Ricardo Araújo Pereira E Gin Tónico

Este não é propriamente um texto fácil de escrever. Porque trata duas pessoas que, por razões distintas, sou um declarado admirador. Mais, são duas pessoas que têm estado no mesmo lado da luta contra a homofobia nas últimas décadas e por isso custa especialmente vê-las discordar num ponto que me parece tão óbvio: as palavras têm significado e este atinge pessoas.

Falo do Ricardo Araújo Pereira, uma das figuras que revolucionou o humor em Portugal nos últimos anos, que numa entrevista ao Jornal i questiona: “Quando há gente que diz ‘estes gins cheios de paneleirices’, quem é que associa isso a homossexual?” O humorista falava de um episódio de uma pessoa que ele admira lhe contou em que, ao pedir um gin tónico num bar, o empregado lhe disse que “só tinha os copos normais e que não tinha aqueles balões “cheios de paneileirices”“. A pessoa confrontou o empregado com a ofensa e este “desfez-se em desculpas“.

Ora essa pessoa era o Paulo Côrte-Real, figura incontornável na luta pelos direitos das pessoas LGBTI em Portugal, que respondeu hoje à entrevista do Ricardo num texto brilhantemente satírico:

Sempre que oiço falar em paneleirices, acho que é sobre mim. Ou mesmo em ‘mariconços’. Sabes porquê? Foi de ouvir tantas e tantas vezes palavras como estas, ao longo da vida toda – e, provavelmente ao contrário de ti, de as ter ouvido mesmo sempre, cada uma delas. É que prestei atenção – porque até soube sempre que eram sobre mim. (…) As pessoas que usam a palavra nem sempre pensam no conteúdo. Mas eu penso sempre nele, porque aprendi – porque sei – que a palavra é sobre mim.

E é isso que o Ricardo Araújo Pereira parece não perceber por mais que lhe tentem explicar – lembro-me de uma Prova Oral de há uns meses com o Ricardo, a Fernanda Câncio e o Daniel Oliveira em que o tema foi a liberdade de expressão em plena polémica do burquíni. A palavra tem poder, a profissão do Ricardo é geralmente hábil nesses jogos de poder e contrapoder. Mas mais do que o poder que as palavras têm, é a intenção que lhes damos. E é por isso que o Ricardo – ou qualquer outra pessoa – pode efectivamente utilizar qualquer palavra que deseje, mas se à palavra lhe tiver sido dado um significado que minora um grupo – seja ele qual for – por puro preconceito, é especialmente importante que a intenção fique clara e que esta sirva para desconstruir dogmas e clichés. Aliás, o Ricardo é exímio nesta desconstrução.

Acontece que é igualmente possível dar a volta à afirmação que ele fez na entrevista ao jornal:

São portanto dados aqui dois exemplos – o do Paulo e o do Gonçalo Sousa, em tom de sátira – que tornam claro por que as afirmações do humorista podem ser, no limite, perigosas. Não está aqui em causa a liberdade de expressão do próprio, mas sim aquilo que ele faz com ela e como a condiciona a outrem quando insiste em usar expressões que ferem um determinado grupo. E tod@s nós já o sentimos na pele e é especialmente preocupante quando estas palavras nos atingem em momentos de fragilidade ou de imaturidade como a crianças e adolescentes. Porque o insulto, ainda que mascarado por piada não direccionada, é um insulto na mesma. E sempre acerta naquelas que o ouviram a vida toda. Sem qualquer intenção de piada.

Mas dito isto tudo, é-me absolutamente essencial deixar claro: mesmo que falível – quem não o é? – o Ricardo Araújo Pereira é um dos mais fortes aliados que a população LGBTI portuguesa pode ter e ele tem-no demonstrado há largos anos pela sua proximidade e devoção, mas também pela sua arte de empoderar através do humor aqueles e aquelas que mais sofrem na sociedade. É esse o trunfo da palavra, dar voz e poder a quem não os tem. É este também o Orgulho que sinto numa carreira humorística singular e cheia de geniais e reconhecidos exemplos e que não me cansarei de defender.

A nossa deixa já foi lançada, resta por isso que o Ricardo lhe pegue e se supere novamente, como aliás não duvido que o faça. Para que possamos rir todos e todas, mais uma vez, com ele.

 

Fonte: Imagem.

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