Sobre As Crianças Transgénero

Ao longo dos últimos anos o tema das crianças transgénero tem ganho algum destaque nos média e nas redes sociais (e não passou despercebido por aqui e aqui). O factor novidade tem ajudado à proliferação de histórias em que crianças recebem tratamentos para que a sua identidade sexual correspondesse ao corpo que elas têm e virão a ter.

Como é óbvio este assunto não pôde deixar de estar envolto em polémica, com ataques por parte de supostos defensores das crianças e de como este tipo de famílias que apoia a criança a passar por um tratamento daqueles é uma aberração. Após várias leituras sobre o tema, onde se inclui o recente artigo do Jornal Observador “Olá, eu sou o João e gosto de brincar com coisas de menina” (obrigado, Sandra, pela partilha ❤ ), vamos tentar esclarecer algumas coisas sobre estas pessoas.

Uma das imagens que a sociedade tem de pessoas transgénero é a de homens vestidos de mulheres e de mulheres vestidas de homens. Esta imagem altamente vincada no subconsciente das pessoas não existe por mero acaso. Estas pessoas que possuem aparência sexual mista são vítimas do silêncio das suas famílias, são vítimas do não reconhecimento e da vergonha que desde cedo sentiram, não tiveram acesso, em tempo útil, aos tratamentos que hoje existem.

Os tratamentos e terapêuticas modernos devem ser considerados mal haja alguma suspeita que a criança possa ser transgénero. A razão é simples, para além do factor tempo – e todo este processo leva largos anos acompanhado por equipas médicas e psicólogas -, a criança irá em breve atingir a puberdade e, com ela, surgirão mudanças biológicas e fisiológicas que afectarão o seu aspecto e o seu corpo.

Ora, precisamente de forma a evitar que a criança desenvolva os traços sexuais do género que não se identifica (aqueles que vemos em pessoas transgénero que não fizeram os tratamentos atempadamente), a equipa médica dá à criança tratamentos hormonais para atrasar essa mudança típica da puberdade. Quando a criança se torna adulta, e após todo o acompanhamento adequado, poderá então ponderar-se a sua mudança de sexo que, entenda-se, pode ou não acontecer, dependendo dos casos. Todo este processo pode levar mais de dez anos a decorrer mas trará à pessoa transgénero uma identificação pessoal e uma qualidade de vida, a todos os níveis, desejadas.

É muito fácil confundir estes casos como coisas de crianças, como fases e que mais vale ignorar e não as incentivar porque isso depois lhes passa. O que as pessoas que apresentam estes argumentos não entendem é que estes casos são efectivamente reais, não são fases, não são brincadeiras de crianças, são casos estudados e identificados clinicamente, são casos que levam anos a ser acompanhados e que uma família que suspeite de uma criança transgénero não deve ignorar ou, pior, reprimi-la. Deve, sim, pedir ajuda a especialistas.

Convém relembrar as taxas elevadas de suicídio destas pessoas que, na realidade, apenas nasceram meninos em corpo de meninas e meninas em corpo de meninos. Se, com a informação que dispomos, pudermos ajudar estas pessoas a receber o apoio e o tratamento adequados, porque não haveremos nós, como sociedade, o fazer?

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