Compreender A Homossexualidade Na Adolescência

Surgiu esta semana uma história de um adolescente nova-iorquino, anónimo e a rondar os dez anos que, assumindo-se homossexual, mostrava a sua preocupação com o seu futuro:

Sou homossexual e tenho medo do que será o meu futuro e de que as pessoas não irão gostar de mim.

Entre milhares de pequenos testemunhos do projecto Humans Of New York, a história ganhou relevo quando várias personalidades mostraram o seu apoio ao jovem, incluindo Hillary Clinton e Ellen DeGeneres. As reações têm sido maioritariamente positivas, mas algumas pessoas têm levantado a questão da idade. Afinal de contas, a partir de que idade é que uma pessoa pode começar a sentir a sua orientação sexual? Será que este jovem não passa de um aproveitamento de activistas LGBT como foi acusado?

Parte do problema surge na confusão dos termos orientação sexual e sexualidade. Se é certo que ambas estão relacionadas, convém não as misturar, especialmente quando tratamos de jovens e adolescentes em pleno desenvolvimento. Acredito que quando alguém nesta notícia lança a questão da idade está a focar-se na sexualidade do rapaz em vez de se focar naquilo que ele sente. Porque alguém sentir-se homossexual, seja a que idade for, vai muito para além da sua sexualidade. Entram em campo factores como a atração, a paixão – neste caso juvenil -, o sentir-se diferente e, em muitos casos, esta última precede a sensação de isolamento, de se estar à parte. E estes sentimentos podem estar presentes desde muito cedo de forma mais ou menos consciente por parte do jovem. Quantas vezes chegam eles mais tarde a perceber que a família “sempre soube”? Quantas vezes a família admite ter desconfiado da homossexualidade dos seus filhos desde que eles eram crianças?

Quem tem dúvidas que um rapaz tão jovem possa assumir-se homossexual parece ignorar ou esquecer a pressão implícita que alguns pais impõem aos seus filhos em relação à sua alegada heterossexualidade, apoiando “namoricos”, “beijos roubados” ou até “apalpões” desde bem cedo. E se é verdade que a maioria desses jovens poderá sentir uma atração embrionária, uma curiosidade por essas “brincadeiras”, é igualmente verdade que alguns, se calhar, prefeririam fazê-lo com outros jovens do mesmo sexo. E se não o fazem é por receio de represálias. Este jovem nova-iorquino talvez tenha percebido que preferiria ter os seus “namoricos” com outros jovens como ele, que o que lhe dá prazer é “roubar beijos” a um como ele. Tão simples e inocente como isso.

Questiono quantos de nós adiou, ou continua a adiar, o assumir a sua homo/bissexualidade pela simples pressão social que nos quer de outra forma e não nos aceita como realmente somos? Talvez uma das consequências positivas dos avanços sociais que se têm verificado em alguns países do Mundo seja precisamente este, cada vez mais jovens vão assumir orgulhosamente quem são ao invés de se esconderem em expectativas que lhes são atribuídas por outrem. Por isso, vale a pena apoiar jovens como este, porque, independentemente do que possa ser o seu futuro, não haverá pior medo imposto a uma criança que o seu abandono, a sua vergonha e a sua humilhação por algo que ela sente dentro de si.  Porque negar-lhe isso é, ironicamente, roubar-lhe o direito à inocência.

Fontes: BuzzFeed e Humans Of New York.

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