A Luta Una Quer-Se Una (resposta a comunicado)

Na semana passada vi Miguel Vale de Almeida, entrevistado para as Capazes, dizer que em Portugal – e ao contrário de outros países – existe um movimento LGBT cujos homens e mulheres estão “mesmo juntos”, que lá fora o normal é a “separação e os problemas” que daí advêm.

Uma semana mais tarde, descubro um comunicado – assinado por membros da Ação Pela Identidade e Transexual Portugal – que acusa a ILGA Portugal de resistir “duramente a uma verdadeira inclusão das pessoas trans, de forma a que pudesse de facto contribuir no seu objetivo de lutar contra a discriminação em função da identidade de género”. O manifesto conclui que “a ILGA Portugal não tem presentemente qualquer espécie de legitimidade para falar em nome da comunidade Trans”.

E ainda no mês passado o Nuno escreveu sobre a separação homem/mulher que tinha encontrado em alguns bares LGBT de Berlim.

Há aqui um problema. Ou vários até.

Depois de décadas a lutar contra a segregação das pessoas LGBT, qualquer tipo de separação – seja ela homem.mulher ou L.G.B.T. – é um passo que nos enfraquece a todos e todas. Não é uma questão de concordarmos, ou não, com todas as opiniões de pessoas ou associações que nos são próximas. Não é uma questão de orientação sexual, de identidade de género, muito menos de cor política. Não é também – e não pode ser – uma questão de direito à representação, não nestes moldes.

É óbvio que ainda há muito a fazer e aquilo que foi feito no passado nem sempre correspondeu às expectativas que todos e todas tínhamos. Não é uma questão de sede por justiça – porque essa certamente que a desejamos em uníssono – e se houve algo que não foi feito – como o manifesto acusa – acredito que por vezes embatemos contra uma parede chamada política. E a política, sabêmo-lo, muda. Mas por vezes a mudança leva o seu tempo, o seu desenrolar de forças e é por isso que, olhando para trás, tudo nos parece pouco, tudo nos parece lento, especialmente quando vivemos na ânsia por uma vida plena. Não é esse sentimento de frustração, repito-me, que está aqui em causa.

E em causa não estará também a representatividade, mal estaríamos nós se sozinhos estivéssemos, se não tivéssemos outras pessoas a nosso lado, aliadas, na mesma luta, celebrando connosco as vitórias, sofrendo também nas derrotas, lado a lado. Afastando-as seríamos certamente menos. E não esquecer que as nossas semelhanças são muito mais fortes que as nossas diferenças. Isso servirá para todos e todas.

Por isso é-me difícil compreender a razão deste comunicado, porque, ironicamente, tenta anular a voz das pessoas trans que, na ILGA, partilham a sua opinião, a sua voz, a sua experiência. E isso é algo que não pode ninguém substituir. Ou, pior, silenciar.

Fonte: The Nation (imagem).

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