Homossexualidade e Toxicodependência – A díade improvável

Como estudante apaixonada e futura psicóloga, estoicamente afirmo não me rever nas declarações prestadas pela Drª Maria José Vilaça, profissional nesta área que tanto me fascina. A mesma, desempenha o cargo de Presidente dos Psicólogos Católicos, e a verdade é que com elevados cargos advém maior responsabilidade!

Deste modo, as nossas atitudes e decisões tomam agora uma importância mais acentuada para os demais, na qual raciocinar antes de expressarmos as nossas ideias é a receita secreta para que as nossas declarações sejam coerentes! Mas, vamos ser coerentes e analisar as afirmações de tal sujeito.

Foi, então na semana passada que Maria José Vilaça, num artigo direcionado para questões de identidade de género, afirma o seguinte: “Eu aceito o meu filho, amo-o se calhar até mais, porque sei que ele vive de uma forma que eu sei que não é natural e que o faz sofrer. É como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom .”

Surge, assim, uma díade atroz, inadequada, improvável, aterradora, e muitos outros conceitos de cariz negativo, entre a Homossexualidade e Toxicodependência…

Cara Drª, segundo a OMS a toxicodependência é definida como “um conjunto de fenómenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem depois de repetido uso de uma substância e que incluem tipicamente um forte desejo de tomar a droga, dificuldades em controlar o seu uso, persistindo no seu uso apesar das suas consequências nefastas, uma maior prioridade dada ao uso da droga do que a outras actividades e obrigações, tolerância aumentada, e às vezes um estado de privação física. ” (OMS, 2011).

Portanto, falamos de um acontecimento repetitivo de natureza comportamental, cognitiva e fisiológica, que promove o surgimento de consequências nocivas,prejudiciais ao sujeito. A homossexualidade gera no indivíduo felicidade, bem-estar, plenitude interior, auto e hetero conhecimento, entre muitas outras consequências. Veja só, por coincidência coadunam com as sensações e consequências provenientes do amor experienciado nas relações de natureza heterossexual!

Falamos de amor, bolas! Como conjugar na mesma frase, e até mesmo interligar o amor a um acto consciente promotor de “consequências nefastas ”? E mais, como é que tais associações surgem de um indivíduo intitulado como psicólogo?

Não é esta a figuração de psicólogo que ambiciono alcançar, não são estes os valores, ideais, que defendo! Não, não quero acreditar que a minha paixão científica, a psicologia, concorde com tais declarações! A preocupação de surgir uma oportunidade de emprego assim que terminar o meu curso, torna-se neste momento uma personagem secundária no meu cenário profissional futuro. Torna-se agora mais preocupante para mim a imagem do psicólogo no mundo profissional e científico… Como é que eu vou conseguir ser respeitada!?

O que me tranquila é saber, que a Ordem dos Psicólogos já interveio neste caso, afirmando que “não se revê nas afirmações proferidas” e que “as declarações não apresentam qualquer tipo de base científica e que apenas contrariam a defesa dos direitos humanos, da evolução e equilíbrio social, e dificultam a afirmação dos psicólogos na sociedade.”

Será que a Drª sabe dos números elevados de suicídios presentes na comunidade LGBTQ? Será que a Drª sabe a angústia vivenciada por um sujeito homossexual? Será que a Drª sabe que a homossexualidade é igual à norma social da sexualidade, ou seja, à heterossexualidade? Por favor, informe-se, conheça e enquadre-se nos conceitos que utiliza antes de os conjugar!

Como aspirante à área da psicologia, e como jovem pertencente à comunidade LGBTQ, sinto-me duplamente indignada e magoada com tais declarações! Digo-lhe, com todo o respeito, que o natural é sermos felizes e exprimir livremente a nossa sexualidade, sem nunca interferir com a privacidade dos demais, e respeitando sempre o outro!

E mais, posso confirmar-lhe que os indivíduos homossexuais vivem a sua vida de forma natural e felizes, não existindo qualquer sofrimento! Por favor, repense futuramente nas suas afirmações e pense nos indivíduos pertencentes a esta ampla comunidade LGBTQ que sofrem constantemente para se enquadrar na sociedade, para alcançarem um bem-estar interno e para se conhecerem.

Devemos promover o equilíbrio e a união social e tentar reduzir as desigualdades, preconceitos e estereótipos, subjacentes e enraizados há muito tempo na nossa sociedade. Apenas uma novata com uma mente rebelde, e futura aspirante a área de psicologia, a solicitar à Dr.ª o exercício das seus deveres enquanto profissional desta área científica!

O amor, a sexualidade quando conjugadas com um acontecimento cíclico gerador de consequências negativas, é grave, é arriscado, é inadequado, e coloca em causa a condição de ser humano e a definição destes conceitos… É simplesmente errado, e não me encaixa tal! A Drª melhor do que ninguém, sabe que o amor é uma condição inata ao desenvolvimento humano! Desde as fases mais precoces que o ser humano precisa de amor, o confronto entre ambos promove a alteração conceptual, bem como a ideia do amor por parte do sujeito.

Coadunando com tal ideia, surge a afirmação de Melanie Klein: “Feelings of love and gratitude arise directly and spontaneously in the baby in response to the love and care of his mother”, ou seja, o amor encontra-se presente desde da díade (individuo-mãe), por conseguinte na tríade (indivíduo-mae-pai), prosseguindo até à integração individual no mundo social. O amor está na base do nosso auto e hetero conhecimento, da nossa sexualidade, e da nossa condição humana!

Concluo pedindo que tenhamos mais atenção às nossas conjugações, associações e afirmações! Sim, somos livre de exprimir o que quisermos, tal como o faço com esta reflexão, mas quando se envolve condições humanas com acontecimentos de natureza comportamental e cognitiva com cariz negativo, gera-se a polémica verificada…

Tal como, John Bowlby afirmou: “The propensity to make strong emotional bonds to particular individuals is a basic component of human nature.”

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