Hollywood E O Vilão Efeminado: Mais Que Um Pulso Quebrado

Devido a estigmas sociais contra a feminilidade e a “efeminização” masculina, há uma forte tendência na ficção para atribuir traços efeminados a vilões: maneirismos extravagantes, vozes delicadas, corpos delgados, gestos afectados, olhares femininos, discursos eloquentes, risinhos, amor por poesia e ópera, sentido de moda impecável (nem sempre por roupas masculinas) ou uma predileção por gatos persa.

Frequentemente, o herói confrontado com o vilão LGBT é um antiquado homem viril (todos os traços femininos que ele tem estão apenas lá para sublinhar a sua masculinidade) e tornar o vilão “efeminado” serve para enfatizar precisamente essa masculinidade. Afinal, não há nada mais “de homem” do que bater num maricas (*cough*). Não importa que o vilão de pulsos quebrados seja realmente poderoso, ele “parece” ser fraco e “parece” ser homossexual e é isso que justifica a sua aniquilação.

O vilão efeminado é provavelmente o segundo retrato mais comum a homens gays (depois da personagem de piada unidimensional), mas não é necessariamente sinónimo de homossexual depravado. Enquanto que os vilões efeminados são frequentemente homo ou bissexuais, a maioria deles é apenas sexualmente ambígua ou aparentemente assexuada (e alguns deles – imagine-se! – são até mesmo heterossexuais). Estes vilões não se destinam a chocar o público apenas pela possibilidade deles poderem gostar de homens (embora isso geralmente seja um dos seus pontos), mas porque eles “agem” como um efeminado. Existe alguma ironia nisto tudo, porque, independentemente do que o vilão pareça ou aja, ele consegue seduzir o público que se deixa cativar pela sua figura. O vilão é, na realidade e em simultâneo com tudo o que foi escrito atrás, um escape às regras do sistema vigente e imposto às pessoas.

Tudo isto funciona igualmente quando o vilão é na realidade uma vilã, existem vários exemplos clássicos em que a mulher, mais ou menos “masculinizada”, acrescento à sua loucura e ao seu crime o facto de ser homo ou bissexual. Aliás, quantas vezes a mulher bissexual usou a sua orientação para seduzir os homens e depois matá-los enquanto depois fugia com a sua namorada? É um jogo de fantasias, especialmente as dos homens heterossexuais, mas que com estes exemplos, só denigrem as pessoas bissexuais.

Não deixa de ser igualmente curioso que em algumas culturas, nomeadamente nas orientais, este carisma dos vilões LGBT torna-os desejáveis ao público heterossexual e este acaba por lhes imitar os maneirismos de forma a seduzir o sexo oposto. São muitos os homens sul-coreanos ou japoneses, por exemplo, que apostam na “efeminização” para conquistar as suas desejadas mulheres.

Diz David Thorpe, o realizador do documentário Do I Sound Gay?, sobre o assunto, nomeadamente em relação aos vilões dos filmes da Disney:

Os filmes precisam de vilões, e durante muito tempo, o homem afectado, aristocrático e efeminado era o vilão. O principal assunto de grande parte dos filmes é a trama do casamento. Os gays viviam à parte desse tipo de objectivo até bem recentemente.

Chega, portanto, de diabolizar e desumanizar as pessoas LGBT no cinema e de criar uma ligação desonesta entre a maldade e a orientação sexual de alguém, seja ela qual for. Há que deixar de ver a “efeminização” masculina como uma fraqueza e um ponto de estranheza e desconfiança em relação a essa pessoa. Que sejamos julgados pelos nossos actos, mas não pelo que somos. A Disney parece ter percebido isso nos últimos filmes de animação que produziu, resta esperar que a restante Hollywood aproveite a boleia.

Fontes: TV Tropes, Lado Bi e Salon.

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