
Depois de conquistar o prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes, La Bola Negra [A Bola Negra], o novo filme de Javier Calvo e Javier Ambrossi — a dupla conhecida como Los Javis — prepara-se para chegar ao público. A estreia em salas está marcada para 25 de setembro em Espanha e noutros mercados selecionados, seguindo-se o lançamento mundial na Netflix a 4 de dezembro. Para já, ainda não existe uma data anunciada para os cinemas portugueses.
A longa-metragem adapta o romance inacabado La Bola Negra, de Federico García Lorca, cruzando-o com a peça La piedra oscura, de Alberto Conejero. O resultado é uma narrativa que atravessa quase um século de história espanhola, desde a década de 1930 até à atualidade, acompanhando as vidas de três homens cujas experiências refletem diferentes momentos da vivência queer no país.
Mais do que uma adaptação literária, La Bola Negra procura estabelecer um diálogo entre passado e presente. A figura de Lorca, assassinado pelas forças franquistas em 1936 e hoje reconhecido como um dos maiores escritores espanhóis do século XX, continua a simbolizar o impacto que a perseguição política e a repressão da diversidade sexual tiveram sobre gerações inteiras.

O elenco reúne vários nomes conhecidos do cinema e da televisão espanhola. O músico Guitarricadelafuente estreia-se como protagonista no grande ecrã, acompanhado por Miguel Bernardeau (Elite), Carlos González, Milo Quifes, Lola Dueñas, Julio Torres, Penélope Cruz e Glenn Close.
O argumento foi escrito pelos próprios Javier Calvo e Javier Ambrossi em conjunto com Alberto Conejero, que assina a peça La piedra oscura. Os realizadores voltam assim a explorar temas que têm marcado grande parte da sua obra: identidade, memória, desejo, família escolhida e o lugar das pessoas LGBTI+ na história.
Não é a primeira vez que Los Javis recorrem à ficção para recuperar histórias frequentemente esquecidas. Foi precisamente isso que fizeram com Veneno, a aclamada série que transformou Cristina Ortiz Rodríguez numa referência internacional e ajudou a reescrever a forma como a televisão espanhola representa pessoas trans. Ao longo dos últimos anos, a dupla consolidou uma linguagem muito própria, onde a cultura popular convive com a memória histórica e a emoção nunca surge desligada do contexto político.
As primeiras reações da crítica sugerem que La Bola Negra poderá representar um novo passo nesse percurso. A estreia em competição no Festival de Cannes foi recebida de forma muito positiva e valeu aos realizadores o prémio de Melhor Realização, reforçando desde cedo o estatuto do filme como um dos potenciais candidatos da Netflix à próxima temporada de prémios.
O primeiro trailer deixa antever uma obra ambiciosa, onde diferentes épocas se entrelaçam para mostrar como as vidas queer são atravessadas pela herança do passado. Entre o peso do silêncio imposto pela ditadura e a liberdade conquistada nas décadas seguintes, La Bola Negra propõe uma pergunta que continua atual: de que forma a memória molda quem somos?
Para quem acompanha o percurso de Los Javis, o filme surge como uma continuação natural de um projeto artístico que procura dar visibilidade a histórias frequentemente marginalizadas, recuperando vozes que a história tentou apagar. Desta vez, a partir do universo inacabado de Federico García Lorca, essa viagem promete percorrer quase cem anos de memória, perda, resistência e esperança.
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