Ana Chaparreiro: “Ainda Há Muito A Conquistar No Desporto Feminino”

A Ana Chaparreiro, coordenadora do grupo desportivo MOVE e recém campeã nacional de ténis feminino na categoria +45, foi uma das convidadas da tertúlia “Homofobia e Sexismo No Desporto” e partilhou o  discurso que deu nesse dia. Porque a homofobia e o sexismo estão ainda entranhados no desporto amador e profissional, importa ler:

 

Sou uma apaixonada pelo desporto e gosto de pensar, ou pelo menos ousar sonhar, que o desporto é um espaço democratizante, justo e equitativo. Seria o suposto lugar onde estaria apenas em questão a superação pessoal, o crescimento, o convívio e o desafio de tentar ganhar ao adversário com todo o “fairplay” e respeito pelo outro, como regra de excelência. O desporto pode e deve preparar para a vida e deveria ser um espaço sem descriminação e de liberdade.

 

No entanto, infelizmente, sabemos bem que nem sempre é assim, e que incluído num sistema social, radicaliza os fenómenos de massas e na imagem de deuses associada aos seus ídolos reproduz e por vezes exacerba mesmo nos seus adeptos, os fenómenos de descriminação homofóbica, racista e sexista. Tal como na sociedade em geral também muitos atletas preferem estar dentro do armário para se sentirem seguros e livres de praticarem as suas modalidades.

 

Se muito mudou e hoje é possível estarmos aqui, ainda existe muito a fazer em termos de visibilidade, que passa também por eventos como este. Naturalmente que os Jogos Olímpicos, para muitos atletas o culminar de anos e anos de treino, na reunião de mais de 120 países com todas as suas diferenças, e palco da igualdade que o desporto confere, são o seu apogeu.

 

Em 1990 Justin Fashanu, jogador de futebol, assumiu-se como gay em 1998 devido aos sucessivos ataques homofóbicos de que foi vítima, acabou suicidando-se. Longo caminho este que tornou o Rio de Janeiro nos Jogos Olímpicos mais gay de sempre. 49 atletas entre homens e mulheres eram assumidos publicamente. Mas longo ainda será, pois 49 em mais de mil atletas deveria ainda fazer-nos interrogar. Tivemos atletas LGBT que ganharem medalhas de ouro graças apenas ao seu trabalho e dedicação, houve dois pedidos de casamento entre pessoas LGBT – uma jogadora de rugby e a sua namorada e entre o atleta de marcha atlética e o seu namorado.

 

A mediatização dos pedidos de casamento foi outro passo positivo para ajudar outros atletas a saírem do armário, e provavelmente outros tantos milhares de pessoas. Estes exemplos contribuem largamente para uma maior integração na sociedade.

 

No futebol só existem 8 atletas a assumirem-se como homossexuais, é muito pouco, e apesar das dificuldades que sentiram, revelaram que o “coming out” foi importante em termos pessoais e que esperam que as suas acções possam melhorar a vida de outros atletas como eles.

 

Para melhorar ainda mais, tem de haver uma proteção clara dos jogadores de comunidade LGBT e que quando ocorram insultos estes possam ser punidos e repreendidos, como aconteceu com o avançado italiano do Manchester United Federico Macheda foi multado em 15 mil libras (18.000 euros) pela Federação Inglesa de Futebol por ter proferido comentários considerados homofóbicos no Twitter. São estas federações órgãos como a FIFA, COI que deveriam fomentar o respeito e a igualdade para todos os desportistas independentemente da sua cultura, religião e orientação sexual.

 

Também se falou da presença feminina nos Jogos Olímpicos do Rio porque foi a maior de sempre: 45% dos atletas. Foi uma grande mudança e uma grande conquista. Até abriram novas regras de vestuário para permitir que todas as atletas sem exceção participassem nas suas modalidades, como a dupla Egípcia no voleibol de praia. O respeito, a proteção e a mediatização, que estas atletas tiveram foi ao meu ver importante para o futuro do desporto feminino nos seus países de origem.

 

Assistimos também e tristemente a campeãs com medalhas de ouro a serem colocadas em segundo plano pela impressa que ao invés de destacar o resultado, realçaram a ajuda do marido em todo o processo. Marido este que era o treinador e homem. E isto não pode acontecer.

 

No desporto feminino a homossexualidade tem maior visibilidade com jogadoras a assumirem-se e a mostrar o afeto com as suas namoradas, como é a figura mais importante do futebol feminino Abby Wambach, no ténis a Navratilova, a Mauresmo, sendo nesta modalidade também onde se conheceu a primeira jogadora transgénero. Não conheço nenhum gay no ténis, mas deve haver…

 

As mulheres têm ganho cada vez mais espaço dentro do desporto e jogam quase todos os desportos, sendo um movimento lento mas muito importante, graças às politicas de inserção e de fomentação do desporto feminino.

 

Sei que ele cresceu, porque muitos países se viram obrigados a levar atletas femininas nas suas comitivas para os Jogos Olímpicos, senão não poderiam participar. É triste saber isso, mas este passo foi determinante para muitas mulheres.

 

Do outro lado, temos a ginástica rítmica que para muitos é apenas um desporto feminino por excelência a ser conquistada aos poucos por atletas masculinos, e que está a ganhar cada vez mais adeptos. Os preconceitos, relativos à sua masculinidade, que estes atletas muitas vezes vivenciam é terrível, mas, mesmo assim começa-se a ver campeonatos de GRM por todo o mundo.

 

Apesar dos Jogos Olímpicos serem uma boa plataforma para promover o desporto feminino, com uma grande cobertura e mediatismo, como o futebol, a ginástica, a natação sincronizada, reparei que no nosso quotidiano isso não acontece. São poucos os desportos com atletas femininas a passar em “prime-time”. Ainda há muito para conquistar neste domínio.

 

Podemos também falar da presença feminina na comitiva portuguesa para os Jogos Olímpicos que apesar de ter sido a maior de sempre, foi apenas de 30% dos atletas que foram ao Rio, ao mesmo tempo que foi uma mulher a trazer a única medalha dos jogos.

 

Bullying no desporto: E por que é que os atletas deveriam sair do armário?

 

Muitos jovens têm os seus ídolos no desporto. Muitos se revêm neles, se identificam e querem ser como eles. A falta de atletas a assumirem-se LGBT pode criar num jovem a descobrir a sua sexualidade uma barreira mental que pode ser prejudicial. Os atletas ao se assumirem quebram inúmeras barreiras, desconstroem os preconceitos e contribuem para que muitos jovens possam também eles sair do armário sem medo, pelo menos com menos medo.

 

O assumir dos atletas permite mostrar que a orientação sexual não é importante em termos de performances e ganhos das competições e que aqueles atletas que eles admiram também puderam fazer o seu caminho dentro do desporto. Isso pode ajudar o jovem a continuar a crescer na sua modalidade em vez de sair por vergonha ou outra algo bem pior.

 

Estes passos são importantes também para todo o entorno, para os pais, os colegas, os professores e os amigos no processo de integração. É um caminho difícil e ações destas deveriam se espalhar pelo país como forma de abrir as mentes.

 

Porque sabemos bem como ainda é tão difícil, e que estamos muito longe ainda do pleno direito à diferença, e que muito não querem/podem assumir, e porque nós como comunidade LGBT queremos ter no desporto um espaço sem descriminação e de liberdade para todos, criamos o Move.

 

O Move existe para permitir um espaço seguro onde as pessoas possam jogar, aprender, conviver, criar amizades inesperadas e superar-se sem descriminação. É um lugar de encontro que reúne pessoas de todo o país afirmando-nos como comunidade que mais unida naturalmente se torna mais confiante e empoderada.

 

Porque a união faz a força!

Ana Chaparreiro, coordenadora do grupo desportivo MOVE.

 

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Nota: Obrigado à Ana pela partilha 🙂

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