Conto: A Lição Dos Patos

No jardim, onde passo todos os dias, está um grande lago que costumava estar desabitado. É uma zona muito aprazível, cheia de flores, árvores, sombras, crianças e água. O local ideal para tardes quentes, de conversa, de brincadeiras, de crescimento. O fresco que é proporcionado costuma ser aproveitado por todos, independentemente da idade. Novos, velhos, todos usufruem daquele pequeno oásis animado.

O lago nunca teve habitantes, somente algumas crianças que, de quando em vez, nos dias de muito calor, se afoitavam e davam pequenos mergulhos. São pequenos, têm calor, resolvem o assunto. Mostram expediente e desembaraço. Os pombos também se refrescam ali, bem como as poupas, lindas aves com desenhos maravilhosos. Mas quem viva em permanência nunca teve.

De há uns dias a esta parte apareceram uns patos. Primeiro veio um pato, depois uma pata e, uns dias depois, veio um outro pato. Claro que se começou a especular que estavam a preparar uma casa. O certo é que os três patos chegavam de manhã e iam embora ao fim do dia. Não se instalavam. E isto aconteceu durante vários dias. Era engraçado vê-los, calmamente, a nadar, naquele espaço sereno e solarengo.

Durante uns dias não apareceram. Pensou-se que talvez tivessem feito o ninho noutro local. Mas eles voltaram, os três patos, a pata e os dois patos. Continuavam tranquilos na sua vida rotineira. As pessoas davam-lhes pão, falavam com eles e já faziam parte do folclore do jardim. Estranho ser mais do que um pato mas os bichos também têm as suas maneiras de estar e viver.

Curiosamente as suas presenças eram bem recebidas por todos e as crianças eram as primeiras a se aproximarem deles. Entretanto desapareceram e já havia um certo vazio naquele pequeno eco-sistema, sobretudo por parte dos mais jovens. Voltaram e foi uma alegria. Era novamente o seu som que se ouvia com regularidade e os pedaços de pão eram atirados para a água. Tudo dentro daquilo que se pretende.

Mas o casal que “nidificou” naquele jardim foi o dos patos. A pata não voltou. Agora é ver os dois machos, muito meigos, a aproximarem-se das crianças a pedir o pão e a deixar mexer nos bicos. A vida retomou o seu ritmo normal. O lago ficou habitado e tem um casal de patos. Já não vão embora, ficaram por ali. Encontraram a sua casa. Enroscam-se um no outro e dormem tranquilamente. É enternecedor. Ninguém se incomoda com essa escolha. São dali, daquele jardim que é a alegria de todos.

Se tudo na vida fosse tão simples como a decisão destes patos, seríamos todos muito mais felizes. A azáfama do jardim é a mesma. As funcionárias limpam-no, como sempre fizeram, as crianças brincam, como é seu hábito, os velhotes sentam-se nos bancos, como é costume e os patos estão instalados e satisfeitos com a vida que têm ali. Porque não podem as pessoas ser assim? Cada um tem direito à sua escolha e a encontrar o seu lago onde possa viver, tranquila e sabiamente.

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