A pluralidade da experiência identitária

A pluralidade de experiências é uma das características mais presentes em nós, enquanto espécie humana. Espelha-se de muitas formas e, ao longo da História, foram sendo definidas e redefinidas experiências a vários níveis de modo a acomodar todas as diferentes realidades que se vivem pelo mundo. Muitas destas formas plurais são peças essenciais no modo como vivemos a nossa própria percepção e a do mundo – tornam-se assim identitárias. Partes de nós que nos caracterizam e nos permitem a afinidade com os demais grupos de pessoas que nos rodeiam.
As características identitárias assumem, deste modo, um papel de extrema importância porque nos permitem construir uma linguagem própria e única. No mundo em que existem normatividades compulsórias, que se refletem num sistema de valores e de hierarquias, é de prever que a pluralidade e individualidade se tornem partes minoritárias nesta escala social. Contidas nesta pluralidade encontram-se as identidades para a orientação sexual (contraponto a heteronormatividade), as identidades para a orientação relacional (contraponto a mononormatividade) e as identidades para o género (contraponto a cisnormatividade). Focando-me nas identidades que emergem do género, é importante contextualizar o valor da cisnormatividade. A palavra cis apareceu para complementar o facto de existir uma palavra (trans) que identifica pessoas de género não conforme – no entanto, é importante notar que muitas definições, infelizmente, aparecem em contextos clínicos para caracterizar comportamentos desviantes da norma. E, é neste sentido que se surge a cisnormatividade (e o cissexismo). São conceitos que caracterizam uma cadeia de privilégio social na hierarquia de valores num dado contexto pelo facto de uma pessoa estar em conformidade com o seu sexo biológico. Por outro lado, pessoas trans são submetidas ao choque que as coloca contra este sistema de valores.
Durante muitos anos (e, infelizmente, ainda), pessoas trans ou de género não conforme eram colocadas em questionamento sobre a sua verdadeira identidade com base nestes valores cisnormativos. Na prática, pessoas trans são constantemente submetidas a processos de normalização. O verdadeiro objectivo torna-se transportar as suas experiências para um mundo cisnormativo. Porém, com o tempo tem-se verificado que este processo nem sempre se desenrola deste modo.
É num contexto de aceitação da pluralidade e da diversidade de experiências que aparecem várias teorias e vários movimentos que questionam o binário de género. Colocam à prova estes processos de normalização e devolvem o espaço da experiência individual a cada indivíduo. Esta desconstrução permitiu dissociar o conceito de sexo, do conceito de género, passando o sexo a referir-se a um aspecto biológico e o género à experiência social, expressiva e performativa perante a sociedade. Deste modo, a biologia não torna a aceitação de um género como determinística e, por sua vez, abre portas para um espectro alargado sobre a forma como se entende este aspecto – passando a ser identitário e, por isso se fala em identidade de género.

 

Com isto, nascem novas definições que procuram representar grupos de experiências comuns, estas são, portanto, definições que ao colocarem em questão um sistema cisnormativo viabilizam formas de identidade de género não conforme. A palavra trans é usada para referenciar todas estas formas contra normativas. Alguns exemplos de formas não binárias incluem género fluído (pessoas que fluem dentro de vários géneros), agénero (pessoas que não se identificam com nenhum género), polygender (pessoas que se identificam com múltiplos géneros), pangender (pessoas que se identificam com todos os géneros). Muitas pessoas podem querer ou não uma mudança legal de nome, muitas poderão optar por querer um nome neutro (em Portugal não é permitido), muitas poderão ou não optar por mudanças corporais. Estas formas mais neutras e menos binárias permitem uma combinação infinita entre identidade de género, expressão de género, performance de género e direito corporal.
De uma forma colateral, a luta pelo reconhecimento de identidades não binárias permite simultaneamente desconstruir um sistema normalizador de identidades trans. Um sistema que coloca a forma normativa à frente da experiência pessoal de cada um, não permitindo a livre expressão social e corporal. Normalizar identidades é um processo que vai contra o livre direito a ser em pleno, normalizar corpos é um processo moral num sistema de hierarquias que atenta ao direito à individualidade e ao pleno direito do corpo enquanto propriedade de si mesmo.
Devemos, deste modo, pensar seriamente no modo como avaliamos identidades, no modo como perpetuamos o estereótipos normativos numa sociedade que é desigual e, infelizmente, onde qualquer identidade femme é especialmente ostracizada por um sistema patriarcal e machista. É importante também pensar seriamente no quanto prejudicamos pessoas quando lhes é negado o acesso a uma protecção legal (pela mudança de nome) ou pelo acesso à saúde (quando continuamente se presta péssimo serviço de acompanhamento) ou quando negamos a identidade plena de cada um.

Imagem: Nero Sassy (http://ne-r0.deviantart.com/)

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