A Má-Fé Do Papa Francisco

Não é intuito deste espaço cercar ninguém em particular, é um espaço onde se pretende cercar, sim, ideias. Mas nestes últimos dias o Papa Francisco, digamos, tem-se posto a jeito. E um alto representante político e religioso como ele, mesmo com as suas convicções, podia ter mais cuidado com a forma como diz certas coisas. Porque há sempre várias formas de dizermos a mesma frase e o Papa Francisco é desonesto e ofensivo quando fala sobre a homossexualidade.

Ora, é verdade que há uns tempos atrás enchi-me de esperança neste Papa, pois pareceu-me uma pessoa que abraçava outras pessoas, independentemente da sua natureza. Quem sou eu para julgar os gays?, reflectiu ele há umas semanas. E estas palavras correram mundo. E eu ganhei-lhe um respeito que poucos líderes religiosos têm ganho. Porque, apesar de todas as nossas diferenças, há que respeitar alguém que consegue espelhar-se noutrem e ter compaixão por alguém diferente de si. E foi esta imagem que criei até à semana passada, semana em que o Papa visitou as Filipinas e disse, perante uma multidão, que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma ameaça à família e que desfigura o plano de Deus da criação (link).

Estas afirmações, para além de serem um estalo a um grupo de pessoas, muitas delas católicas, são uma desilusão. Como pode alguém, seja quem for, dizer-se pequeno para julgar os gays e depois dizer uma coisa destas? Não pode ser a mesma pessoa, não uma pessoa certa dos seus princípios.

Mas o Papa não se ficou por aqui e, naquela viagem de regresso no avião falou, como foi bem noticiado, sobre as ofensas a outras religiões, ofensas à sua mãe e como os católicos não devem procriar como coelhos. Mas houve mais declarações que passaram despercebidas. Vejamos, quando pedido, por um jornalista alemão, para esclarecer a expressão “colonização ideológica” que usou num dos seus discursos, foi esta a resposta:

Quanto à colonização ideológica, direi apenas um exemplo que eu mesmo constatei. Há vinte anos atrás, em 1995, uma Ministra da Educação pedira um grande empréstimo para construir escolas para os pobres. Deram-lhe o empréstimo com a condição de que, nas escolas, houvesse um livro para as crianças de certo grau de escolaridade. Era um livro escolar, um livro didacticamente bem preparado, onde se ensinava a teoria de género. Esta senhora precisava do dinheiro do empréstimo, mas havia aquela condição. Sagaz, disse que sim e fez preparar outro livro, tendo dado os dois e assim resolveu o problema…

Esta é a colonização ideológica: invadem um povo com uma ideia que não tem nada a ver com o povo: com grupos do povo, sim; mas não com o povo. E colonizam o povo com uma ideia que altera ou quer alterar uma mentalidade ou uma estrutura. Durante o Sínodo, os bispos africanos lamentavam-se disto mesmo: que, para certos empréstimos, se imponham determinadas condições. Limito-me a dizer este caso que vi.

Porque falo de «colonização ideológica»? Porque agarram-se precisamente à necessidade dum povo: aproveitam-se das crianças para ali entrar e consolidar-se. Mas isto não é novo. Fizeram o mesmo as ditaduras do século passado; entraram com a sua doutrina. Pensai nos «Balilla», pensai na Juventude Hitleriana…

Colonizaram o povo; queriam fazê-lo. Mas, quanto sofrimento! Os povos não devem perder a liberdade. O povo tem a sua cultura, a sua história; cada povo tem a sua cultura. Mas, quando chegam condições impostas pelos impérios colonizadores, procuram fazer com que os povos percam a sua identidade para se criar uniformidade. Esta é a globalização da esfera: todos os pontos são equidistantes do centro.

Mas, a verdadeira globalização – como gosto de dizer – não é a da esfera. É importante globalizar, não como a esfera, mas como o poliedro, isto é, que cada povo, cada parte mantenha a sua identidade, o seu ser, sem acabar colonizada ideologicamente. Estas são as «colonizações ideológicas».

Há um livro (desculpai, se faço publicidade!), há um livro intitulado Lord of the World [Senhor do Mundo]. Talvez inicialmente o estilo nos pareça um pouco pesado, porque foi escrito no ano 1907, em Londres; naquela época, o escritor viu este drama da colonização ideológica e descreve-o no livro. O autor é Benson; escreveu-o em 1907, recomendo-vos a sua leitura. Lendo-o, compreendereis bem o que quero dizer com «colonização ideológica».

São palavras extremamente graves, insultuosas, em particular, para as pessoas LGBT, comparando, em última análise, a educação e a formação da sociedade com a propaganda nazi. A Igreja durante a sua história vacilou entre o conhecimento e o obscurantismo, reprimindo os povos com ignorância de forma a dominá-los. Esta Igreja não pode, em pleno século XXI, insinuar uma coisa destas. A sociedade precisa estar devidamente informada e educada, com acesso a estudos fidedignos, sejam eles sobre a identidade de género ou outros. A Igreja não pode opor-se a isso, para o bem de todos. E estes não podem, nunca, ser confundidos com campanhas de ódio. São comparações desonestas e, arrisco-me a dizer, de má-fé.

Fonte.

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