
O primeiro-ministro neerlandês Rob Jetten e o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, visitaram um dos principais arquivos comunitários LGBTI+ da cidade. O encontro juntou história, cultura e novas gerações, num momento em que Jetten alerta para a pressão crescente sobre direitos LGBTI+ no mundo.
Rob Jetten, primeiro-ministro dos Países Baixos, e Zohran Mamdani, presidente da Câmara de Nova Iorque, visitaram esta quinta-feira, o Lesbian, Gay, Bisexual & Transgender Community Center, conhecido simplesmente como The Center, em Manhattan.
A visita decorreu durante a passagem de Jetten por Nova Iorque para a Assembleia Geral das Nações Unidas e incluiu um encontro com jovens LGBTI+ e uma passagem pelo arquivo histórico da instituição.
Criado em 1983, The Center nasceu como um espaço seguro para o ativismo LGBTI+ numa cidade então profundamente marcada pela crise da sida. Mais de quatro décadas depois, reúne serviços de saúde e apoio social, programas juvenis, atividades culturais, uma biblioteca e o LGBT Community Center National History Archive.
O arquivo preserva documentação relacionada com vidas e organizações LGBTI+ de Nova Iorque. As suas coleções incluem materiais desde 1878 até ao presente, entre fotografias, correspondência, cartazes, publicações, vídeos, gravações áudio e documentos digitais.
Um arquivo que continua a ser construído

Durante a visita, Jetten e Mamdani conheceram parte destas coleções e conversaram com jovens que participam nos programas do centro.
Algumas pessoas apresentaram trabalhos artísticos e zines que criaram e que passaram também a integrar o arquivo. Desta forma, a instituição não preserva apenas capítulos históricos do movimento LGBTI+: documenta igualmente as experiências das novas gerações.
Jetten destacou precisamente essa ligação entre diversidade, memória e presente.
“É sobre celebrar a diversidade da comunidade, mas também explicar a todas as pessoas que nos visitam que ainda há muito trabalho por fazer em todo o mundo.”
O primeiro-ministro estabeleceu ainda um paralelo com iniciativas nos Países Baixos destinadas a preservar e apresentar a história LGBTI+ através de museus e exposições.
Mamdani dirigiu-se também às pessoas jovens presentes, salientando a importância da comunidade criada naquele espaço.
“É realmente bonito ouvir-vos falar sobre a importância deste lugar e sobre terem criado uma comunidade neste centro.”
Carla Smith, CEO do The Center, considerou significativo que a administração municipal tenha escolhido aquela instituição para receber o primeiro-ministro neerlandês.
“Este é um lugar ao qual muitas pessoas de todo o mundo vêm quando querem explorar a história LGBT”, afirmou ao The Advocate, acrescentando que dar visibilidade ao trabalho realizado pelo centro é atualmente “mais importante do que nunca”.
“É vital ter um espaço como este”
A visita deu também espaço às experiências de quem utiliza diariamente os serviços do centro. Jaylynn Gaston, jovem de 19 anos do Bronx, apresentou aos dois responsáveis políticos uma colagem construída a partir de fotografias que tirou. Gaston explicou que já recorreu a diferentes programas da instituição, incluindo apoio na procura de emprego, orientação sobre cuidados de saúde e atividades destinadas a jovens LGBTI+.
“É realmente empoderador estar com a minha comunidade e também ter acesso a recursos.”
Para Gaston, mostrar esse trabalho a Mamdani e Jetten era particularmente importante porque “é vital ter um espaço como este”.
A presença de trabalhos contemporâneos no próprio arquivo acaba por demonstrar a natureza particular desta instituição: preservar a história não significa apenas proteger documentos do passado. Significa também decidir que experiências do presente ficarão disponíveis para as gerações futuras.
De Stonewall ao The Center
A passagem pelo The Center foi a segunda visita de Jetten a um lugar central da história LGBTI+ durante a sua estadia em Nova Iorque.
Dias antes, o primeiro-ministro esteve no Stonewall Inn, palco da revolta de 1969 que se tornou uma referência internacional do movimento moderno pelos direitos LGBTI+.
“Estamos sobre os ombros de grandes pessoas que começaram aqui esta luta pela igualdade de direitos”, afirmou nessa ocasião.
Jetten destacou também a necessidade de preservar estes lugares e relacionou a conquista de direitos com a necessidade de atenção permanente às ameaças que podem surgir.
“A emancipação de uma comunidade nunca termina e temos de estar conscientes das novas ameaças que a nossa comunidade poderá enfrentar.”
Os Países Baixos tornaram-se, em 2001, o primeiro país do mundo a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 2026, Jetten tornou-se também o primeiro homem assumidamente gay a ocupar o cargo de primeiro-ministro do país.
Após o encontro com Mamdani, Jetten voltou a relacionar a visita com o contexto internacional, afirmando que Nova Iorque e os Países Baixos atribuem grande importância aos direitos das pessoas LGBTI+ e à sua defesa “num momento em que esses direitos estão sob pressão em todo o mundo”.
Entre Stonewall e um arquivo onde os zines produzidos hoje por jovens passam a fazer parte da história documentada da comunidade, a passagem de Jetten por Nova Iorque colocou assim em evidência duas dimensões inseparáveis da memória LGBTI+: conhecer as lutas que abriram caminho e garantir que as vidas do presente também ficam registadas.
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