Gustavo Santos: A Homofobia Permite Crescer Através Da Dor

Gustavo Santos, o apresentador tornado escritor espiritual e life coach, deu uma entrevista esta semana ao programa Maluco Beleza do Rui Unas. Nele, discutindo Trump e o seu efeito sobre o ressurgimento da xenofobia, misoginia e homofobia, teve o seguinte e brilhante pensamento:

“Acho que quando atacam seja quem for, quando têm um pressuposto xenófobo ou homofóbico, por exemplo, não interessa o que as pessoas dizem a esse respeito, o alvo de interesse não é o que falam dessa pessoa, mas quem é essa pessoa. Acredito que ataque sobre ataque, ou ofensa sobre ofensa, vai fazer com que esta pessoa trabalhe a humildade e seguramente a aceitação que aquela pessoa tem uma visão diferente. E ela tem que aprender a aceitar aquela verdade. E tudo isto faz com que através da dor a pessoa cresça. A pessoa que é o alvo é que é o centro de estudo e o que ela faz com isto.”

Com estas inenarráveis afirmações, o Gustavo parece não se ter afastado da sua anterior argumentação que escolhe como “grande responsável” da violência em relacionamentos “não o violador, não o agressor”, mas a vítima, “porque é ela quem escolhe, sempre e após cada agressão, manter-se” na relação.

É, pois, com este nível de raciocínio que vemos mais uma vez Gustavo, que não poucas vezes vê os seus livros no topo das tabelas das livrarias nacionais, a responsabilizar a vítima de agressão e bullying homofóbicos pela sua condição, convidando-a a trabalhar a sua própria humildade e a aceitar que há agressores. A vítima só tem que aceitar a realidade que lhe impõem e, através da dor que lhe impingem, crescer. Pergunto-me então se a vítima deve igualmente agradecer a ofensa e a violência que recebe por parte de quem a agride? Pelo crescimento que – bem vistas as coisas, não é, Gustavo? –  lhe induz.

Não consigo entender esta obsessão que algumas pessoas têm com a dor. Sim, a dor pode tornar-nos mais fortes se formos devidamente acompanhad@s e apoiad@s, mas também pode criar situações de desespero e ansiedade que, e em alguns casos é mesmo isso que acontece, acabam em morte. Por isso, não há como defender este arrogante pensamento. Não podemos aceitar uma realidade de injustiça, imposição e exploração, porque isso seria validar, mesmo que silenciosamente, um acto agressor.

O Gustavo Santos, para além do pensamento curto e simplista, cai no erro de promover uma ideia que vai no sentido absolutamente oposto àquilo que qualquer vítima deve fazer: procurar ajuda e denunciar. Porque inverter a responsabilidade num acto em que uma pessoa agride outra não pode ser confundido com humildade e muito menos com aceitação. É um acto de sadismo e, pior ainda, de absoluta cobardia.

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