Esperar! Um problema de quem espera…

Os últimos dias foram ricos em reportagens sobre questões Trans e, nomeadamente, sobre condições de acesso à saúde pela comunidade. No dia 29 de Janeiro também se comemorou o Dia da Visibilidade Trans, uma data assinalada inicialmente no Brasil com o objectivo de evidenciar a importância da diversidade e do respeito para com o movimento Trans. Estas peças televisivas são preenchidas por testemunhos e por explicações de vários profissionais de áreas transversais às questões T.

Existe uma palavra chave neste momento: Esperar. De uma forma pragmática de observar estes processos, repara-se que esperar tornou-se uma capacidade nata de quem se identifica nesta situação. Para além do sofrimento associado à sua vida pessoal, as pessoas Trans (sem tentar cair numa generalização abusiva) são compulsivamente colocadas à prova através da paciência, da indiferença, do desrespeito total pelo seu estado. Não chega estar num processo difícil, o sistema impõe esse contracto com o mundo.

Porque falo na palavra esperar? Desde o tempo em que me comecei a apresentar publicamente enquanto pessoa trans, uma das expressões que mais ouvi foi “precisas ter paciência, espera com calma, um dia vais chegar lá”. Ora, todos nós sabemos o que significa esperar. Esperar na fila do Pingo Doce, esperar na fila de trânsito, esperar para colocar gasolina, esperar para entrar no elevador, esperar para comer… ou até esperar para chegar a casa… quando se fala em espera desta forma, parece uma actividade lúdica que todos nós temos prazer (e quem sabe seja por isso exista uma conformidade enorme com os problemas). Talvez, em escalas de minutos ou, no máximo de horas. Não de anos. Não quando a nossa vida está parada à espera de decisões questionáveis, não quando a nossa vida está parada à espera de validação, não quando todas as nossas actividades dependem dessa espera. Não quando esperar significa deixar o tempo passar, os dias e os anos, fazer com que as dificuldades cresçam com o preconceito social, com os entraves no emprego, na escola, no mundo. Não quando todas as nossas relações ficam penduradas no seu progresso porque, infelizmente, não é só para essa pessoa que se desenvolvem os problemas. São os pais, a família alargada, os amigos, os novos conhecimentos…

Esperar. Esperar. Esperar. Esperar torna-se o nosso mundo, a nossa escola, o nosso melhor amigo, o nosso pior inimigo, o nosso trabalho, a nossa solução. Esperar.

Esperar porque não é urgente, esperar porque não é prioritário. Esperar porque o sistema não tem capacidade e as pessoas são colocadas no plano da contabilidade e estatística. No plano das pessoas que nascem e morrem (infelizmente) para esperar.

Dani Bento

 

 

Nota: Fotografia por Hani Amir.

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