“Veneno” celebra e recorda a maior diva trans espanhola

Jedet, Daniela Santiago e Isabel Torres como Cristina Ortiz em diferentes fases de sua vida em ‘Veneno’

Estreia em pleno Dia da Memória Trans a série “Veneno” inspirada na vida de Cristina Ortiz, a famosa diva trans dos anos 1990 conhecida como “La Veneno”.

A série é inspirada em “¡Digo! Ni p*ta ni santa“, livro de memórias de La Veneno escrito pela jornalista Valeria Vegas, também uma das melhores amigas da protagonista e membro da equipa de guionistas.

A série centra-se na vida e morte de um dos maiores ícones LGBTI de Espanha, La Veneno (Cristina Ortiz), a primeira pessoa trans a fazer sucesso na televisão como atriz, cantora e modelo nos anos 1990 e considerada hoje em dia como pioneira na visibilidade trans para milhões de pessoas.

Não havia mulheres que se parecessem com ela naquela época. Fiquei tão impressionada quando a vi”, diz Jedet, uma das três atrizes transg que interpretam Ortiz em diferentes estágios da sua vida na série.Tinha muitos amigos que me diziam que lhes fazia lembra Ortiz”, comentou Jedet que estava em processo de transição aquando das filmagens da série.

No início da década de 1990, quando tinha vinte e poucos anos, Ortiz mudou-se para Madrid e começou sua transição. Para Jedet, interpretar essa personagem durante esse período específico da sua vida foi simultaneamente desafiador e bonito: “Eu conseguia entender tudo o que ela estava a sentir, porque eu estava também a passar por isso”. Quando Jedet interpretava Ortiz na sua identidade pré-transição, usava uma peça de cabelo e maquilhagem para a tornar mais ‘masculina’. “Psicologicamente, foi tão difícil! Mas depois vejo [a série], e fico tão orgulhosa do trabalho que fiz!

Em Madrid, a verdadeira Ortiz trabalhou nessa altura numa cantina de hospital que servia comida a pacientes, mas foi despedida de imediato quando começou a fazer a transição e ficou com poucas opções de emprego além do trabalho sexual.

Cristina Ortiz em entrevista aquando do lançamento do seu livro de memórias

Foi em 1996 que Ortiz ganhou fama em Espanha, depois da jornalista Faela Sainz a ter entrevistado espontaneamente no Parque del Oeste de Madrid, onde Ortiz e outras mulheres trans passavam grande parte do tempo como profissionais do sexo. Após a entrevista no parque, Ortiz foi convidada para o estúdio para uma entrevista subsequente. A sua aparição no programa, com o seu sentido de humor ousado e glamour impressionante, provou ser popular entre o público, levando-a a tornar-se uma colaboradora regular. “Ela mostrou-nos que podíamos ser felizes sendo nós mesmas; e se a nossa família nos rejeitasse, o problema era da família e não nossa”, diz Ruben Lopez, porta-voz da organização pelos Direitos LGBTI Arcopoli. Lopez também é o diretor do Observatório de Madrid contra a LGTBIfobia; no ano passado, o Observatório registrou 321 incidentes de ódio contra a comunidade LGBTI na cidade.

Assim como Ortiz melhorou sozinha a visibilidade das pessoas trans na televisão em Espanha dos anos 1990, os criadores de Veneno esperam que a sua série também atue como um espelho para que os membros da comunidade LGBTI se vejam representados na cultura popular. Desde o início, Javier Calvo e Javier Ambrossi (conhecidos como “Los Javis”) queriam que atores e atrizes trans interpretassem personagens trans, embarcando num processo de elenco de três meses para encontrar atrizes que pudessem retratar Ortiz em diferentes fases da sua vida. “Histórias LGBTI devem ser contadas por pessoas LGBTI, porque são as nossas próprias histórias”, disse Ambrossi, acrescentando que a dupla garantiu que houvesse pelo menos uma pessoa trans a trabalhar em cada departamento de produção atrás das câmeras.

La Veneno esteve em destaque no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈

Conforme detalhado no documentário Disclosure, casos de homens cis que interpretam mulheres trans, como Eddie Redmayne em The Danish Girl e Jared Leto em Dallas Buyers’ Club, foram criticados por perpetuar estereótipos prejudiciais sobre a comunidade trans que podem ter consequências na vida real. “Estou tão cansado de ver atores do sexo masculino interpretando mulheres trans com uma peruca. Isso não é justo, porque as pessoas acabam a julgar que somos isso. Não somos isso. Somos mulheres”, disse Jedet. Por suas interpretações de Ortiz, Jedet e suas colegas atrizes Daniela Santiago e Isabel Torres receberam conjuntamente o Prêmio Ondas, um prestigioso prêmio de televisão espanhol, para melhores atrizes no mês passado.

Para os criadores, Javier Calvo e Javier AmbrossiVeneno é uma homenagem a Ortiz, à cultura pop dos anos 1990 e às histórias que eles gostariam de ter visto enquanto jovens gay. “No final das contas, é uma história universal. É uma história sobre amor e falta de amor”, diz Calvo. “Estes tipos de histórias não são apenas para pessoas LGBTI, elas transcendem para outras pessoas, porque as restantes pessoas também querem ouvir as nossas histórias.

Embora fosse muito amada na década de 1990, Ortiz teve uma vida complicada, passando mais de três anos numa prisão para homens ao longo da década de 2000, onde sofreu abusos. “Toda a sua vida foi um exemplo de crimes de ódio e discriminações, e ela sempre tentou superá-lo e sorrir. Por isso, acho que a sua história é muito poderosa para nós, principalmente para pessoas LGBTI acima dos 30 anos. Vivemos algumas, ou todas, essas questões”, diz Lopez. “Muitas de nós aceitamos esses abusos, ela não os aceitou. Ela lutou até o fim.” Ortiz reapareceu na televisão a partir de 2006, como retratado na série, mas ela foi ridicularizada em vez de celebrada da maneira que tinha sido na década de 1990.

Pouco depois da sua biografia ser publicada em 2016, ela faleceu repentinamente numa queda acidental em casa. Desde a sua morte, ativistas como Lopez e seus colegas têm feito lobby por um maior reconhecimento do seu legado. Em 2019, uma placa dedicada à sua memória foi instalada no Parque del Oeste; três semanas depois, foi removida num assalto. Depois da estreia da série Veneno em Espanha, a Câmara Municipal de Madrid ligou para Lopez e informou-o que iriam substituir a placa roubada o mais rapidamente possível. No aniversário da morte de Ortiz a 9 de novembro, Lopez e outras pessoas ativistas realizaram um evento memorial espontâneo que atraiu cerca de 200 pessoas, significativamente mais do que o número que participou na instalação da placa em 2019. “Com a série de televisão, onde a sua vida e os seus problemas e discriminações são mostrados, a resposta tem sido incrível”, diz Lopez.

Não são apenas fãs da série que responderam positivamente à mesma; o Governo espanhol declarou que “a série Veneno conseguiu trazer histórias de vidas de tremenda dificuldade, carregadas de dor, estigma e marginalização para as salas de estar de milhões de famílias”, segundo Boti G. Rodrigo, Diretor de Diversidade Sexual e Direitos LGBTI do Ministério da Igualdade. “Conseguiu despertar a empatia e deixar claro a necessidade e a urgência de fazer justiça para essas pessoas e garantir que as pessoas trans nunca mais precisem passar por tais situações.

É isso que nosso trabalho pode fazer, é criar empatia”, diz Calvo. Já para Jedet, a experiência de retratar a sua heroína quase pareceu destino: “Eu fi-lo como fã dela. Interpretei a personagem dela como forma de dizer que isto é para ti, amo-te, obrigado por me guiares na minha vida”.

“La Veneno” está disponível na HBO Portugal e poderão ver o trailer abaixo:

Fonte: Time.

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