
Quando Javier Ambrossi e Javier Calvo terminaram, em 2025, uma relação de 13 anos, garantiram que a separação não significava necessariamente o fim de Los Javis. Agora revelam que, naquele momento, a realidade era bastante mais incerta: durante as filmagens de La Bola Negra, chegaram a acreditar que aquele seria também o último trabalho que fariam juntos.
Numa entrevista ao The New York Times, os dois realizadores contam pela primeira vez como o filme que escreveram sobre amor, desejo, memória e perda acabou por funcionar como um espelho da própria relação. Foi durante a rodagem que perceberam que o amor romântico que os unira tinha terminado.
«Queríamos fazer aquilo para nos compreendermos», explica Javier Ambrossi sobre uma das relações retratadas no filme. Segundo o realizador, trabalhar essa indefinição através das personagens «abriu uma porta que precisávamos de enfrentar: já não estávamos apaixonados».
Um filme sobre o amor tornou impossível ignorar o fim do amor
La Bola Negra atravessa três momentos da história espanhola — 1932, 1937 e 2017 — através de três homens cujas vidas estão ligadas pelo desejo, pela dor e por uma herança comum. O filme parte de uma obra inacabada de Federico García Lorca e de textos do dramaturgo Alberto Conejero para refletir sobre memória e vivências queer ao longo de quase um século.
É precisamente no segmento contemporâneo que vida e ficção mais parecem tocar-se. Alberto, interpretado por Carlos González, vive com Juan Pablo, personagem de Julio Torres. O filme deixa deliberadamente indefinida a natureza da relação entre ambos: podem ser um casal que perdeu a intimidade ou apenas duas pessoas que partilham a mesma casa.
Essa ambiguidade não foi acidental. Ambrossi explica que os dois realizadores estavam, naquele momento, a tentar compreender a sua própria relação através das personagens. E filmar uma história centrada no amor acabou por tornar impossível ignorar aquilo que já não existia entre eles.
«É um filme sobre o amor e, quando tentas colocar amor verdadeiro diante de uma câmara, percebes subitamente que não o tens», contou Ambrossi.
Uma cena em particular, na qual uma personagem declara a sua paixão por outra, tornou essa perceção inevitável. Foi assim durante a rodagem que chegaram à conclusão: a relação tinha terminado.
Não houve uma terceira pessoa

A revelação permite também esclarecer rumores surgidos durante e após a separação.
Entre eles esteve a especulação de que Guitarricadelafuente, músico espanhol que se estreia como ator no filme, poderia ter estado relacionado com o fim da relação. Calvo rejeita diretamente essa versão. «Isso não aconteceu», afirma, lembrando também que o músico mantém a sua própria relação.
A explicação dada agora pelos próprios realizadores é bastante menos melodramática. Depois de mais de uma década juntos, perceberam que a relação tinha mudado e que já não estavam apaixonados.
Quando anunciaram a separação, em novembro de 2025, percebeu-se que o fim de uma história de amor não significava necessariamente o desaparecimento de uma das mais influentes duplas criativas da cultura queer espanhola.
Na altura, porém, nem os próprios Los Javis sabiam se isso seria verdade.
La Bola Negra deveria ser o fim de Los Javis
Ambrossi e Calvo entraram na reta final do filme convencidos de que a separação pessoal deveria ser acompanhada por uma separação profissional.
«A meio da rodagem dissemos: temos de terminar esta relação», recordaram. E estavam preparados para que La Bola Negra fosse o último filme realizado em conjunto. Levariam o projeto até ao fim, apresentá-lo-iam e seguiriam depois caminhos diferentes.
Mas aconteceu Cannes.
La Bola Negra estreou em competição no festival, onde recebeu uma ovação de cerca de 20 minutos. Poucos dias depois, Javier Ambrossi e Javier Calvo receberam, em conjunto, o prémio de Melhor Realização, partilhado com Paweł Pawlikowski.
O reconhecimento obrigou-os a voltar a olhar para aquilo que faziam juntos.
«Ganhámos Melhor Realização em Cannes. Temos de explorar isto», conta Calvo. «Foi perceber que não devíamos perder isto. Somos uma boa equipa.»
Para o realizador, talvez a situação atual seja até mais simples: «O estranho é serem namorados e trabalharem juntos. O normal é a outra coisa, não é?»
Uma relação que mudou de forma
Ambrossi descreve também a separação de uma forma pouco habitual nas narrativas públicas sobre ruturas amorosas. Agora que cada um recuperou o seu espaço individual, considera conseguir amar Calvo de outra maneira. «Amo-o mais, amo-o melhor», afirmou.
Não significa que a separação tenha sido fácil. Significa que a intimidade construída durante 13 anos encontrou outra forma de continuar. A dupla já está, aliás, a desenvolver um novo projeto conjunto, baseado em acontecimentos reais.
A revelação acrescenta assim uma nova camada a La Bola Negra. O filme já era profundamente atravessado pela memória: pelas vidas queer que desapareceram dos relatos oficiais, pela violência sofrida por gerações anteriores e pela pergunta sobre aquilo que herdamos de quem veio antes.
Sabemos agora que existe também uma memória muito mais íntima dentro da obra. Enquanto recuperavam histórias de homens queer separados pelo tempo, Ambrossi e Calvo estavam simultaneamente a descobrir que a história que tinham construído juntos também precisava de mudar.
De Veneno a La Bola Negra
Los Javis conheceram-se ainda enquanto jovens atores e iniciaram a relação em 2012. Nos anos seguintes, tornaram-se numa das parcerias criativas mais reconhecíveis da televisão e do cinema espanhol.
Criaram La llamada, primeiro para teatro e depois para cinema, Paquita Salas, Veneno e La Mesías. Através da produtora Suma Content, estiveram também ligados a obras como Cardo, Vestidas de azul, Mariliendre e Superestar.
Ao longo desse percurso, colocaram repetidamente personagens e histórias queer no centro da cultura popular espanhola.
La Bola Negra amplia agora essa ambição. O filme transforma diferentes momentos da história espanhola numa reflexão sobre aquilo que permanece depois do amor, da perda e da repressão.
Aquilo que nasceu de uma relação entre duas pessoas encontrou uma forma diferente de sobreviver: não fingindo que nada mudou, mas precisamente porque ambos aceitaram que tinha mudado.
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