A Homossexualidade Não Se Pega


É com prazer que recebemos novo testemunho vindo de fora, as experiências valem mais quando as partilhamos, quando aprendemos com elas. E por isso, no seguimento da luta una e da palavra plural (e com um obrigado pelo meio), aqui ficam elas:

Há algo que o mundo parece não compreender: a homossexualidade não se pega. Não passa por osmose. Não é bacteriana, vírica ou fúngica, não se vira gay por abraçar outro ou conviver com ele/ela.

Como pessoa heterossexual-até-prova-em-contrário (ou seja, até hoje nunca nada me indicou o contrário, mas há a possibilidade de nunca ter conhecido a mulher da minha vida, uma pessoa sabe lá o que a espera) a última coisa que achava que me ia acontecer era ter de lidar com a homofobia direccionada a mim. A parte gira (ou não), é que tive.

Recuemos à escola secundária e ao momento em que me apercebi que uma amiga minha tinha uma namorada. Até aí tudo normal, excepto na parte relativa a ambas as famílias. Os pais dela já andavam nos antidepressivos, enquanto que a minha família decidiu declarar-me temporariamente lésbica, por ausência de namorados conhecidos e por excesso de convivência com uma. Não é que me tenham colocado um carimbo na testa e escrito declaração em papel azul de 28 linhas, mas as insinuações estavam lá, todos os dias, todo o dia.

Enquanto que a família dela parecia esperar que o convívio comigo “curasse” a filha, a minha parecia achar que, de algum modo, a coisa se ia pegar. E, sejamos honestos, a minha família não tem muito jeito para o sarcasmo ou para a piada com segundo sentido, o que resultava em acusações diárias que se agravavam sempre que eu, no pico das hormonas aos saltos e do meu feitio, respondia “e se fosse?!”.

Não deixa de ter piada que seja socialmente aceitável que uma mulher tenha vários amigos gay, desde que sejam do sexo masculino. O amigo gay para ir às compras e ler revistas cor de rosa (matem-me agora antes que continue com o estereótipo Sex and the City), mas amigas lésbicas é todo um outro terreno. Não só esta tendência para achar que também nos vamos tornar lésbicas, mas pela tentativa constante de tentar tornar a amizade estranha “ela não gosta de ti? E nos balneários? Isso não te incomoda?”.

A mim, o que me incomoda é a falta de bom senso dos outros.

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