Em biálogo: bisexuais e bifobia

Apesar da bissexualidade ser um rótulo bastante mais frequente do que se pensa (em alguns estudos até mais frequente do que gays e lésbicas juntos), é, na comunidade LGBT, maltratada, ridicularizada e excluída.

Agora que nos estamos a aproximar do mês do Orgulho LGBT, pensei que seria interessante rever e discutir algumas piadinhas e frases maldosas que uma pessoa bissexual costuma ouvir.

Não me considero necessariamente bissexual porque o prefixo bi- assume apenas atração por dois géneros binários. Nesse sentido, gosto mais da palavra pansexual (atração por pessoas – humanas, adultas e consensuais, obviamente – independentemente do género). Apesar disso, vou escrever em nome da bissexualidade, com o mesmo significado que alguns atribuem: mais do que um género.

Vamos, então, às frases, por ordem decrescente de raiva que me incutem:

 

1 – Mas isso existe?

Não há nada que me irrite mais do uma pessoa afirmar com ar de puto condescendente a dizer aos coleguinhas da escola que o Pai Natal não existe: “Desculpa lá, mas não acredito na bissexualidade. Isso não é possível.”.

Detesto essa frase acima de todas as outras porque os mesmos argumentos podem ser usados para todo o tipo de orientações sexuais. Querem ver?

  • Lésbicas: “São pessoas muito confusas! Há umas que só são lésbicas porque ainda não encontraram o homem certo e ficaram perdidas por ali e há outras que querem ser homens. A sério! Já viste como é que algumas se vestem? Querem ser homens e por isso gostam de mulheres!”
  • Gays: “Ai, os gays só são gays porque têm um problema com intimidade feminina e porque gostam de se armar e de dar nas vistas. Desculpa lá, mas é um facto conhecido que todos os homens gays têm um pai ausente e uma mãe galinha. É um trauma psicológico.”
  • Heterosexuais: “Ninguém pode ser 100% heterossexual. Todas as mulheres têm atração por outras mulheres e todas querem ter uma experiência lésbica. Quanto aos homens… Têm todos é vergonha de pôr coisas no rabo, mas, no escuro, as próstatas são todas iguais.”

Sinceramente, não percebo a obsessão de algumas pessoas pelos genitais. São uma parte muito pouco representativa de uma pessoa e não determinam, de forma alguma, a obtenção de prazer numa relação sexual. Ou seja, tudo se arranja. Apesar disso, respeito pessoas que pensem dessa forma. Que só consigam gostar ou de “vagina e mamas” ou de “pila, bolas e rabo”. Eu acho que é limitante e elas acham que eu sou estranho. A diferença é que eu não as ponho em causa.

Mal oiço esse tipo de argumento, sinto o mesmo que vocês sentem ao ler as frases ridículas acima. Apetece-me espetar com todas as práticas sexuais e historial de relações na cara dessa pessoa e “provar” que sou bissexual o suficiente. A bissexualidade existe, é válida e não é um rótulo apenas de passagem.

 

2 – Mas todos os bissexuais que eu conheço estão com homens!

Uma das razões pelas quais demorei tanto tempo a perceber que era bissexual foi porque não sabia que era possível. Em toda a minha vida ouvi que um homem que gostava de homens era automaticamente gay. Como se fosse algo que se “apanhasse”. E como sempre gostei de raparigas e a atração por rapazes só surgiu muito mais tarde, não fazia ideia de como me chamar.

Porque é que todos os bissexuais – homens e mulheres – têm de gostar sempre de homens? Porque é que se acha que a mulher bissexual acaba sempre como hétero e que o homem bissexual acaba sempre como gay?

É irónico (além de extremamente irritante) que ninguém duvida que eu goste de homens mas que muitos duvidem que goste de mulheres. Porque é que isso é incompatível?

Será que é porque a nossa sociedade é naturalmente misógina e as mulheres não são levadas muito a sério?

Além disso, devo deixar uma nota que também pode explicar o porquê de muitos homens bissexuais estarem com outros homens (nunca vi estatísticas sobre isto, mas vou basear-me nos rumores que tanto usam). Quantas mulheres heterossexuais (a maioria das mulheres, portanto) estaria disposta a ter uma relação com um homem bissexual já praticante? Falo de uma relação exclusiva com um homem que já teve relações (sexuais e não só) com outros homens. Pela minha experiência, é uma minoria muito pequena. Um homem que esteve com outro homem é visto como inferior e menos másculo. O que não faz sentido nenhum porque esse homem pode apenas ter feito o mesmo que essa mesma mulher heterossexual (não há orifícios para mais, acho eu). Fico sem perceber: é homofobia ou misoginia?

 

3 – Mas porque é que tens vergonha de assumir que és gay? Eu também achava que era bissexual, mas depois percebi que era X

Se há coisa que não me podem acusar (e isso não tolero mesmo), é vergonha da pessoa com quem eu estou. Assumi-me a toda a minha família e amigos; levo o meu namorado a todos os eventos de família, académicos e pessoais e, porra, até me assumi no Facebook depois da desgraça do “E se fosse consigo?”. Não tenho vergonha de estar com quem estou e de ter atração por homens (entre outros géneros). E acredito que vivo com muito menos vergonha do que muitos homens gay.

Apesar disso, não deixo de me sentir bissexual e de ter atração por outros géneros. Não é uma fase. E, não é, de todo, um rótulo de transição para a homossexualidade ou para a heterossexualidade. É o que é.

 

4 – Mas não é possível gostar 50% de homens e 50% de mulheres!

‘Mig@, para mim também é impensável gostar 100% de um género, mas não me vês a pôr isso em causa, pois não? É impossível saber como o outro pensa, sente e ama. Por isso, se uma pessoa sente os 50%-50%, não deve ser posta em causa porque é a sua própria sexualidade.

Além disso, não há nenhuma regra que obrigue a que a atração pelos géneros (binários ou não) tenha de ser igual. Basta uma pessoa sentir que não está exclusivamente atraída por um só género para poder afirmar-se como não dicotómica (queer, bissexual, pansexual, assexual, etc).

 

5 – Mas tu estás com um homem agora. És gay!

Lá por estar com um homem, não deixo de ser bissexual. Estou numa relação gay, sim, mas o meu namorado também é bissexual, por exemplo. Nenhum de nós se identifica como gay.

A melhor alegoria que conheço é a do sofá-cama: um sofá-cama é sempre isso, quer esteja aberto como uma cama ou fechado como um sofá. Nunca fica um ou outro; é sempre um sofá-cama.

 

6 – Vocês têm uma relação aberta, então?

Antes de mais, devo dizer que não tenho problema algum com relações abertas ou com poliamor. Apesar disso, ter uma orientação sexual não dicotómica não significa que se tenha de estar com outras pessoas “para se sentir pleno”.

Há várias pessoas gay, lésbicas e hétero que têm relações não-monógamas e isso depende, sim, da preferência de cada pessoa e, não, da sua orientação sexual.

Dito isto, uma relação monógama entre pessoas bissexuais é perfeitamente possível e tem os mesmos “riscos” do que qualquer relação. Atração por mais de um género não equivale nem a atração por todas as pessoas do Mundo, nem iguala a traição.

 

Fonte: The New York Times por Hannah Whitaker (imagem)

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