“Tão Só o Fim do Mundo” – um filme eletrizante de Xavier Dolan

Juste la fin du monde (Tão Só o Fim do Mundo) é o mais recente filme de Xavier Dolan, estreado hoje nas salas de cinema em Portugal. Dolan é um cineasta, muito jovem, que tem abordado a temática lgbt nos seus intensos filmes e que, muito apreciado pela crítica, tem conquistado um lugar de destaque no cinema independente, dito de autor. Podem ser lidas algumas críticas aos seus filmes em “Tom Na Quinta”“Como Matei A Minha Mãe” e De Almodóvar a Dolan: Les enfants terribles que contam a minha vida.

Tão Só o Fim do Mundo, baseado numa peça de teatro com o mesmo nome, é a história do regresso de Louis (Gaspard Ulliel), 34 anos, a casa da sua família, onde estão a sua mãe, irmã, irmão e cunhada, onde pretende passar o dia. Louis, vindo de uma cidade grande, esteve 12 anos sem visitar a família e todos o aguardam impacientemente. Pouco se sabe de Louis. Que é gay. Do teatro, possivelmente dramaturgo. E que veio para revelar à sua família um facto trágico, supõe-se que a sua morte, anunciada. O encontro serve para confrontar Louis, e todos os outros, um a um, com o passado, e também o presente, num drama familiar adiado.

foto2Foto: Montreal Gazette

Este é um filme fortíssimo de Dolan, que segue um pouco a linha de Tom na Quinta (Tom À La Ferme, Xavier Dolan, 2013). Descrevem um regresso ao passado, à base, e com a morte em pano fundo. Regresso, sim, mas por pouco tempo, porque tanto Louis como Guillaume (Tom na Quinta) fugiram de casa, num meio rural, para a cidade e sem manterem laços com a família. O enredo está subtilmente desenhado para que se reconheça a sugestão do passado mas tal sempre permaneça na dúvida, envolto em névoa. Esta subtil forma de contar a história é particularmente bem conseguida, pois percebe-se um mistério que envolve a morte, ou desaparecimento, do pai, mas de que ninguém fala. Subentende-se que por trás da fuga de Louis para a cidade está um desejo de afirmação da sua sexualidade (afinal, foi viver para o bairro gay), mas a sua orientação sexual é, parece, bem resolvida com a família. Na verdade, nada disto é dito e em todo o enredo é muito mais o que é sugerido do que aquilo que é afirmado, ou verbalizado. Um traço muito talentoso de Xavier Dolan. Voltaremos a este tema mais à frente.

A cena inicial do filme dura aproximadamente 12 minutos, talvez um pouco mais. Está de tal forma bem dirigida e interpretada que ficamos a conhecer muitíssimo bem todas as personagens do filme. Um excelente trabalho de direção, com interpretações muito convincentes. Dir-se-ia que daí para a frente o filme vem enriquecer as personagens que ali foram estruturalmente moldadas. A estrutura do filme é, aliás, precisamente composta por cenas longas, intensas e em boa parte com apenas duas personagens. É uma herança do teatro que está perfeitamente patente nesta película, em que Louis contracena com cada um dos seus familiares, intercalando estas cenas com quatro cenas de conjunto (ensemble).

foto3Foto: À Pala de Walsh

Como disse, no resumo da primeira cena é possível perceber muito dos personagens. A mãe, interpretada por Nathalie Baye (também em Lawrence Anyways, Xavier Dolan, 2012) é uma mulher madura, amargurada e a pender para o histrionismo, para chamar a si a atenção. Baye interpreta de forma magistral este papel de uma mãe que procura a harmonia, ou talvez, acima disso, a ilusão da harmonia entre os filhos. Suzanne (Léa Seydoux), por seu lado, é a irmã mais nova de Louis. Quase não o conhece, pois o irmão saiu de casa era ela ainda uma criança. É revoltada e tudo nela parece girar à volta desta revolta. Suzanne luta para se libertar da agressividade e do seu irmão mais velho, Antoine. A interpretação de Léa Seydoux é também muito convincente, mostrando impulsividade e mágoa reais. Antoine (Vincent Cassel) é o anticiclone da história, por contraponto da Louis. Tudo em Antoine é impulso, crueldade, mágoa reprimida e explosão, e ainda, o ponto de concentração da pressão de toda a família. É também um personagem misógino. Cassel não desilude e mantém a sua forma muito particular e forte de desempenhar papéis desta natureza. Casada com Antoine, está Catherine (Marion Cotillard). É doce e meiga, mas como todos nesta família, conformada e triste. É a personagem que melhor se entende com Louis, sobretudo por palavras não ditas. Uma riquíssima interpretação de Marion Cotillard, que transita constantemente do entusiasmo para a ansiedade e desta para a tristeza. Para fechar este quinteto de luxo, está Gaspard Ulliel, numa excelente interpretação. Dá-nos um Louis nostálgico, que quer entrar em bicos de pés no passado, para tocar no mínimo possível, sem quebrar nada, de preferência.

foto4Foto: Huffington Post

Cinematograficamente, Juste la fin du monde é um belíssimo filme onde Xavier Dolan atinge um elevado grau de maturidade enquanto cineasta. O tratamento da focagem, do jogo entre planos focados e desfocados, num esquema de reduzida profundidade de campo, permitem a subtileza do tratamento da cena. Logo no genérico do filme (um dos mais bonitos que tenho visto ultimamente) a sugestão do passado e do regresso às origens faz-se vislumbrando Louis por uma fresta. Fresta essa que aparece várias vezes ao longo do filme, pela qual se vislumbra, mais do que uma vez, a cave que guarda os objetos do seu antigo quarto. Este cuidado na focagem, melhor seria dizer, na desfocagem, reforça o mistério que envolve o passado numa névoa. É mesmo assim o passado desta família, desfocado. Este elemento é muito bem trabalhado por Dolan. Semelhante tratamento do plano de focagem faz László Nemes em O Filho de Saul (Saul Fia, 2015), à boa maneira de Godard.

A luz, meia-luz, é outro reforço do que aqui disse sobre o passado. Quase todas as cenas interiores são filmadas a meia-luz, mostrando parte, escondendo outra parte. A cena final, contudo, uma cena de uma emoção desmedida, é filmada com uma luz intensa, quente e saturada. É, pois, uma cena explosiva onde parte do passado é chamado à colação. Brilhante luz.

Por último, Dolan posiciona a objetiva para planos picados. Vemos os grandes planos das faces, uma presença constante ao longo da película, em ângulos de baixo para cima e de cima para baixo. Dolan filma os rostos dos personagens de vários ângulos, como se num quadro cubista os quisesse pincelar.

Uma nota para a música. Num registo muito próprio do cineasta, não muito diferente da tradição de Wong Kar-Wai, as faixas sonoras variam de uma música pop alegre e enérgica, para uma música erudita, sinfónica, que aqui serve para materializar a nostalgia. A música acompanha a imagem, ajudando a criar um enredo mais denso e intenso.

Juste la fin du monde é isso mesmo, a derrocada de uma família, no fim do mundo. A não perder esta obra eletrizante de um cineasta jovem mas de quem continuamos a esperar brilhantes obras. Porque o passado às vezes é para esquecer e, como diz a mãe de Louis, “on a peur du temp” (temos medo do tempo).

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