The Comeback de Lisa Kudrow

Em 2005 estreava o primeiro grande veículo de relançamento para Lisa Kudrow, após o sucesso estrondoso de Friends onde personificou a hilariante e memorável Phoebe Buffay. Ironicamente intitulada The Comeback, criada e escrita por Kudrow e Michael Patrick King de Sex & The City,  era uma série em jeito de faux-reality show que acompanhava uma desaparecida estrela de sitcom americana na tentativa de reencontro com a fama.

Os paralelismos são apenas superficiais e sinal de que Kudrow sabe fazer humor consigo mesma . No entanto nada tem a ver com Valerie Cherish, uma inofensiva mas egocêntrica actriz de Hollywood que tenta a todo o custo alcançar de novo uma réstia do estrelato de outrora, mesmo que isso implique a sua humilhação constante. Talvez seja por isso que a série, uma declarada comédia negra que lidava com os percalços da fama antes do grande boom dos reality-shows, nunca encontrou um lugar junto de um público mais amplo e, mesmo sendo exibida na prestigiada HBO, foi cancelada logo na primeira temporada.

No entanto algo bizarro aconteceu e The Comeback foi ganhando estatuto de culto ao longo dos anos. As embaraçosas desventuras de Valerie tornaram-se motivo de idolatro por um grupo restrito de admiradores, muitos dos quais pertencentes à comunidade gay. Tal foi reconhecido pela própria Lisa Kudrow recentemente, quando a série inesperadamente regressou depois de 9 anos de ausência. “Na minha opinião os homens gay são seres superiores. Acredito mesmo nisso” disse em declarações à PrideSource. A realidade é que por detrás deste amor mútuo existe no âmago de Valerie Cherish, debaixo da superficialidade postiça, características com as quais as pessoas homossexuais se identificam: uma força sobre-humana de perseverança e uma carapaça de tal forma impenetrável que lhe dá a capacidade de lidar com a humilhação e derrota de forma estranhamente estóica. Uma das cenas fulcrais da primeira temporada encontra Valerie a destruir-se numa reinterpretação de “I Will Survive” de Gloria Gaynor, mas a conseguir catarse nessa nova humilhação.

Também não é por acaso que o melhor (e único) amigo de Valerie seja Mickey, o seu cabeleireiro dos tempos de glórias e uma deliciosa personagem maior que a vida protagonizada por Robert Michael Morris. Nesta soberba segunda temporada, estreada no final do ano passado e ainda mais avassaladora, existe um arco tremendamente comovente e dramático envolvendo a amizade de ambos que contrasta com o tom duro e muitas vezes cruel que esta sátira implacável carrega. Lisa Kudrow revela-se de novo como uma actriz de uma densidade e alcance surpreendentes e é notório como consegue imortalizar esta personagem na sua interpretação ao mesmo tempo que conjura o estigma sexista da indústria americana, disposta a vampirizar as mulheres até elas ameaçarem envelhecer.

No entanto, talvez por continuar demasiado negra e acutilante, esta segunda temporada seja mesmo a derradeira desta comédia improvável. The Comeback continua muito à frente do seu tempo e é provavelmente a mais desconfortável e fascinante obra televisiva da última década. Mas no seu humor negro, de total aniquilação dos falsos ideais de Hollywood, conquistou um lugar único no panorama cultural dos nossos tempos. Um fenómeno histórico irrepetível.

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