Meu querido mês de Julho (uma reflexão)

“Quem és tu? O que queres fazer/ser no futuro?”

Há momentos estranhos na nossa vida, em que paramos para pensar sobre tudo e todos e, mais precisamente, nós. Quem nós somos, o que queremos fazer no futuro, se somos felizes, etc. Chamem-lhe epifania, crise existencial, despersonalização ou até merdas New Age ou First World Problems. É certo que, para pessoas mais pragmáticas, é um pesadelo e, para pessoas mais introspectivas, é um lugar-comum.

Como já se deve ter percebido por alguns textos prévios, a hiper-reflexão é quotidiana para mim. Filmes, livros, fotografias, frases – vale tudo para me pôr a mente a trabalhar como se tivesse a fazer a previsão do défice de 2016. É cansativo? É. É inconveniente? Às vezes. Pode-se alterar? Não sei. E não sei se gostaria de o mudar sequer.

Eu estou num desses momentos clichés da minha vida. A “confirmação” da minha pansexualidade, além de um enorme alívio, trouxe, também, algum conflito interior. Apesar de ser um processo a decorrer desde a minha adolescência, em que fiz uma súbita mudança de personalidade, os últimos anos têm potenciado a necessidade de me compreender e de conciliar todas as minhas facetas.

Esta reflexão precipitou-se com o final de uma relação de 4 anos. É fácil compreendê-lo tendo em conta que, em relações longas que terminam de forma abrupta, sentimos uma parte de nós morrer. Quando as expectativas do casamento, vida a dois e filhos implodem, temos de eliminar partes de nós que já não fazem sentido sem o outro e o que projectávamos para o nosso futuro sofre alterações inimagináveis.

Se a isto acrescentarmos o desafio do mercado de trabalho na minha geração e a ameaça constante de violência e terrorismo, tudo potencia um tumulto interior e uma reflexão centrípeta.

No rescaldo de um orgulhoso e festivo mês de Junho, Julho tem sido essencial nesse caminho. Por um lado, assisti a Arcade Fire no NOS Alive’16 e, por outro, visitei o Stonewall Inn nos EUA (ver foto em destaque).

Qual a relevância dos Arcade Fire? A paixão pelo álbum Reflektor dos Arcade Fire foi lenta mas intensa. Já conhecia algumas músicas mas o “clique” surgiu apenas com “Afterlife”. “Afterlife” retirou muita da culpa, raiva e tristeza que sentia relativamente a relações passadas. Seguiu-se-lhe  o óbvio We Exist e “Normal Person”, na redescoberta da minha sexualidade. Ouvir ao vivo estas músicas que reproduzi e trauteei inúmeras vezes em casa, em conjunto com tantas outras de outros álbuns, foi uma experiência difícil de explicar, totalmente diferente de outros festivais e concertos. Foi um quasi-exorcismo musical e espiritual.

E o Stonewall Inn? Acredito que a maioria dos leitores deste site sabe que é aos motins de Stonewall que devemos atribuir a existência dos atuais direitos LGBT no Mundo Ocidental. Não descurando o trabalho de uma multitude de organizações em Portugal, a chama e a fonte de inspiração das Marchas de Orgulho LGBT nasceram naquele bar gay em Nova Iorque. Quando me comparo com o rapaz que lia sobre pessoas LGBT na Wikipédia como se fossem pessoas alheias com vidas quase circenses ou quando me comparo com o adolescente que visitou Nova Iorque há 9 anos sem qualquer ligação para com o mesmo bar ou com as estátuas brancas do Gay Liberation Monument imediatamente em frente, a diferença é abismal.

 

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Memorial às vítimas do ataque de Orlando em Nova Iorque

É impossível continuar a viver sem conciliar tantas parcelas de uma só personalidade: o heterossexual com o pansexual; o homofóbico com a bicha; o católico devoto com o agnóstico/ateu; o bêbado e drogado com o abstémio. Principalmente, é preciso perdoar-me. Depois de uma década a fugir de mim mesmo, da autocomiseração, da vergonha e da culpa, é preciso reflectir.

Já não pode ser para depois do curso, depois da crise económica ou dos atentados, depois da pós-graduação, depois da reforma. É agora. É tempo de integrar, não de fugir.

“Quem és tu? O que queres fazer/ser no futuro?”

 

Nota: Todas as fotografias são da autoria do autor do texto.

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