Na Cabeça De José António Saraiva

José António Saraiva, arquitecto, jornalista e director do jornal Sol, parece ter uma certa obsessão com a temática LGBT nos seus artigos de opinião. Sendo o debate e a discussão sobre um tema como este algo potencialmente instrutivo e digno de uma sociedade inclusiva é natural que se fale sobre a dita temática de tempos a tempos.

Mas não posso aceitar o grau de ignorância e, arrisco, mesquinhez, que o arquitecto Saraiva espalha pelo seu jornal. Basta recordar o popularizado (e ridicularizado) artigo conhecido como Gay No Elevador, onde o arquitecto testou o seu gaydar com um jovem alegadamente gay porque se vestia ou comportava de certa forma. São com estes óptimos princípios que Saraiva se eleva e conclui que “a comunidade gay está a crescer” porque é a nova forma de rebeldia que os jovens encontraram.

Exacto, segundo este senhor, há cada vez mais gays porque os jovens rebeldes encontraram essa forma de se exprimirem (e não porque, aqueles que realmente são LGBT, têm tido um maior apoio para serem quem são e terem de lidar cada vez menos com pessoas como o arquitecto Saraiva).

Ora, hoje o arquitecto voltou a escrever sobre as pessoas LGBT, desta forma, como resposta ao artigo de opinião de João Miguel Tavares, também aqui debatido. Vamos então ler com atenção o que escreve Saraiva :

João Miguel Tavares é um colunista que aprecio pela independência e pela escrita. E – vá lá – porque se demarca muitas vezes do politicamente correcto e não vai atrás dos esquerdismos acéfalos que afectam boa parte dos nossos colunistas.

Chamar as opiniões de colegas seus colunistas de esquerdismos acéfalos faz logo adivinhar a classe deste senhor. Mas pronto, pode ser apenas estilo, vamos continuar:

Pois bem: na semana passada, a propósito da vitória do ‘sim’ no referendo sobre a legalização do casamento gay na Irlanda, escreveu no Público um insólito artigo incitando todos os gays da política portuguesa a «saírem do armário». De caminho, atira-se a um cardeal do Vaticano que, segundo as suas palavras, «em momento de delirium tremens classificou o facto de uma derrota para a humanidade».

Comecemos pelo cardeal. O homem limitou-se a seguir o que a Igreja Católica sempre disse: que o casamento é entre um homem e uma mulher – e não entre dois homens ou duas mulheres. Alterar isto é um atentado a um sacramento, é um tiro de canhão contra a doutrina católica sobre o casamento e sobre a família, pelo que, objectivamente, é «uma derrota para a humanidade». Para a humanidade tal como a Igreja Católica a concebe, obviamente.

Não vejo, por isso, que o dito cardeal estivesse a delirar. Aliás, é preciso alguma presunção para despachar sumariamente o que diz um alto representante da Igreja. E estou à vontade para o dizer porque não sou católico. Mas tenho o bom senso de perceber que não é um atrasado mental qualquer que chega a cardeal de uma Igreja com mais de dois mil anos.

O não sou católico deve ser o novo eu até tenho um amigo gay para o arquitecto. Nestas questões recomendo vivamente entender a separação da Religião da Igreja e, mais importante ainda, a separação desta última do Estado que é, afinal de contas, o que estava a ser referendado na Irlanda. A Igreja Católica nos seus dois mil anos cometeu atrocidades gigantescas contra a humanidade, muitas delas nunca reconhecidas pela mesma. Por isso, apesar de uma certa abertura que a Igreja tem tentado promover, e bem, não deixa de ser absolutamente inadmissível que um cardeal comente a chegada à igualdade perante a lei a milhares de pessoas na Irlanda como um atentado à humanidade. A parte do atrasado mental deve ser, mais uma vez, estilo do arquitecto, sigamos portanto:

Mas o que me interpelou mais na crónica de João Miguel Tavares foi a sua indignação pelo facto de muitos políticos ‘não saírem do armário’. Tavares insurge-se como se fosse obrigação de todos os gays dizerem publicamente que são gays.

O referendo na Irlanda teve «a vantagem de levar um homem como o ministro da Saúde, Leo Varadkar, a assumir publicamente que era gay, por dever de consciência» – escreve o colunista.

Por dever de consciência? Mas porquê? Já agora, deveria haver uma alínea no currículo de cada pessoa a especificar a sua orientação sexual… E por que não essa importante particularidade vir inscrita no Cartão de Cidadão? Assim, não haveria dúvidas nem fuga possível. Até porque, ainda de acordo com Tavares, «é absolutamente lastimável que neste triste país não se consiga arranjar um único homem ou uma única mulher, do PS, do PSD, do CDS, capaz de assumir de uma vez por todas a sua homossexualidade».

E o estranho é que João Miguel Tavares diz isto como se fosse uma coisa óbvia e não precisasse de argumentar. Para ele, todos os gays deveriam assumir-se publicamente como gays ‘porque sim’.

Talvez Saraiva não entenda a importância da visibilidade das pessoas LGBT e das suas causas, talvez Saraiva não entenda que colocar num cartão a orientação de uma pessoa é potencialmente perigoso porque iria colocar a pessoa LGBT em risco de sofrer ataques homo e/ou transfóbicos mais ou menos extremos por pessoas tão ou mais preconceituosas que o próprio arquitecto Saraiva! A questão de uma pessoa se assumir LGBT deverá ser, mais que qualquer outro critério, uma questão pessoal, mas importa que essa pessoa entenda a importância e a influência positiva que pode ter ao fazê-lo por opção própria e em segurança. Porque o seu exemplo pode tornar-se o exemplo para outro alguém e isso, arquitecto Saraiva, é mais do que se pode dizer das suas palavras de ódio mais ou menos implícitas.

De caminho, o colunista elogia Manuel Luís Goucha por «se ter assumido». Eu não elogio nem deixo de elogiar. Goucha tinha todo o direito de o fazer – como outros estão no direito de não o fazerem.

Nunca percebi a necessidade que certas pessoas têm de vir a público dizer que são homossexuais. O que temos nós a ver com isso? Estou-me nas tintas para saber se um político é ou não é gay. Não passa a ser melhor nem pior por isso. E não vejo qualquer vantagem em expor a sua intimidade na praça pública.

Exacto, arquitecto Saraiva, o que temos nós a ver com isso que até lemos opiniões suas num jornal sobre isto? A incoerência entre os seus raciocínios e as suas acções provam a importância destes exemplos, por mais que lhe custe dar valor ao Goucha! Tornou-se ele um exemplo para muitos, inclusive para gerações mais velhas que, assim, têm a oportunidade de conhecer e de acarinhar um homem que se assumiu ser quem é.

O arquitecto Saraiva parece confundir a orientação sexual de uma pessoa com a sua intimidade. Um exemplo simples para ajudar a compreensão: orientação sexual é saber que um arquitecto é heterossexual e, como tal, sente-se atraído pelo sexo oposto; intimidade é saber que  um arquitecto gosta de levar umas palmadas no rabo dadas pela sua mulher enquanto, desnudado, se deita no seu colo. Creio que com este exemplo consegue perceber perfeitamente a diferença entre os dois conceitos e concluirá por certo que, pensando bem, não saberá nada da vida íntima do Manuel Luís Goucha.

Ainda percebo que os homossexuais gostem que outros homossexuais se assumam publicamente como tal. Porque acham que alguém assumir-se como gay, sobretudo se for uma pessoa conhecida (um actor, um apresentador de televisão, um desportista), tem um efeito multiplicador, contribuindo para o crescimento da ‘causa’ da homossexualidade. Os comunistas também gostam, por exemplo, que Carlos do Carmo se assuma como comunista. Ou os benfiquistas que Paulo Gonzo se diga publicamente do Benfica.

Percebo, portanto, que a comunidade gay incite os gays a saírem dos armários e façam disso uma questão decisiva. Mas que têm a ver com isso os que não são gays?

A ignorância auto-imposta do arquitecto aflige-me porque presume que quem defende os direitos das pessoas LGBT são igualmente pessoas LGBT. Não passa pela cabeça desta pessoa que haja pessoas heterossexuais a defenderem direitos universais! Lamento informar o caro Saraiva (ao fim de tantos parágrafos larguei o arquitecto, estilo meu agora) que a defesa dos direitos humanos diz respeito a todas as pessoas. Por isso não fique incomodado se encontrar pessoas LGBT que lutem pelos direitos das mulheres, que lutem contra o racismo ou outro qualquer ódio que coloque em perigo e minore qualquer ser humano!

Respondendo à questão, João Miguel Tavares poderia dizer que, embora não sendo homossexual, acha que estes têm o dever de se assumir – porque, quantos mais forem, menos discriminados serão.

Mas a verdade é que ele nem sequer usou este argumento. E se usasse, eu responderia que esse é um problema ‘instrumental’, prático, que não deve sobrepor-se às questões de princípio. E aí, insisto: todos têm direito à reserva da sua vida privada e não têm nenhuma obrigação de virem a público dizer se são homossexuais, heterossexuais, bissexuais, bígamos ou indiferentes.

Aliás, sempre achei que o ‘orgulho gay’, as ‘paradas gay’ são um perfeito disparate. Orgulho porquê? Se, como os próprios dizem, ser homossexual é qualquer coisa independente da vontade, não se percebe que seja motivo de orgulho. Orgulho tem-se naquilo que foi obtido com o nosso esforço e o nosso trabalho.

A admitir-se a parada do ‘orgulho gay’, teria de se aceitar uma parada do ‘orgulho heterossexual’ – com machos de fartos bigodes e abundantes pêlos no peito a desfilarem pelas ruas.

Poupem-nos a estas manifestações!

O caro Saraiva continua sem entender a questão. O orgulho LGBT (e estamos no mês da celebração pelo mundo fora) não é uma montra para nos mostrar é, sim, um grito que celebra uma existência que se quer inclusiva e respeitada. E não se deixe enganar, as marchas e os orgulhos LGBT estão longe de serem normativas, há jovens como o que encontrou no elevador e há senhores que, de aspecto falo, se confundiriam facilmente consigo. E isso talvez lhe faça alguma confusão mas o problema, esse, é só seu.

O orgulho gay não nasceu de uma necessidade de celebrar ser-se gay, mas sim no nosso direito de existir sem perseguição. Então, em vez de se questionar por que não há um movimento do orgulho hetero, seja grato que um não preciso.

João Miguel Tavares esforça-se por não ser politicamente correcto, mas nestes temas ‘fracturantes’ é uma maria-vai-com-as-outras.

Aliás, as contradições abundam nesta área.

Sócrates, um dos políticos que mais se bateram pelos direitos dos homossexuais, apanhou uma fúria quando sugeriram que era homossexual – e dava isso como exemplo sempre que o acusavam de qualquer coisa. Como se uma acusação de homossexualidade fosse, para ele, o pior insulto que se pudesse fazer a alguém.

O Saraiva (sim, já desisti do caro também) confunde mais uma vez as coisas mas neste caso talvez até seja mais simples explicá-lo desta forma: Sócrates, qualidades e defeitos fora, foi realmente dos políticos portugueses que mais responsabilidade tem na igualdade e no respeito perante a lei das pessoas LGBT. E Sócrates tinha razão em desdenhar essas acusações mas não pelas mesmas em si, mas porque eram mesquinhas, tablóides e porque acusavam-no de ser quem não era.

Ora, quando o Saraiva presume que alguém é gay, como o tal jovem no elevador, é normal que essa pessoa se sinta atacada, seja ela ou não gay. Porque essa presunção é, mais que tudo, injustificada quando se baseia apenas em adivinhas e, claro ficou, preconceitos em relação a um grupo de pessoas que o Saraiva tão claramente desconhece.

Deixemos, portanto, os homossexuais descansados dentro dos seus armários, desde que seja essa a sua vontade. E já agora os heterossexuais. Quem sente necessidade de o dizer, que o diga. Quem sente necessidade em assumir-se, que se assuma. Mas que não se obrigue ninguém a fazê-lo. Não se retire a ninguém a liberdade de preservar a sua intimidade.

E não se fale de orgulho em ser gay. Porque, a aceitar-se este orgulho, está a legitimar-se o orgulho oposto. E a aceitar-se a prosápia de Zezé Camarinha louvando as virtudes do macho lusitano.

O Saraiva prefere fechar os olhos  e fingir que não percebe que a esmagadora maioria das pessoas heterossexuais assume-se todos os dias, seja através de um beijo, de umas mãos dadas, de uma casa partilhada com alguém íntimo. E isso, entenda-se, pode e deve ser visto como um gesto de ternura e amor. Mas negar esses mesmos gestos a pessoas LGBT, metendo-as no armário, é negar-lhes o acto de assumirem quem são.

Mencionar o Zezé Camarinha como um exemplo do macho lusitano só mostra o problema que o Saraiva tem com a expressão de género. É que o Zezé Camarinha é tão macho lusitano como o Manuel Luís Goucha, a diferença, caro Saraiva (façamos as pazes), é tão só na sua cabeça.

Fonte: Jornal Sol.

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