A revolução silenciosa de London Spy

A televisão britânica não é nova à inclusão de pessoas e temáticas LGBT nas suas séries. Basta ter em conta cultos estrondosos como Absolutely Fabulous, gritos revolucionários como Queer As Folk ou até sitcoms mais recentes como Vicious. Por isso não é uma surpresa quando London Spy tem como protagonista uma personagem homossexual. Mas a forma como a sexualidade é apresentada é totalmente refrescante e inovadora. Porque essa revelação acontece de forma totalmente natural, como seria apresentada qualquer protagonista heterossexual, sem tentar criar uma diferente sensibilidade narrativa por se tratar da perspectiva de uma pessoa LGBT.

London Spy, criada pelo jovem escritor Tom Rob Smith para a BBC Two, começa como uma simples história de amor. O torturado e fatalmente romântico Danny conhece o austero e enigmático Alex depois de uma noite de excessos, em que este último mostra um pouco de compaixão perante o seu desnorteio, e uma série de sentimentos recalcados por ambas as partes desabrocham. É este o motor para o thriller de espionagem que se vai desenrolando com a revelação de que Alex é um espião do MI-5 e desaparece meses depois da relação se iniciar. A claustrofobia vai aumentando de episódio para episódio e a tensão vivida por Danny, olhos e coração do espectador, torna-se desesperante à medida que vai vendo a sua vida colapsar diante dos seus olhos.

Ben Whishaw é um actor soberbo. Começou por comandar a atenção do público com Perfume de Tom Twyker e tem desde aí solidificado uma presença magnetizante no cinema britânico. Assumidamente gay, esforça-se por trazer aos ecrãs histórias de pessoas LGBT com uma profundidade tremenda e longe dos estereótipos. É o caso do seu discípulo juvenil em Cloud Atlas, onde é indubitavelmente o melhor desse filme das Wachowski, e a sua personagem num dos melhores filmes do cartaz do Queer Lisboa, Lilting, um homem que tentar sobreviver à morte do seu namorado enquanto lida com a mãe homofóbica do mesmo. Aqui traz alma a uma história de espionagem que atinge graus de alienação colossais. Mas Whishaw mantém-nos sempre com ele e assentes em emoções e situações reais de perdição e medo. O legado deste jovem actor britânico já é considerável mas com um talento tão absorvente e gargantuano como o dele, só se podem adivinhar ainda melhores desafios no seu futuro.

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Ben Whishaw em “London Spy”

O namorado de Danny, Alex, é interpretado por um rendido Edward Holcroft, e é enternecedor assistir ao seu primeiro contacto com o Amor. O elenco é secundado por actores tão soberbos como Jim Broadbent e Charlotte Rampling, que trazem um gravitas tremendo à série, que se move estilisticamente entre David Fincher e Nicolas Roeg, graças a uma realização inspirada e focada de Jakob Verbruggen.

Não se pode falar demasiado da série sem se revelar pontos do enredo que cuja surpresa é um dos fortes de London Spy. Além da qualidade absolutamente inegável da série – é mesmo um dos melhores dramas/mistérios a aparecerem em televisão nos últimos anos – é de louvar e celebrar o caracter inclusivo de personagens como as de Danny e Alex no panorama comercial. Sem agenda nem motivos ulteriores que não os de contar uma história com personagens de carne e osso e que, por acaso, são LGBT. Respeitando, e reconhecendo, a luta contra o preconceito e intolerância, nomeadamente nos sectores mais conservadores e na aceitação da família, London Spy foca-se no Amor absolutamente puro entre as duas personagens principais e na forma como ele é dilacerado pelo mundo exterior. Tensa, comovente, acutilante, brilhante.

Primeira Temporada Disponível no Netflix PT

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