representação e a música

O filme representa também a estreia de Guitarricadelafuente como ator.

Los Javis explicam que pensaram no músico espanhol pela capacidade narrativa que já encontravam nas suas atuações e canções. Segundo Calvo, mesmo antes de atuar no cinema, Guitarricadelafuente já estava «a contar uma história quando canta».

O músico interpreta Sebastián e contribuiu igualmente para a banda sonora.

É sua “La Nieve”, a canção original que acompanha o novo trailer e que foi escrita procurando partir do mesmo lugar emocional das personagens, em vez de simplesmente comentar aquilo que acontece no ecrã.

O elenco reúne ainda Miguel Bernardeau, Carlos González, Milo Quifes, Lola Dueñas e Julio Torres, juntamente com Penélope Cruz e Glenn Close.

O que fazemos com as histórias que herdámos?

Depois de obras como Veneno e La Mesías, Los Javis voltam assim a colocar personagens queer no centro de uma narrativa sobre memória, identidade e família.

Mas La Bola Negra amplia consideravelmente essa ambição. Ao longo de 2 horas e 35 minutos, o filme percorre quase um século de história espanhola para perguntar o que acontece às vidas que nunca puderam ser totalmente vividas — e às histórias que nunca chegaram a ser contadas.

É também uma obra marcada pela própria história dos seus realizadores. Calvo e Ambrossi revelaram que foi durante a produção do filme que compreenderam que a relação amorosa de 13 anos entre ambos tinha chegado ao fim, embora tenham decidido manter a parceria criativa.

Essa dimensão torna ainda mais particular um filme construído em torno da permanência e da transformação do amor.

Há relações que terminam. Há vidas que são interrompidas. Há memórias que desaparecem quase por completo.

La Bola Negra parece interessado precisamente no que consegue sobreviver a tudo isso.

O filme estreia nos cinemas portugueses a 5 de novembro. A chegada à Netflix está marcada para 2 de dezembro.


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