Carta Aberta: Porque Já Não Vou Doar Sangue

Ao Presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, Hélder Trindade

Oeiras, 29 de Setembro de 2015

De 3 em 3 meses o Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), como é verdade em muitos outros lugares, faz uma visita ao instituto no qual trabalho para fazer uma colheita de sangue. Foi aqui que nos últimos cinco anos fiz pelo menos cinco doações, sempre no espírito do cumprimento do que considero ser um dever cívico. Tornei-me dador registado e possuo um cartão do IPST representativo de tal e que me dá isenção de taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde. E como também é normal, recebi uma SMS a fazer o pedido de comparência na recolha de sangue que tem lugar esta semana.

No entanto, tendo em conta as últimas directrizes aplicadas aos dadores homossexuais e bissexuais é-me impossível, em consciência, doar mais sangue. Porque se é verdade que poderia omitir que sou homossexual e que tenho “sexo com homens”, não posso mais compactuar com esta discriminação tão básica que continua a ser perpetuada pelas entidades vigentes, neste caso o IPST, sem que grande atenção seja dada à mesma. Causei até alguma perplexidade junto de colegas com as minhas afirmações porque aparentemente a percepção pública geral é a de que essa mesma discriminação deixou de existir em Agosto deste ano. Contudo basta ler nas entrelinhas: “(…) homens (homossexuais ou bissexuais) passam a poder ser dadores de sangue, estando sujeitos à aplicação de um período de suspensão temporária que pode ser de seis ou 12 meses após o último contacto sexual ou de seis meses após um novo parceiro sexual, com a avaliação individual do risco“. 

A segunda cláusula é válida também para heterossexuais, mas a primeira é unicamente direccionada para esse “grupo de risco” que são os homens que têm sexo com homens. Só o mero facto de existir esse rótulo aplicado a um grupo de pessoas e não às práticas das mesmas é aviltante. Não existe portanto a possibilidade de alguém como eu, numa relação homossexual  monogâmica estável há anos, consiga efectuar um acto de consciência cívica e dever perante a sociedade na qual estou inserido.

A não ser que esteja em regime de abstinência sexual, talvez com o intuito de finalmente ver a Luz e forçar-me ao lado não maldito da sexualidade, imaculado e heteronormativo. Aquele em que não existe sequer a possibilidade de sexo anal desprotegido ou com mais de um parceiro por ano.

Como tal, graças a todas estas e outras deploráveis razões, não vou doar sangue. Nem esta semana nem em nenhuma outra até que, finalmente, sejam levantadas estas superstições religiosas mascaradas de zelo pela saúde pública. Tendo em conta os retrocessos que são feitos cada vez que se toca novamente no assunto, esse dia parece ainda estar longe.

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