Um ano que se finda mas não se esgota

Digamos que o ano de 2016 não foi propriamente agradável. O mundo viveu horas e dias de terror, as ameaças foram constantes e perdeu-se demasiada liberdade, sem que nos tenhamos apercebido. Sim, é verdade, o medo começou a tomar conta de nós por variados motivos.

É altura de fazer o balanço, de passar em revistas os piores e os melhores momentos e retirar as respectivas conclusões. Atentados, bombas, mortos e violência gratuita não agradam a ninguém. Como é possível tal acontecer? E em nome do quê ou de quem?

No nosso burgo vivemos mais tranquilos, sem receio de bombas ou atentados físicos. Sempre se torna mais fácil prosseguir a vida. No entanto existiram algumas ocorrências e deram origem a outro tipo de contendas, menos violentas mas controversas e badaladas.

Duas situações foram aqui levantadas e com toda a justiça: o caso da psicóloga Maria José Vilaça e a do cronista João Miguel Tavares. Ambos expressaram as suas opiniões sobre o mesmo assunto e de maneiras muito próprias, o que levou a um grande debate sobre o mesmo: a homossexualidade.

Dizia a senhora que um filho homossexual é como se fosse um toxicodependente, pouco mais ou menos estas palavras. Deduz-se que a homossexualidade é uma chaga social, uma doença ou até mesmo um flagelo. Nas palavras da senhora psicóloga. Agora estou um pouco baralhada: não são os psicólogos que têm como função ajudar as pessoas a lidar com os seus medos, as suas limitações e outras circunstâncias particulares? O que é que me falha aqui?

Eu estava convencida que as doenças surgiam na sequência de ataques patogénicos ou similares. Estou enganada e os manuais escolares também porque não mencionam essa doença. Suponho que a senhora tenha uma família e que ame os seus filhos. Não sei se alguém da sua família seja homossexual, e na boa das verdades não me interessa, mas fico a saber que pode ser tratado. Como?

Na sua entrevista, para uma revista cristã, que defende valores como amar o próximo e a tolerância, apresenta o facto como sendo possível efectuar um tratamento de amor. Estamos de acordo. É de amor que se trata mas não do modo como ela o apresenta. As orientações sexuais, ou seja o que for, só dizem respeito aos próprios e a quem eles entenderem. Então porque se está a imiscuir num terreno que não é seu?

Não me lembro de ter lido em lado algum entrevistas, ou estudos, a falar do senhor fulano que é casado com a dona beltrana mas que o seu casamento sofre umas facaditas porque o senhor tem por hábito visitar outras senhoras. Igualmente não é reportada a frequência das relações íntimas dos casais. Não faltava mais nada. Claro que este parágrafo é meramente ficcional e serve para ilustrar o ridículo da intromissão.

O grave de tudo isto é que a senhora é a presidente dos psicólogos católicos. Até aqui existe uma divisão que, a meu ver, não tem razão de existir. Ou se é ou não se é e ponto final. Onde está o amor ao próximo? Pois, não está.

O cronista manifestou a sua opinião sobre o assunto e deixou-a bem clara. Está no seu direito. A crónica é sua e é para isso que lhe pagam. Chama-se liberdade de imprensa. Podia era escolher um outro tema que fosse menos intrometido na vida de cada um. Ou então foi mesmo assim, para levantar polémica. Continua a estar à vontade.

Agora, novamente na minha opinião, o senhor que é casado com uma senhora que é médica ( não sei se acha bem que as mulheres sejam médicas, não o disse ) e tem 4 filhos, deve precaver-se para a vida. O que um pai deseja para um filho é a maior felicidade e se um deles só for feliz com um parceiro ou uma parceira do mesmo sexo. Que fará o senhor?

Estou a meter a minha foice na seara alheia? Mas ele não teve problema algum em fazê-lo, pois não? Escreve para quem o quiser ler e quem o leu pode não ter gostado. Acontece. Também faz parte da vida. Escolher um tema deste teor faz disparar os contadores? Pois será e esperamos que continue a escrever, que até o sabe fazer com bastante graça. Desta vez foi mais cair em desgraça. É assim a vida.

Voltamos à liberdade para escrever, que eu defendo com unhas e dentes, mas devemos ser mais open minded para a sociedade de hoje em dia. Ser homossexual não é nenhum crime, que eu saiba. Pelo menos desconheço onde esteja escrito tal. E não preciso de fazer nenhuma resenha histórica sobre o assunto porque sei que o senhor é culto e está ao corrente da história mundial.

A saúde sexual de cada um é um direito e só a si diz respeito. Cada um sabe de si e ninguém tem o direito de se intrometer, digo eu que gosto muito de não saber da vida dos outros. Uma pessoa satisfeita e feliz não incomoda os outros. Vive a sua vida e chega-lhe.

Portanto só posso chegar a uma conclusão: estes dois senhores conseguiram o contrário dos seus intentos. Se queriam enxovalhar, humilhar ou rebaixar os ditos “homossexuais”, tiveram a proeza de chamar a atenção para a sua causa, pois o assunto tornou-se viral.

Assim sendo, só há a agradecer a atenção dispensada, como se costuma escrever na parte final das cartas comerciais, aguardando as vossas breves notícias. Neste caso aproveito para lhes desejar um excelente ano de 2017 e que os seus objectivos sejam alcançados, que nós por cá, continuaremos a viver.

E assim chegamos ao fim de 2016, um ano complicado e exigente, um ano de grandes desafios e de alerta para o que possa advir. Na parte que me toca desejo que todos sejam felizes. Para finalizar o velho cliché e que funciona sempre: boas entradas e um ano repleto de coisas boas!

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