Queer Lisboa: 9 dias, 7 filmes (e vencedores do certame)

Desde o início da vigésima edição do Queer chegou o Outono, acompanhado das habituais maleitas sazonais, mas tal não foi impeditivo para um mais bem sucedido certame daquele que é o festival de cinema mais antigo de Lisboa. A magnitude do filme da abertura foi de mão dada com o crescimento do festival dos últimos anos: ‘Absolutely Fabulous: The Movie’, fruto de um fenómeno de culto gay que nasceu nos anos 90 e que acompanhou a génese da aceitação identitária de muitos daqueles que encheram a sala principal do São Jorge no dia 16 de Setembro. Sejamos honestos, por muito que se ame Edina e Patsy (no meu caso particular a coisa é bem mais doentia), este não é o filme que o legado gargantuano de Jennifer Saunders merecia. Apesar de ser sempre bom rever TODAS aquelas personagens que povoaram a série ao longo dos seus anos, houve algo fulcral que falhou na transposição para o grande ecrã. Como se aquelas personalidades maiores que a própria vida, e que nos ensinaram a não nos conformarmos e jamais negar aquilo que somos e queremos, precisassem de contenção para quebrarem todos os limites. Antes do filme uma encenação de André Murraças, ‘50. Orlando, ouve’, e protagonizada por vários actores e personalidades das artes, homenageou as vítimas do massacre na Flórida. Ouvimos os nomes, as histórias, os relatos, a dor, a perda. Nunca, NUNCA esquecer.

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Absolutely Fabulous: The Movie‘ de Mandie Fletcher

Dois dos filmes mais predominantes do festival vieram directamente da edição da Berlinale deste ano. Já havíamos vistos e falado de ‘Theo et Hugo dans le même bateaude Olivier Ducastel e Jacques Martineau, uma doce e comovente obra sobre um amor que nasce no meio de uma crise aguda. Quotidiano e belo, normaliza a relação entre os protagonistas sem esquecer quem são, abordando de forma directa e adulta um assunto tão crucial como a profilaxia pós-exposição. Venceu o Teddy Award em Berlin enquanto escolha da audiência, o austríaco ‘Kater’ de Händl Klaus teve a predileção do júri. Uma história também quotidiana de um casal de músicos que já parecem partilhar a sua vida há muito: jantares com amigos, sexo terno ao som de jazz, ensaios tensos, amor incondicional pelo gato. Aproximadamente a meio do filme um cataclismo totalmente inesperado acontece e traz toda uma nova perspectiva a tudo o que observamos antes, tornando-se numa doentia metáfora do quão bem podemos conhecer aquela pessoa que amamos e até onde nos é humanamente possível perdoá-la.

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Kater‘ de Handl Klaus

Grandma’ relata a história de uma mulher que se encontra ainda de luto pela companheira de longos anos que perdeu há pouco tempo e que tem agora um outro problema: a nossa neta adolescente a bater-lhe à porta para um aborto. Um filme típico do cinema independente norte-americano, na fórmula e na realização capaz mas apagada de Paul Weitz, mas que conta com um furacão de nome Lily Tomlin, uma das mais bravas actrizes da história da comédia e dos mais inspiradores símbolos da comunidade LGBT. Dizer que a interpretação salva o filme é pouco, Tomlin supera quaisquer limitações com uma lição de vida devastadora.

Do Brasil chegou entretanto um documentário insólito, ‘Waiting for B.’ de Paulo César Toledo e Abigail Spindel, sobre os fãs que acamparam durante 2 meses no estádio do Morumbi para ficar nas primeiras filas de um dos concertos de Beyoncé no país. A certa altura um dos protagonistas afirma que só no Brasil algo assim pode acontecer e é mesmo verdade. A devoção transparece em cada momento das vidas destas pessoas, muitas delas difíceis e tortuosas, e que vêm alguma luz no amor incondicional à arte de Beyoncé, um testamento da importância das divas na formação individual e colectiva das pessoas gay.

Hazing e bullying nas faculdades norte-americanas foi o tema de ‘Goat’ de Andrew Neel com argumento também de David Gordon Green. Protagonizado pelo sublime Ben Schnetzer, que já conhecíamos de ‘Pride, e também pelo heartthrob Nick Jonas, é um interessante olhar para o que define um homem e o peso que a necessidade da masculinidade e virilidade tem na identidade de muitos jovens. Um filme aparentemente pouco… queer, mas que encaixa no festival por esta exploração bem interessante do binarismo exacerbado e do absurdo efeito social que tem numa sociedade totalmente patriarcal.

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Goat‘ de Andrew Neel

A terminar tivemos o capítulo final de ‘Looking’ – foto de destaque – realizado pelo extraordinário Andrew Haigh, de ‘Weekend’ e ’45 Years’. O filme foi concebido como encerrar das histórias de Patrick, Dom e Agustín depois do cancelamento (absurdo) por parte da HBO depois de uma segunda temporada fulgurante e que estava a redefinir a presença das pessoas LGBT em televisão.

Muito mudou desde a génese do Queer Lisboa em 1997, tanto no festival como nas pessoas que a ele acorrem. O cinema queer tornou-se decididamente mais rico, diversificado e abrangente. As pessoas tornaram-se mais livres e desinibidas, agora subindo orgulhosamente as escadas dos Cinemas São Jorge. Sem vergonha nem medo. É ainda um espaço seguro que não só é necessário manter como celebrar.

Para finalizar, ficam aqui os filmes e pessoas vencedoras dos prémios do Queer Lisboa 20. Até para o ano!

Competição de Longas-Metragens

Melhor Longa-Metragem: Antes O Tempo Não Acabava (Brasil, 2015) de Sérgio Andrade e Fábio Baldo

Melhor Atriz: Julia Lübbert, em Rara (Chile, 2016), de Pepa San Martín

Melhor Ator: Anderson Tikuna, em Antes O Tempo Não Acabava (Brasil, 2015)

Prémio do Público: Rara (Chile, 2016), de Pepa San Martín

Competição de Documentários

Melhor Documentário: Irrawaddy Mon Amour (Itália, 2015), de Valeria Testagrossa, Nicola Grignani, Andrea Zambelli

Menção Especial do Júri: Coming Out (EUA, 2015), de Alden Peters

Prémio do Público: Waiting for B. (Brasil, 2015), de Paulo César Toledo e Abigail Spindel

Competição de Curtas-Metragens

Melhor Curta-Metragem: 1992 (França, 2015), de Anthony Doncque

Menção Especial do Júri: Como En Arcadia (Espanha, 2015), de Jordi Estrada

Prémio do Público: Pink Boy (EUA, 2015), de Erick Rockey

Competição In My Shorts

Prémio Melhor Curta-Metragem de Escola: Children, Madonna and Child, Death and Transfiguration (Portugal, 2016), de Ricardo Vieira Lisboa

Menção Especial do Júri: Climax (Suíça, 2015), de Fulvio Balmer Rebullida, e La Tana (Itália, 2015), de Lorenzo Caproni

Competição Queer Art

Melhor Filme: A Paixão de JL (Brasil, 2015), de Carlos Nader

Menção Especial do Júri: Trilogie de nos vies défaites (França, Holanda, Bélgica, 2016), de Vincent Dieutre

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