
Com uma realização extraordinária, interpretações magnéticas e uma sensibilidade profundamente humana, Los Javis assinam uma das grandes obras do cinema queer contemporâneo. Um filme sobre amor, memória e liberdade que nos recorda que nenhuma vida é insignificante.
★★★★½ — 4,5/5
«Este país tem demasiadas histórias de amor enterradas nos campos. É preciso arranhar a terra para que venham à superfície.» Há uma beleza particular em A Bola Negra (La Bola Negra), o novo filme de Javier Calvo e Javier Ambrossi, a dupla espanhola conhecida como Los Javis. Mas há também a proposta de recuperar as histórias que foram silenciadas, os afetos que tiveram de permanecer escondidos e as vidas que nunca puderam ser plenamente vividas.
Saí da sala com a sensação de ter visto uma obra ainda hoje incomum no grande ecrã: um filme de grande ambição cinematográfica que coloca a homossexualidade no centro da sua narrativa, sem precisar de a justificar, suavizar ou tornar mais confortável para outros públicos.
E, apesar de ser uma obra profundamente queer, A Bola Negra é também uma história universal sobre aquilo que significa viver, amar, pertencer e deixar alguma coisa de nós para as gerações seguintes.
Três histórias, quase um século de silêncio

Inspirado numa peça inacabada do poeta Federico García Lorca [na imagem aos 16 anos] – assassinado por forças franquistas em 1936 – e em ‘La piedra oscura’, do dramaturgo Alberto Conejero, que também assina o argumento, o filme cruza três narrativas que atravessam quase um século de história espanhola: 1932, 1937 e 2017.
A primeira narrativa transporta-nos para o universo da peça inacabada de Lorca, onde acompanhamos Carlos (Milo Quifes), um jovem que procura ser aceite num clube social exclusivo. Mas a suspeita da sua homossexualidade transforma-se num obstáculo à sua entrada. É precisamente desse mecanismo de exclusão, representado pelo voto de uma bola negra pelos restantes membros, que nasce o título da obra.
A segunda narrativa surge em plena Guerra Civil Espanhola, em 1937. Acompanhamos aqui Sebastián (pelo estreante Guitarricadelafuente), um jovem músico que vê a sua vida transformada pela violência do conflito. Sem particular convicção nacionalista, acaba integrado nas forças franquistas, deixando-se conduzir pelas circunstâncias e pela necessidade de sobreviver.
Num hospital militar, fica encarregado de vigiar Rafael Rodríguez Rapún (um deslumbrante Miguel Bernardeau), soldado republicano ferido e prisioneiro, que foi também um dos grandes amores de García Lorca. Entre os dois desenvolve-se uma ligação inesperada, enquanto Rafael procura proteger algo que poderá preservar parte da memória do poeta assassinado.
Finalmente, em 2017, conhecemos Alberto (Carlos González), um jovem historiador que recebe uma inesperada herança familiar. A descoberta leva-o a investigar um passado até então desconhecido, confrontando-o com segredos que atravessaram gerações e com a possibilidade de finalmente lhes dar voz.
As três narrativas desenvolvem-se em épocas diferentes, mas comunicam entre si de uma forma progressivamente mais profunda. Mesmo para quem não tenha presente em pormenor a história recente espanhola, é precisamente nessa relação entre o individual e o coletivo que reside grande parte da força de A Bola Negra.
Um olhar que encontra o épico nos pequenos gestos

Visualmente, o filme é extraordinário. A fotografia constrói verdadeiros quadros na tela, com uma atenção à composição, à luz e aos corpos que torna muitas das suas cenas imortalizadas no tempo.
Mas o que mais me impressionou na realização não foi a escala épica, embora esta também exista. Basta olhar para a sequência de abertura, tão brutal como poderosa. Mais do que esses momentos, foi sobretudo a capacidade de encontrar grandeza nos pequenos gestos que elevou, para mim, o olhar de Los Javis.
Há em A Bola Negra uma sensibilidade cinematográfica muito europeia, e particularmente espanhola, na forma como Los Javis observam as personagens. O ritmo, os silêncios, os espaços e a proximidade emocional permitem reconhecer uma humanidade que nem sempre precisa de ser explicada. Há qualquer coisa de familiar neste modo de contar histórias, talvez pela proximidade geográfica, cultural e histórica entre Portugal e Espanha. Mesmo que os dois países tenham percorrido caminhos distintos, reconhecemos algumas das mesmas tensões, contradições e formas de viver os afetos. Sem precisarmos, para isso, de cair em nacionalismos bacocos, nem cá nem lá.
É com um olhar prolongado, um movimento de um corpo ou um toque quase impercetível entre duas mãos que se transmite aquilo que as personagens não podem dizer em voz alta. E Los Javis dão-lhes tempo para se fazerem sentir.
A nudez assume também significados aparentemente opostos. Há corpos feridos, mutilados ou mortos, marcados pelo horror da guerra. E há corpos desejados, contemplados com ternura e atração, capazes de despertar a possibilidade de uma vida diferente. O mesmo corpo que pode ser destruído pela guerra é também aquele que pode ser desejado pelo amor.
Num equilíbrio inteligente entre a frieza imposta pela guerra com a emoção dos sentimentos, o resultado é uma obra simultaneamente íntima e grandiosa, profundamente política sem se reduzir a uma mensagem panfletária, e emocional sem depender constantemente do melodrama. É nesta harmonia entre a beleza e a brutalidade, entre a contenção e a intensidade, que torna esta visão tão especial.
A canção ‘La Nieve’, interpretada por Guitarricadelafuente, integra-se igualmente nesta linguagem. A música não se limita a acompanhar as imagens: prolonga o universo poético do filme e ajuda a construir uma atmosfera onde a memória, o desejo e a ausência parecem coexistir.
Guitarricadelafuente e Penélope Cruz: duas presenças magnéticas
A estreia de Guitarricadelafuente como ator é uma das grandes revelações de A Bola Negra. O celebrado músico espanhol dá vida a Sebastián com uma subtileza impressionante. A sua expressividade está muitas vezes no olhar, na hesitação ou na forma como ocupa o espaço. É uma presença que enche o ecrã sem precisar de o dominar.
Sebastián não é uma personagem perfeita, nem particularmente heroica. É alguém que tenta sobreviver numa realidade brutal, mesmo que isso implique esconder as suas motivações, adaptar-se ao poder e à repressão e tomar decisões moralmente ambíguas. E é precisamente por isso que se torna tão humano.
A relação com o soldado capturado Rafael desenvolve-se sob o peso da guerra e da impossibilidade de viver livremente. A atração e a ternura convivem com o medo, a desconfiança e a consciência de que qualquer aproximação pode ter consequências irreversíveis.
Mas, a partir de certo ponto, até Sebastián percebe que se encontra num caminho sem retorno: «E quem me vai defender da tua beleza?». É também nesse momento que Sebastián reconhece a sua vulnerabilidade quando o seu desejo, em vez de representar apenas uma possibilidade de felicidade, também o expõe ao perigo.
Miguel Bernardeau, como Rafael, é um contraponto à interpretação de Guitarricadelafuente. Entre ambos, um preso convalescente republicano e um soldado nacionalista pouco convicto, há uma química que torna credíveis tanto os momentos de aproximação como as distâncias impostas pelas circunstâncias.

Mas há outra presença que merece um destaque especial: Penélope Cruz. A atriz surge apenas em duas cenas, na pele de Nené Romero, mas arrisco-me a dizer que quase-quase rouba o filme. Magnética, intensa e absolutamente icónica, Cruz interpreta uma artista que enfrenta um público nacionalista, a maioria soldados, sem abdicar da sua identidade e resistência ao regime através dos códigos e da linguagem dissimulada do seu espetáculo.
O medo está presente, sobretudo nos seus olhos, mas este não a paralisa. A sua resistência não se manifesta através das armas ou de grandes discursos políticos. Manifesta-se na arte, na coragem de continuar a atuar e na recusa de desaparecer perante quem a ameaça. É um lembrete particularmente importante de que a resistência pode assumir muitas formas. E é também pela sua voz que ouvimos uma das frases mais marcantes do filme: «O transformismo é a fantasia da possibilidade. A guerra, o seu contrário.»
Poucas palavras poderiam sintetizar tão bem o confronto entre estes dois mundos. De um lado, a arte que permite imaginar, experimentar e transformar a realidade. Do outro, a guerra que destrói precisamente todas essas possibilidades.
O que deixamos para o futuro quando nos tentam apagar?
Há uma dimensão de A Bola Negra que me parece especialmente importante para as pessoas LGBTI+. Durante séculos, as nossas histórias foram excluídas dos relatos oficiais, reduzidas ao silêncio ou apresentadas através da vergonha e da condenação moral. Muitas pessoas viveram sem poder assumir os seus afetos, formar as famílias que desejavam ou reconhecer publicamente quem amavam. Outras morreram sem deixar testemunhos que permitissem reconstruir as suas experiências.
Esta é, aliás, também uma questão que encontramos na história portuguesa e que a exposição ‘Adeus, Pátria e Família’, do Museu do Aljube, procurou explorar, recuperando memórias de repressão e resistência das pessoas LGBTI+ durante a ditadura e após o 25 de Abril.
O filme mostra-nos como o legado humano não se esgota nas suas formas mais convencionais, por regra através da família, do casamento ou da descendência. Também deixamos marcas nas pessoas que amamos, nas escolhas que fazemos, na arte que criamos e nas mudanças que ajudamos a tornar possíveis. Muitas vezes, sem sequer imaginarmos o impacto que poderão ter nas gerações seguintes. Afinal, a História também se constrói com pequenos gestos cujas consequências ninguém poderia antecipar.
O filme reconhece precisamente esse legado e atribui-lhe uma dignidade que raramente encontramos em narrativas históricas de semelhante dimensão. É Alberto, no presente, quem permite que uma história perdida volte a existir através da sua investigação. E que a memória de Lorca seja recuperada sem omissões convenientes, sem meias palavras e sem apagar a sua homossexualidade, os seus afetos e as relações que também fizeram parte da sua vida. Mais do que uma descoberta familiar, é um exercício de reparação da memória.
«O coração de um maricas é um oceano cheio de segredos». Sim, o vazio das histórias que ficaram por conhecer é imenso. Não esqueçamos que o sofrimento de cada pessoa e as suas consequências podem atravessar gerações quando perpetuados no tempo. Num mundo cada vez mais individualista, importa reconhecer que a memória coletiva não pertence apenas a quem viveu os acontecimentos. Pertence também a quem herdou as suas consequências.
A liberdade não é uma conquista definitiva
Ver A Bola Negra em 2026 acrescenta inevitavelmente uma dimensão política à experiência. A distância entre a Espanha da Guerra Civil e o presente é enorme em matéria de direitos e liberdades. Aliás, o país lidera orgulhosamente este ano o Rainbow Map da ILGA-Europe. Mas seria um erro acreditar que essa evolução é inevitável ou irreversível.
Num momento em que movimentos de extrema-direita recuperam influência, normalizam discursos discriminatórios e procuram restringir direitos de pessoas LGBTI+, o filme funciona também como um aviso. A repressão não começa necessariamente com a violência mais explícita. Pode começar com a exclusão social, com a imposição da vergonha ou com a convicção de que determinadas pessoas devem esconder-se para serem toleradas.

A bola negra que impede Carlos de entrar num clube privilegiado é, nesse sentido, mais do que um elemento narrativo. Representa o poder de uma sociedade para decidir quem merece pertencer e quem deve permanecer à margem. E obriga-nos a refletir sobre as formas, antigas e contemporâneas, através das quais continuamos a distribuir essas bolas negras.
Mas A Bola Negra não se limita a recordar a violência da discriminação. É também um filme sobre a possibilidade de romper com esse ciclo. «O que perdemos quando nos negamos a nós próprios? A vida. É preciso viver.» Viver na sombra não significa necessariamente deixar de amar, desejar ou encontrar momentos de felicidade. Significa, muitas vezes, que tudo isso acontece condicionado pelo medo, pela vigilância e pela impossibilidade de escolher livremente. E há uma diferença profunda entre simplesmente sobreviver e poder viver plenamente.
Conhecer a história das gerações anteriores é, por isso, indispensável. Não apenas para reconhecer o sofrimento e as injustiças, mas também para compreender as escolhas, as resistências e as conquistas que tornaram possíveis as nossas liberdades atuais. Aquilo que hoje podemos viver deve muito a quem, antes de nós, não teve essa possibilidade.
Recordo muitas vezes como, quando nasci, a homossexualidade ainda era crime na lei portuguesa. Houve quem lutasse para romper esse legado institucional de discriminação e de vergonha. Importa, hoje, não assumir também que este novo legado de liberdade continuará garantido sem o defendermos.
É esse um dos poderes de conhecermos a nossa História e as nossas estórias. Ganharmos consciência dos avanços, mas também dos recuos, para conseguirmos melhor lidar com eles.
Um filme para ver, sentir e recordar
Mesmo com uma duração superior a duas horas e meia, este é um daqueles filmes em que apetece permanecer um pouco mais dentro das histórias, observar os detalhes e acompanhar as personagens. O seu enredo não vive propriamente de surpresas, sabemos desde o início que, tal como muitas antes de nós, nem todas encontrarão a felicidade que procuram.
Acima de tudo, é cinema que merece ser visto numa sala de cinema. A fotografia, o desenho sonoro, a música e a dimensão das imagens ganham uma força particular no grande ecrã. Aliás, conto voltar a vê-lo no cinema. Desta vez com o meu marido, com quem pude casar porque houve quem, antes de nós, lutasse para que esse direito fosse hoje uma realidade que vivemos.
Porque A Bola Negra não é apenas um filme importante para a comunidade LGBTI+. É também, simplesmente, um grande filme, capaz de chegar a qualquer pessoa que se deixe envolver pelas suas histórias. E talvez essa seja uma das suas maiores qualidades: não procurar tornar a experiência queer universal através da diluição da sua identidade, mas mostrar como histórias profundamente específicas podem revelar experiências humanas que dizem respeito a todas as pessoas.
Ao recuperar as histórias de amor enterradas, Los Javis recordam-nos que a História não é feita apenas de guerras, regimes políticos e grandes acontecimentos. É também feita de pequenos gestos, de afetos interrompidos, de escolhas difíceis e de vidas que merecem ser lembradas. Algumas dessas histórias nunca poderão ser recuperadas na totalidade. Outras sobreviveram apenas porque alguém decidiu protegê-las, transmiti-las ou, muitos anos depois, procurá-las. E é nessa possibilidade de recuperar o passado para transformar o presente que A Bola Negra encontra o seu significado mais profundo.
Não podemos devolver a quem veio antes de nós as vidas que não pôde viver, mas podemos recusar que essas vidas sejam esquecidas.
A Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, estreia nos cinemas portugueses a 5 de novembro de 2026, com distribuição da Nitrato Filmes.
Classificação: 4,5/5
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