Gisberta

“Perdi-me do nome,
Hoje podes chamar-me de tua,
Dancei em palácios,
Hoje danço na rua.
Vesti-me de sonhos,
Hoje visto as bermas da estrada,
De que serve voltar
Quando se volta p’ró nada.
Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.”

Balada de Gisberta; Maria Bethânia.

A água bate na minha face com força quando o meu corpo frágil, violentado, doente, aterra naquela massa aquosa. Não sinto dor ou tristeza.

Três dias, três longos dias, três dias em que perdi a fé em Deus, três dias em que recuperei a fé. Tamanha contradição, mas a minha vida fora sempre um oceano de contradições. Nasci em São Paulo, Brasil, terra de samba, festa, amor… sim, amor, amor de mãe, amor de família, amor entre dois desconhecidos. O amor que naquela noite, apaixonada por ele me fez sucumbir e receber o doce beijo da morte, numa noite intensa de Verão. Por ele, com ele, eu fiquei doente, eternamente marcada. E por ele sucumbi ao prazer, ao prazer do toque, ao prazer do amor, ao prazer de uma agulha a penetrar o meu braço, por ele vim para Portugal.

Frio, tenho frio, a água ensopa o meu corpo violentado, violentado por 14 jovens, também eles vítimas dos infortúnios da vida, do destino. É Fevereiro, está frio, a água que lentamente invade os meus pulmões, posso já não ter muito tempo, as forças deixam-me. Esta tuberculose faz-me tossir, cuspo sangue e água. Já nem forças para chorar mais, grito por ajuda, pelo menos penso estar a gritar, mas ninguém vem. Confusa, tento levantar a cabeça, de nada vale.

“CANALHAS!” Grito, desta vez tenho a certeza que gritei, pois sinto o ardor a invadir a minha garganta.

Três dias, três dias em que eu fui espancada, insultada, violentada… violada.

Não tive medo. Gritei? Sim. Implorei? Sim. Mas não tive medo, passei por pior. A rejeição da minha mãe por ser homem e gostar de homens. Medo de quando entrei naquele bloco operatório. Medo de quando “tratava” daquele cliente da noite, ou de dois, quem sabe três numa boa noite.

Sempre soube que este dia haveria de chegar, sabia que não iria ter um final feliz, como aqueles filmes do Walt Disney. Nunca encontrei o meu príncipe, encontrei a morte ao tentar encontrá-lo.

Ó senhor, porque me faz isto, porquê, porquê…?

Quando aqueles 14 me espancaram na primeira noite, o meu corpo não ripostou, estava demasiado fraca, na minha mente a “Águas de Março” tocou na minha cabeça, ó como gostava de estar nas praias de São Paulo ao lado do meu príncipe, José, João, não importava como se chamava, desde que me amasse.

Na segunda noite pensei nos meus anjinhos das instituições que me ajudavam, nas minhas ninfas de sorriso nos lábios, enquanto me cuspiam na cara, enquanto me mantinham atada e me espancavam… Não tive medo, não senti… dor.

Chamaram-me aberração, paneleiro, bichona, matrafona, nojento, que pegava de empurrão…

E que aquilo que me estavam a fazer era aquilo que a minha mãe, a minha santa mãe, e deus me deveriam ter feito, castigar-me, corrigir-me… matar-me.

Não tive medo, só me queria sentir livre, tão livre como nos carnavais em que sambava a noite fora, no Carnaval em que me encontrei com ele pela primeira vez. Ó meu amo como desejava estar nestes últimos momentos contigo, sentir o teu quente abraço, beijar os teus lábios enquanto a minha alma deixa este corpo frágil… Eu ainda te amo.

Engulo novamente alma, já não tenho mais forças, já não consigo produzir sons, a dor no meu ânus, onde me penetraram com aquele pau já deixou de sangrar, já deixou de estar dorido.

Antes de me atirarem para esta cripta indigna até para o mais repugnantes dos seres humanos, um dos jovens pergunta-me:

O que és tu? Quem és tu!?” Num tom de pânico, talvez por ainda estar viva ao fim de tantos dias…. Serei assim tão grande aberração?

Agora que o meu corpo se afunda nesta águas negras e sujas, posso finalmente responder, como um derradeiro ato de confrontação, de rebeldia… de honestidade.

O que sou eu? Mulher.

Quem sou eu? Gisberta.

O meu nome é Gisberta.

G-I-S-B-E-R-T-A.

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