A Idade de Ouro (e Segredos) de Hollywood

Ontem dei por mim a ver ‘Hitchcock’, filme menor de Sacha Gervasi mas de entretenimento garantido nem que seja pelas inúmeras visões por detrás da cortina sobre a feitura de um dos mais revolucionários filmes de sempre, ‘Psycho‘, lançado em 1960. Existe no entanto uma cena extremamente reveladora, a da entrevista a Anthony Perkins, interpretado com uma aproximação quase assustadora por James D’Arcy, em que Alfred Hitchcock faz o seu típico jogo mental e consegue penetrar na alma do até à altura desconhecido actor. Viu nele, para além do complexo de Édipo, algo que o fazia perfeito para desempenhar o papel do torturado Norman Bates, Perkins era homossexual. O subtexto é cuidadosamente discreto, tinha de o ser na altura. Mas já em ‘Rope‘, doze anos antes, essa abordagem a relações homossexuais vergonhosamente escondidas foi metaforizada no baú onde o casal constituído por John Dall e Farley Granger mantinham o cadáver de um assassinato por ambos perpetrado.

Anthony Perkins

Granger foi dos poucos actores da idade de ouro de Hollywood que viveu parte e o final da sua vida abertamente bissexual. O mesmo não se pode dizer de Perkins, que tentou manter silenciada a sua orientação sexual e acabou por inclusivamente casar e ter filhos. Morreu aos 60 anos devido a complicações derivadas de SIDA. Mas o seu caso não é único. Foi também esse o triste fado de um dos maiores galãs de Hollywood, Rock Hudson. Meses antes da sua morte já era pública a sua doença e foi uma das primeiras caras do assolo do VIH. Rumores correm que Hudson chegou a casar numa cerimónia não oficial com o actor Jim Nabors, apesar do último nunca ter reconhecido o relacionamento.

Montgomery Clift terminou de forma ainda mais trágica. Percursor de génios torturados como James Dean e River Phoenix, a sensibilidade que Clift levou aos grandes ecrãs nunca chegou a realizar o seu total potencial, tendo-se alegadamente suicidado por via de drogas ao longo de anos sucessivos a viver com a incapacidade de lidar com a sua homossexualidade. Estes são apenas alguns exemplos mas a lista é grande: Katherine Hepburn, Cary Grant, Joan Crawford, Lawrence Olivier, entre outros, parecem ter num momento ou noutro tido de esconder a sua sexualidade.

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Montgomery Clift

Era necessário na altura que assim fosse, mas hoje parece ainda haver um estigma em Hollywood em relação à sexualidade das grandes estrelas. Muitos afirmam ainda tratar-se de receio de que o público pode não conseguir vê-los como protagonistas de romances heterossexuais e imediatamente limitar a sua carreira. É uma homofobia enraizada e totalmente infundada. Felizmente já existem nos dias de hoje diversos casos de sucesso que provam exactamente o contrário: Zachary Quinto, Matt Bomer, Jim Parsons, Neil Patrick Harris, Jonathon Groff, entre outros.

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Zachary Quinto e Zoe Saldana

Este último, protagonista da série Looking da HBO que está a destruir estereótipos gay a cada novo episódio, encontra-se num triângulo amoroso fictício com o também abertamente homossexual Russell Tovey e o abertamente heterossexual Raul Castillo. São estas linhas que se misturam e se tornam lentamente normativas, mais frequentes ainda no meio televisivo que no cinematográfico, que podem começar lentamente a apagar este fantasma quase centenário de segredos na indústria. O caminho para a admissão é pessoal e nunca deverá ser forçado, tal como temos vindo a discutir neste espaço, mas no momento em que o ícone do teatro e cinema Ian McKellen explorava a sua sexualidade na juventude ela era proibida e motivo para encarceramento pelas autoridade. Hoje em dia, pelo menos na sociedade ocidental em que temos a sorte de viver, não é assim e os adolescentes precisam de modelos de sucesso nos quais se possam rever. É uma questão de sobrevivência e verdade. Dentro e fora dos ecrãs.

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Raul Castillo e Jonathan Groff
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