
A sexta temporada de Drag Race España ainda não começou, mas já garantiu um lugar na história da franquia. Marcus Massalami, persona artística de Melisa Meseguer, será o primeiro concorrente de todo o universo Drag Race a competir exclusivamente como drag king, levando uma forma de expressão drag durante anos praticamente ausente do formato para um dos seus maiores palcos.
Meseguer é natural de Xàtiva, em Valência, tem 35 anos e integra o grupo de 12 participantes da nova temporada espanhola, que estreia a 27 de setembro.
A participação representa uma estreia para Drag Race España, mas também um marco para a franquia internacional criada por RuPaul. Embora drag kings façam parte da cultura drag há décadas, a competição televisiva construiu grande parte da sua identidade em torno de drag queens.
Marcus chega precisamente para desafiar essa fronteira.
“Já é hora de vermos pelos no peito”, afirma na apresentação oficial do programa.
O artista descreve o seu drag como profundamente mutável. Pode ser “sensível e glamoroso”, mas também transformar-se num toureiro ou num canalizador. Entre as referências aponta Tino Casal, David Bowie e o próprio pai.
A produção apresenta-o ainda como um “senhor poderoso” e “bem cunhado”, alguém que, quando não sabe alguma coisa, simplesmente a inventa. Marcus resume a ambição da participação numa frase: “já está na altura de um rei conquistar este espaço e haver fantasia Drag King”.
Um primeiro que precisa de uma pequena explicação
Marcus não é, tecnicamente, a primeira pessoa ligada à arte drag king a participar num programa da franquia. Na sexta temporada de Canada’s Drag Race, Johnny Jones competiu como parte da identidade artística de Velma Jones. A diferença está precisamente aí: a artista trabalha tanto como drag king, Johnny Jones, como enquanto drag queen, Velma Jones.
Marcus Massalami torna-se, por isso, o primeiro participante cuja identidade drag na competição é exclusivamente a de um king.
A distinção pode parecer pequena, mas é significativa numa franquia que, desde a estreia de RuPaul’s Drag Race em 2009, ajudou a transformar a arte drag num fenómeno global enquanto manteve os drag kings quase totalmente fora da competição.
A chegada de Marcus coloca finalmente essa expressão artística dentro da própria mecânica do programa: desafios de interpretação, comédia, moda, improvisação e performance que deixam de ser apresentados apenas através da construção de feminilidades drag.
“Lesbianizar” Drag Race
Melisa Meseguer leva também outra dimensão de representação para a temporada: é lésbica e surda, utilizando aparelhos auditivos, duas características sobre as quais brinca abertamente na sua apresentação.
Quando lhe perguntam como lida com pessoas que gritam, a resposta é simples: pode sempre tirar o aparelho auditivo. Mas um dos objetivos que assume para a participação é ainda mais explícito: “lesbianizar” o programa.
No Meet the Queens, Marcus recorda como referências as “lésbicas históricas que se travestiram ao longo dos séculos”, ligando a sua personagem não apenas à estética masculina, mas também a uma história queer mais vasta de experimentação com género, roupa e masculinidade.
Essa dimensão torna particularmente interessante a sua entrada num formato onde a representação LGBTQIA+ foi conquistando espaço ao longo dos anos, mas onde determinadas tradições da própria cultura drag permaneceram pouco visíveis.
Drag kings fora do foco televisivo
A ausência não significa falta de tradição. Os drag kings fazem parte há muito da história da performance queer, explorando e exagerando masculinidades através de roupa, maquilhagem, pelos faciais, voz, gesto e personagem.
Tal como acontece entre drag queens, não existe uma única estética drag king. O trabalho pode passar pelo glamour, pela paródia da masculinidade, pelo camp, pelo burlesco, por personagens ou por propostas mais conceptuais. É justamente essa amplitude que Marcus promete mostrar.
A própria artista diz mover-se “do mais fino ao mais grotesco”. Um homem glamoroso inspirado em Bowie pode dar lugar a um toureiro ou a um canalizador, figuras que permitem brincar também com modelos muito reconhecíveis de masculinidade espanhola.
Uma temporada que começa a 27 de setembro
Marcus Massalami junta-se a Àlex Marteen, Alma DeSoul, Buba Anorex, Coco Luna, Joan Chevalier, Kim Miller, Liak, Liz Dust, Maitetxu Mía, Sorny e Vanessa Artiles na sexta temporada espanhola.
Supremme de Luxe regressa como apresentadora, acompanhada novamente por Ana Locking, Javier Ambrossi e Javier Calvo (Los Javis) no júri.
O primeiro episódio estreia a 27 de setembro, depois de o Meet the Queens desta edição se ter tornado o mais visto da história da versão espanhola.
Antes mesmo de conhecermos o seu percurso na competição, Marcus já alargou aquilo que pode significar entrar numa sala de Drag Race. Depois de dezenas de temporadas, países e centenas de concorrentes, há finalmente um rei a disputar a coroa.
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