Carta Aberta Ao Papa Francisco: A Homofobia Religiosa E A Juventude LGBT Sem-Abrigo

Esta semana Carl Siciliano, director do centro Ali Forney (em memória do jovem LGBT assassinado em 1997), escreveu e publicou no The Huffington Post uma carta aberta ao Papa Francisco onde apela ao reconhecimento do impacto que a homofobia da Igreja tem nos jovens LGBT e na consequência de muitos serem expulsos das suas famílias e tornarem-se, assim, sem-abrigo. Leiam:

Sua Santidade,

No Domingo de Ramos do ano passado eu escrevi-lhe uma carta aberta no New York Times onde implorei para pôr fim aos ensinamentos da igreja sobre a homossexualidade ser um pecado. Convidei-O para visitar o centro de Forney Ali, a maior organização do mundo dedicada a jovens LGBT sem-abrigo. Eu esperava que ao conhecer os jovens ao nosso cuidado, muitos dos quais rejeitados pelos pais religiosos que acreditam que a homossexualidade é pecado, que você poderia reconhecer o dano catastrófico causado por tal crença. Embora não tenha respondido, continuo a esperar que aceite o meu convite e, mais importante, acabe com esse prejudicial ensinamento.

A minha esperança tem sido reforçada pela notícia que você visitará a cidade de Nova York neste mês de setembro como um prelúdio para sua participação na Conferência Mundial de Famílias. É uma oportunidade notável para apelar às famílias que amem e cuidem dos seus filhos LGBT. Espero que tal apelo possa ser inspirado ao escutar com compaixão os nossos jovens que têm sido expulsos das suas casas por pais que acreditam que ser LGBT fez deles seres pecadores; que assistir ao seu sofrimento iria despertá-lo para o terrível mal causado pela condenação religiosa da homossexualidade.

Os jovens tornam-se geralmente sem-abrigo porque eles não se sentem seguros em suas casas, muitas vezes, quando seus pais sofrem de doença mental, ou de abuso de substâncias. Geralmente, a pobreza é um factor. Mas as razões pela qual os nossos jovens LGBT mais frequentemente citam para a sua condição de sem-abrigo são as crenças religiosas dos seus pais. A oposição religiosa em relação às pessoas LGBT contribui significativamente para que um jovem LGBT seja quase oito vezes mais provável de tornar-se sem-abrigo do que um jovem heterossexual.

Espero que você possa ouvir com compaixão os nossos jovens que se dizem vítimas do abuso que sofreram em suas casas. Alguns jovens falam de ser espancados ou estrangulados pelos pais. Outros sofreram o tormento psicológico, alguns falam de ser forçado a recitar passagens bíblicas condenatórias até altas horas da noite, ainda outros dizem que os seus pais lhes chamam de abominação.

Espero que você possa ouvir como eles sofrem após serem expulsos de suas casas; que oiça as palavras de terror de um jovem sem-abrigo; como eles passam muitas vezes frio e fome; como eles são muitas vezes sexualmente explorados; como eles são ridicularizados e assediados e brutalizados por ser LGBT, mesmo nos abrigos; como eles lutam com desespero; como alguns são levados à beira do suicídio; e como muitos desses jovens LGBT, por fim, se suicidam.

Espero que ao escutar os nossos jovens com compaixão, possa compartilhar o meu horror em como a mensagem do amor misericordioso de Deus nos Evangelhos tem sido deformada pela hostilidade religiosa contra pessoas LGBT, uma hostilidade que destrói os laços entre tantos pais e filhos LGBT.

Carl Siciliano Change lgbt papa francisco

Muitas pessoas, inclusive pessoas religiosas, têm dificuldade em acreditar num Deus de amor. Em tempos primitivos alguns tentaram apaziguar o que acreditava ser um Deus vingativo, hostil, sacrificando os seus filhos nos altares. A Bíblia está cheia de condenações dessa vil prática; os profetas clamaram que o verdadeiro Deus quer compaixão e misericórdia, não sacrifícios de crianças. Ainda hoje muitos pais sacrificam os seus filhos em nome das suas crenças religiosas; sacrificando-os, não nos altares, mas lançando-os para a rua para sofrerem na pobreza e miséria.

O ensino de que a homossexualidade é pecado tem um impacto tóxico, fazendo muitos pais incapazes de amar seus filhos LGBT. Mais difícil é ver os nossos jovens sofrerem pela falta de um tecto, tal como ver os seus corações juvenis quebrados por lhes ser negado o amor dos seus pais. Como poderia um Deus do supremo amor querer um ensinamento que provoca tal crueldade? Como poderia um ensinamento inspirado pelo amor misericordioso de Deus provocar milhares de crianças abusadas e abandonadas?

Você é o líder religioso mais influente do mundo. Você poderia proteger muitos jovens do perigo, ensinando que não há nada de errado em ser LGBT, que não há nada de errado com as crianças LGBT. Com essa mudança diminuiria a epidemia da juventude LGBT sem-abrigo, que são mais de 200.000 só nos Estados Unidos. Nós somos oprimidos ao tentar encontrar recursos para cuidar de um número enorme de jovens carenciados que chegam ao centro de Forney Ali precisando de abrigo e apoio. Muitos jovens LGBT definham nas ruas, dado que o seu número é muito maior do que o nosso abrigo de juventude – e outros – pode acomodar. No inverno passado esteve muito frio em Nova York, foi doloroso ver tantos adolescentes LGBT a sofrer no frio.

De tantas maneiras seu papado tem sido uma testemunha para a mensagem de amor no coração dos Evangelhos. Você tem proclamado que o amor é a medida da nossa fé. Você já gritou que temos de mostrar amor especialmente aos pobres, aos abusados, àqueles que são marginalizados. Espero que você visite o centro de Forney Ali e abra o seu coração aos nossos jovens; dado que nenhuns são mais pobres, mais abusados, mais abandonados, mais privados de amor do que os nossos jovens LGBT sem-abrigo. Rezo para que o seu testemunho possa inspirá-lo a reformar o tratamento da nossa igreja a pessoas LGBT, contribuindo para um mundo onde os pais olham para seus filhos LGBT, não com vergonha ou condenação, mas com amor. Que eles os abracem. Rezo para que assim possa trazer a nossa igreja ainda mais perto do abraço de Deus, que é a suprema bondade, o supremo amor, a suprema misericórdia que nunca iria querer ver-nos fazer mal a uma criança.

Atenciosamente,
Carl Siciliano

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