História Triste De Dois Amigos No Armário

A noite ia longa, dentro daquela discoteca gay lisboeta as colunas de fumo e de som atravessam os corpos que faziam por se roçar como se por acaso se tratasse. Já tinha dançado o suficiente para me misturar na multidão, as luzes a marcarem o ritmo que só os olhares desfaziam, como se a cada segundo encontrássemos alguém que nos observava. E nós a eles. Mas por ali continuei, Coca-Cola de marca branca na mão – na altura nenhum álcool por mim passava – acompanhado por um namorado e uns seus amigos que mal lembro os seus nomes. De um e de outros.

E foi aí que o vi. Junto ao balcão de um dos bares ali estava ele a pegar a sua bebida. Os nossos olhares cruzaram-se e naquele instante todo ambiente que nos rodeava deixou de fazer sentido. Quem eram aquelas pessoas? Para quê tantos flashes? Que música de merda é esta? Soubemos que não nos podíamos evitar, reparei que ele quase cuspiu o golo que sorvera do seu copo. Não havia fuga possível e, então, de sorrisos amarelos nos aproximámos e, bocas junto a ouvidos, falei eu primeiro:

“Então, estás bom?”

“Sim, sim, e tu? Não contava ver-te aqui, gosto de vir aqui dançar, pela música…”

“Ah, sim, pela música… olha, estou aqui com uns amigos, se quiseres juntar-te estamos ali…”

“Sim, sim, claro, vou só falar a uns amigos meus e já aí vou ter!”

“OK, OK; até já então!”

Virámos costas e, enquanto seguia para junto do meu círculo, ri-me para dentro. Aquele rapaz, que conhecia desde miúdo e éramos melhores amigos durante largos anos, tinha ficado claramente embaraçado e surpreso por me ver naquela discoteca. Eu de início também, confesso-o. Eram muitos anos de proximidade que, de repente, eram colocados em causa. Afinal, o quão próximos éramos? O que significava isto, esta reação, este desenlace?

São questões que não encontrei resposta, porque naquela noite, obviamente, ele não se juntou a nós, simplesmente desapareceu por aquele negrume de corpos masculinos e nevoeiro. E nunca mencionámos o episódio um ao outro. Aquela troca de palavras nunca aconteceu, nunca nos encontrámos naquela discoteca gay em Lisboa. E continuámos a nossa alegada amizade sem que tenhamos vivido aquela noite. Eu não estive ali. Ele também não. Eu não o convidei a juntar-se com uma réstia de esperança que aquele era, talvez, o primeiro dia da nossa amizade. Ele não aceitou.

Fosse hoje e as coisas teriam sido certamente diferentes, uma década faz muita diferença na forma como uma pessoa vê e lida com o mundo. O seu nome, passados uns quantos anos, também se escapou da minha boca. Há que saber mudar. E entender os convites que a vida lhe oferece.

Anúncios