
Durante muito tempo, a biologia foi usada para sustentar uma ideia aparentemente simples: existem dois sexos claramente definidos, com características, comportamentos e funções igualmente distintas.
Tudo o que escapasse a esse modelo podia ser apresentado como exceção, desvio ou até como algo «contra a natureza».
A própria natureza conta uma história bastante diferente.
Peixes com funções reprodutivas masculinas e femininas, animais que mudam de sexo, borboletas nas quais indivíduos do mesmo sexo apresentam formas muito diferentes ou aves onde são as fêmeas que competem e os machos que cuidam das crias são apenas alguns exemplos.
E Charles Darwin já conhecia vários deles.
É esta história menos contada da biologia que o historiador da ciência Ross Brooks recupera em Darwin and the Queer Origins of Life: A History of Sex and Science, publicado em agosto pela Yale University Press.
Ao revisitar Darwin e outros naturalistas dos séculos XVIII e XIX, Brooks mostra como a diversidade sexual esteve presente nas observações que ajudaram a construir a teoria evolutiva. Mesmo quando acabou secundarizada nas histórias posteriormente contadas sobre ela.
Uma natureza bastante menos binária
A imagem popular da seleção sexual de Darwin é conhecida: os machos competem entre si, enquanto as fêmeas escolhem os parceiros mais fortes, vistosos ou bem-sucedidos.
Darwin desenvolveu este modelo em The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, publicado em 1871, mas as próprias observações reunidas pelo naturalista complicavam bastante essa divisão.
Ross Brooks encontra nos escritos de Darwin uma atenção particular a organismos que desafiavam categorias rígidas de sexo. Um desses exemplos são os peixes do género Serranus. Algumas espécies apresentam aquilo que, em biologia, se designa por hermafroditismo simultâneo: o mesmo indivíduo possui funções reprodutivas masculinas e femininas.
O termo «hermafrodita» continua a ser utilizado cientificamente para determinados animais e plantas. Quando falamos de pessoas, porém, é uma designação desadequada e potencialmente ofensiva; o termo usado atualmente é intersexo.
Darwin interessou-se pelo fenómeno porque considerava que este poderia revelar algo sobre a própria história evolutiva dos sexos. Numa nota privada de 1838 chegou, inclusive, a escrever: «Cada homem e mulher é hermafrodita».
Décadas depois, em The Descent of Man, sugeriu que um antepassado muito remoto dos vertebrados poderia ter sido «hermafrodita ou andrógino».
Estas ideias não correspondem necessariamente à compreensão científica atual da evolução do sexo. Mas mostram como a realidade observada por Darwin já era mais complexa do que uma simples divisão entre dois tipos imutáveis de indivíduos.
As borboletas que complicaram o sexo
Outro exemplo chegou das observações de Alfred Russel Wallace, naturalista que desenvolveu, independentemente de Darwin, uma teoria da evolução através da seleção natural.
Ao estudar borboletas cauda-de-andorinha no arquipélago malaio, Wallace encontrou espécies nas quais os machos apresentavam uma aparência semelhante enquanto as fêmeas podiam surgir sob formas muito diferentes. É aquilo a que hoje chamamos polimorfismo limitado ao sexo.
Entre os casos estudados encontrava-se a borboleta Papilio aegeus ormenus. Darwin regressou várias vezes a estes exemplos em The Descent of Man.
A existência de formas tão diferentes dentro do mesmo sexo ajudava a questionar uma visão demasiado uniforme das características consideradas masculinas ou femininas. A diversidade não estava apenas entre os sexos. Podia também existir dentro de um mesmo sexo.
Quando são elas que competem
Os comportamentos associados aos sexos também estão longe de seguir uma única regra na natureza. Darwin sabia, por exemplo, que algumas aves contrariavam a narrativa de machos competitivos e fêmeas seletivas que dominava muitas das suas descrições.
Entre os exemplos estavam as emas. Nestas aves, as fêmeas podem ser maiores e mais agressivas e competir por parceiros. Os machos incubam os ovos e assumem os cuidados parentais.
Darwin reconheceu explicitamente esta inversão. Em The Descent of Man, escreveu existir nestas aves uma «inversão completa» dos comportamentos parentais e das características habitualmente atribuídas a cada sexo.
Hoje em dia, fenómenos deste tipo são estudados através do conceito de inversão dos papéis sexuais.
O exemplo mostra sobretudo que não existe uma correspondência universal entre sexo, aparência, competição sexual e cuidado parental.
O que vemos e aquilo que escolhemos contar
Ross Brooks não procura transformar Darwin numa espécie de cientista queer. Pelo contrário. Darwin continuava profundamente condicionado pelas ideias sociais da Inglaterra vitoriana. As suas teorias e descrições reproduziam também preconceitos de género, raça e classe do seu tempo.
O próprio Brooks mostra como Darwin frequentemente enquadrava corpos e comportamentos que escapavam às normas sexuais dominantes como anomalias ou retrocessos evolutivos.
A diversidade que observava não o levou necessariamente a defender as pessoas que, na sociedade humana, também desafiavam essas normas. Mas é precisamente aí que surge uma das tensões mais interessantes recuperadas pelo livro.
Darwin e outras pessoas naturalistas encontraram repetidamente uma natureza sexualmente muito mais diversa do que as categorias sociais através das quais procuravam explicá-la.
Estudaram espécies com sistemas reprodutivos masculinos e femininos no mesmo indivíduo, animais que mudam de sexo, lactação masculina, gravidez masculina, comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo e enormes variações dentro das categorias de macho e fêmea.
O livro de Brooks percorre exemplos que vão de lesmas e aves que mudam de sexo a cavalos-marinhos, nos quais os machos engravidam, e comportamentos bissexuais observados em porcos.
Parte desta diversidade entrou na literatura científica. Outra ficou remetida para correspondência, notas e observações marginais ou recebeu muito menos atenção nas narrativas posteriores sobre evolução.
Podemos realmente falar de uma natureza «queer»?
Falar de uma natureza «queer» exige algum cuidado. Um peixe não possui uma identidade não-binária por apresentar funções reprodutivas masculinas e femininas. Uma ave não é lésbica, gay ou trans por apresentar determinado comportamento sexual ou reprodutivo.
Orientação sexual e identidade de género, tal como hoje as entendemos, são conceitos humanos relacionados com experiências individuais, sociais e culturais. Mas «queer» pode ser uma lente útil para observar como a própria biologia desafia categorias que muitas vezes apresentamos como rígidas e universais.
Sobretudo quando a natureza é usada para sustentar o argumento contrário: que apenas uma determinada organização do sexo, do desejo, da reprodução ou dos comportamentos seria biologicamente «natural». A diversidade do mundo vivo oferece pouco apoio a uma visão tão estreita.
Não existe uma única forma de organizar reprodução, características sexuais, escolha de parceiros, competição, cuidado parental ou comportamento sexual na natureza.
É talvez essa a ideia mais interessante de Darwin and the Queer Origins of Life. A diversidade sexual da natureza não começou quando começámos a falar sobre ela. Estava diante dos olhos de naturalistas como Darwin há quase dois séculos.
O que mudou, muitas vezes, foi aquilo que decidimos ver e aquilo que escolhemos contar.
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