“Por que é que os gays têm de o gritar pelo holofote?”

Por que é que os gays têm de o gritar pelo holofote?

Foi com esta questão metafórica (holofote ou megafone, a ideia era clara) que se deu o ponto de partida para uma discussão entre várias pessoas, mais ou menos amigas, mais ou menos próximas, sobre a questão da visibilidade das pessoas LGBT na sociedade e no seu dia-a-dia. São pontos que temos vindo a abordar neste espaço, quer seja pela representatividade de alguns elementos da população (que é mal-visto por outros elementos da mesma população), quer seja pelos ataques homo, bi e transfóbicos vindos das próprias pessoas LGBT.

Ora, quando são usados termos como “gritar” e “holofote” o ponto de partida dá-se sobre uma perspectiva de preconceito em relação a um grupo de pessoas. Não têm que ser “gritos”, não têm que ser “holofotes” (e que o sejam, qual é o problema mesmo?), mas sim vivermos livremente sem sermos constantemente questionados sobre quem somos, sem vivermos sempre sobre a sombra da discriminação e do preconceito por aquilo que somos. Sejamos bichas estridentes, sejamos pacóvios ignorantes, sejamos tudo aquilo que somos. Mas sejamos, plenamente. Beijo na boca, mão na mão.

Existe uma opressão entranhada em algumas pessoas que não as deixa ver o quão ofensivas estão a ser, reprimindo terceiros e terceiras de qualquer exposição. Não sei exactamente qual o seu receio. Terão medo de serem conectados a pessoas com características com as quais não se identificam? Terão medo de se confundirem com elas? Esse medo terá origem onde? Noutras pessoas ou nelas mesmas?

E sobre quem dá a cara e quem está activamente no terreno desta luta contra o fim do preconceito e pela defesa dos direitos das pessoas LGBT, todas elas, não precisamos de pessoas a dizerem-nos que aquilo que fazemos – activismo, visibilidade,  seja lá o que isso for e a que nível – não vai fazer “diferença absolutamente nenhuma“. Há quem queira trepar montanhas na luta activista, há quem num coro cante a igualdade e a aceitação, há quem vá ao Trumps porque, para o bem e para o mal, ainda é um porto seguro para muita gente e onde pode ali ser, mesmo que brevemente, quem realmente é. Dizer que isso não vai fazer “diferença absolutamente nenhuma” é de um total desrespeito pelas pessoas que o fazem. Não podemos exigir que toda gente tenha a obrigação de o fazer, mas cair no erro do encolher de ombros e no lavar de mãos só fica mal àqueles que,  não o fazendo, nos apontam o dedo de forma absolutamente destrutiva. Não somos impermeáveis a críticas e ideias novas,  aliás, estas são muito bem-vindas e são sinal de envolvimento que, obviamente, valorizamos. Mas não estamos a dizer que todas as pessoas LGBT e apoiantes tenham que colocar bandeiras arco-íris nas suas janelas e participar em todas as manifestações e concentrações. Devemos, sim, no nosso dia-a-dia combater a misoginia, a homofobia, a bifobia, a transfobia e o machismo que nos impedem de viver livremente. Importa, cada um com o seu estilo e força, remar na mesma direcção. E isso, aparentemente pela discussão lançada com a pergunta do topo, pode passar apenas por não desprezar o trabalho que tem sido feito na reivindicação dos nossos direitos, nem atacar a forma como as pessoas decidem exprimir a sua visibilidade na sociedade.

Não nos tomamos por heróis (nem por anti-heróis), mas acreditamos que aos poucos – pessoa-a-pessoa, se for preciso – conseguiremos melhorar as condições de vida, por pouco que seja, de uma população ainda amplamente marginalizada. Há que entender que os “gritos” e os “holofotes” que alguns e algumas de nós possamos usar são reflexo de uma opressão entranhada na sociedade, são um grito de guerra, contra toda a violência que lhes foi e é ainda imposta. Mas eles e elas têm um sonho e uma motivação transversal a quem dá real valor a esta luta. E esse sonho partilhado, esse impulso que pega em todos e todas nós e nos faz seguir em frente com orgulho não é – de todo – fazer “diferença absolutamente nenhuma”.

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