Feel Good, a nova comédia da Netflix em que o amor entre mulheres é um delicioso turbilhão de emoções

Bem sei que os tempos estão especialmente convidativos a isto, mas a verdade é que vi a primeira temporada de Feel Good de uma assentada. A “dramédia”, que se baseia vagamente na vida da autora e protagonista, Mae Martin, aborda a relação entre duas mulheres, Mae e George (Charlotte Ritchie) que, ao fim de cinco minutos do primeiro episódio, se apaixonam, têm sexo e, sim, decidem viver juntas.

Mas a série está longe de se basear em estereótipos, longe disso. Enquanto Mae, uma comediante canadiana andrógina que vive um período de reinício de vida em Inglaterra sempre se conheceu fora do armário, George, uma típica rapariga bonita inglesa, namorou homens até se ter cruzado com Mae num café de stand-up. George é assim apelidada como uma “heterossexual social”. E os avanços e recuos na relação de ambas alimentam a trama, que conta com momentos de comédia tão brilhantes como reais, de um realismo quase palpável, fazendo lembrar por vezes a secura genial de Tig Notaro.

O enredo, que por vezes lembra Please Like Me, não tanto pelo conteúdo, mas pela sinceridade do mesmo, tem como linha condutora a forma como, nem sempre de forma consciente, saltamos de vício em vício, nalguns casos de forma autodestrutiva. E é esse o segredo de Mae, revelado logo de início quando, numa videochamada com a mãe – a sempre brilhante Lisa Kudrow -, esta lhe pergunta se já encontrou um grupo de apoio a dependentes químicos em Londres. É assim que George, passados os primeiros meses de paixão ardente, descobre do passado de consumo e venda de droga e da prisão de Mae.

Mae, garante, está limpa há vários anos e prefere não falar no passado – tenta até apagá-lo quando, impulsivamente, queima os seus pertences antigos. Prefere focar-se no futuro, no seu futuro com George que, por seu lado, não consegue ganhar coragem para contar a colegas e família a sua relação lésbica. Mae vive para fugir do passado. George vive presa ao mesmo.

É através desta dualidade que conhecemos as duas mulheres, imperfeitas, tão fortes como frágeis, num equilíbrio que raramente vemos numa série desta estrutura. A tentação da recaída não é tratada aqui de forma condescendente, está sempre presente nos olhos de Mae quando se cruza com a hipótese de voltar a consumir. Já George arrasta com mentiras a invisibilidade da sua nova relação. Existe ali uma resistência a serem – sermos – verdadeiramente livres. O ser humano é mesmo um turbilhão delicioso de incoerências e emoções. 

Os episódios de Feel Good são curtos, mas as personagens entram-nos pela sala, pelo quarto adentro e crescem connosco. Aqui está Mae. E aqui George. Entre tanto sexo, tentação e amor, é difícil não nos sentirmos — se não bem — pelo menos em muito boa companhia.

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.


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