António Simões E A Sua Vantagem Em Ser Gay

António Simões, o novo director executivo de um dos maiores bancos do mundo, o britânico HSBC, deu uma entrevista ao jornal Expresso no início do ano em que, de uma forma clara, explica por que o facto de ser gay o tornou numa melhor pessoa [não confundir isto com a generalização do oposto; o caminho para a compaixão pode tomar variados caminhos] e como essa sua realidade é absolutamente relevante para a sua carreira de sucesso.

Poderão ler a entrevista na íntegra no Expresso e, já agora, se tiverem paciência e força, os comentários maioritariamente homofóbicos e simplistas sobre as afirmações de Simões. Porque, após passarem por centenas de comentários ofensivos – no Expresso e nas redes sociais – ainda há quem fique indignado com o facto deste director executivo se assumir homossexual e, pior, questionam-se por que raio é isto notícia. É notícia, respondo-lhes, porque a vossa visão pequenina assim ainda o exige. Simples de perceber.

Vale a pena ler um excerto da entrevista conduzida pelo jornalista Pedro D’Anunciação:

Onde conheceu o seu marido?
O Tomás é espanhol das Canárias, mas estudou em Madrid e veio trabalhar para Londres há mais de 15 anos. Conhecemo-nos na festa de anos de um amigo comum no verão de 2002.

Você foi sempre muito franco relativamente à sua orientação sexual e chegou à presidência de um grande banco britânico. Acha que isso seria possível em Portugal? Alguém out durante toda a carreira poderia chegar a CEO de um banco português?
Seria naturalmente possível se alguém me convidasse para ser CEO de um banco em Portugal, por exemplo [pausa]. Obviamente que nós temos o exemplo do Tim Cook que é interessante, ou seja, ele acabou por ser CEO da maior empresa do mundo [Apple]. Mas só mais tarde saiu do armário.

Tim Cook não era assumidamente gay, mas também nunca escondeu ou fingiu, ao contrário do que ainda acontece muito em Portugal.
Sim, ele nunca negou. Mas em Portugal acho que há muitos exemplos de pessoas que na sua vida pessoal são relativamente out e que têm alguma abertura como sendo gay, embora não o façam no mundo profissional. Não sei se é possível – é uma pergunta hipotética -, mas eu acho que Tim Cook provou que é possível fazê-lo e que isso não é um problema.

Falei muito sobre isto com o [lorde] John Browne [antigo presidente da BP, demitiu-se em 2007 após revelações sobre a sua homossexualidade]. Ele escreveu agora um livro [“The Glass Closet”] sobre o assunto. O problema de Browne é que ele é de outra geração. Esse é o argumento dele: como nunca saiu do armário, depois é difícil fazê-lo quando se chega aos 50 e não sei quantos anos. Mas o Tim Cook provou que isso é possível, que se pode fazê-lo de uma forma gradual. Acho que o que é mais importante agora – pensando na minha geração – é que pessoas que estão fora do armário toda a sua carreira cheguem a ser presidentes de um banco ou de uma grande empresa em Portugal.

Estamos a falar de um país pequenino, com uma elite no mundo da política e dos negócios onde toda a gente se conhece e se cruza constantemente. A sociedade portuguesa já evoluiu, tanto a nível político – em termos de direitos e do reconhecimento do casamento homossexual, por exemplo – como a nível social. Acho que em termos sociais não tem qualquer tipo de problema ser gay em Lisboa. Por isso digo que existe uma responsabilidade pessoal, a nível profissional, para se sair totalmente do armário. Se queremos viver numa verdadeira meritocracia, a única coisa que deveria importar de facto é o mérito. O que interessa é o que se consegue fazer e não o que se é. Isso deveria dar confiança e salvaguarda às pessoas. Os próprios indivíduos gay ou LGBT têm a responsabilidade individual de não pensar que isso é um problema. Eu racionalizei isso na minha cabeça.

De que forma?
Grande parte das pessoas gay pensa que ser gay é ok, que não é uma grande desvantagem ou que é uma coisa neutra. Elas devem pensar que ser gay é uma vantagem e não uma desvantagem. Penso que ser gay é uma vantagem para mim. Tornou-me uma pessoa mais autêntica, com melhor empatia, melhor inteligência emocional. Se eu não fosse gay se calhar não seria CEO do banco. No livro “The Glass Closet”, John Browne escreve precisamente sobre a questão da homofobia no mundo empresarial e sobre os desafios e provocações a que os empregados gay estão sujeitos.

Nunca sentiu qualquer tipo de discriminação no mundo tão competitivo e machista da City de Londres?
Não, nunca tive qualquer tipo de problema de discriminação. Antes pelo contrário. Obviamente que todas as pessoas se sentiram de alguma forma como outsiders em algum ponto das suas vidas ou carreiras. Por qualquer razão. Porque se chega a uma cidade ou a uma escola nova e não se conhece ninguém. Acontece a uma pessoa que vem do lado errado da cidade. Ou porque alguém é do Porto e vem para Lisboa e tem um sotaque diferente. Todos já estivemos nessa situação de alguma forma. Eu sempre pensei que a forma correta de pensar é acreditar que o sistema é suficientemente justo e que através de uma boa ética de trabalho, de uma boa educação e de algum esforço se acabará por se ser remunerado e recompensado através de progressão na carreira. Acho que é importante não ter uma atitude de vítima sobre este tipo de assuntos. Em 2015, definitivamente não. Isso se calhar era verdade nos anos 80. Quando comecei a trabalhar, o ambiente não era tão inclusivo como é hoje.

Ainda ouve perguntas do tipo “o que faz a sua mulher?”
Acontecia imenso. Por vezes respondo: “O meu marido também trabalha na área financeira”; ou antecipo-me e digo: “O meu marido pede o divórcio se não chego a horas a casa para passear os cães”. Mas a verdade é que sendo o presidente do banco e tendo falado disto tantas vezes já ninguém pergunta. E, por outro lado, a sociedade é tão politicamente correta, especialmente na Inglaterra – e em Londres, em particular – que nós vivemos nesta redoma de aceitabilidade em que ninguém vai dizer absolutamente nada. Em dezembro tivemos o nosso jantar anual com a administração do banco e claro que o Tomás esteve lá comigo. Eu tenho essa responsabilidade, para que as pessoas que trabalham comigo vejam que eu próprio lido com este tema de uma forma bastante natural.

Como é que a família em Portugal lidou com o assunto?
Com a mesma naturalidade e apoio do pai, mãe e irmã. Nem sempre foi fácil para eles, dado o entorno da sociedade portuguesa. Mas eu sempre vivi num ambiente com imenso apoio dos amigos e da família.

Essa “naturalidade” é talvez pouco comum em Portugal.
Sim, mas só por isso é que falo sobre o assunto. Para que se torne mais natural. Disse há pouco tempo numa conferência que é muito mais estranho – e estatisticamente improvável – que eu tenha 39 anos e seja português e seja presidente do banco do que o facto de ser gay e ser presidente do banco. Nunca mais vai acontecer na história do HSBC que um português meio baixinho e meio careca, de 39 anos, volte a ser presidente do banco. Mas espero – aliás, estou certo – que teremos muito mais CEO gays nas próximas gerações.

 

Fonte: Expresso e The Guardian.

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