Discutir o amor, a paixão e a forma – a minha chegada ao Poliamor

Descobrir-nos na nossa capacidade de gostar e/ou amar é um processo construtivo que, muitas vezes, nos leva por caminhos desconhecidos. Foi nesta linha de pensamento que sempre questionei o modelo relacional que observava nas pessoas que me rodeavam. Mostravam uma forma de amar que não me fazia sentido e à qual não me identificava. Demorei alguns anos a encontrar a palavra poliamor e foi com essa descoberta que a minha forma de ver o mundo tomou mais algum significado.

O nosso mundo é constituído por muitas pessoas que são todas diferentes, muito diferentes. As pessoas criam relações entre si que também são diferentes, são únicas porque tratam elementos únicos. Foi deste mesmo modo que começaram as minhas primeiras discussões interiores sobre modelos relacionais. Eu não tinha consciência do que existia no mundo, mas sim do que sentia.

De uma forma simples, o poliamor é uma forma de orientação relacional não monogâmica, concesual, ética e responsável. Ou seja, é a aceitação de que cada indivíduo pode ter mais do que um relacionamento, intímo ou não, com o conhecimento e consentimento de todas as pessoas envolvidas. Relacionados com este conceito, surgem formas e estratégias relacionais que são adaptadas a cada pessoa na relação para que haja uma continua confiança relacional.

O conceito de relação aberta é mais conhecido, mas não se deve confundir com poliamor. Estes conceitos divergem no espectro sentimental. A relação aberta, geralmente, retrata a não exclusividade sexual, o poliamor envolve também o campo afectivo e romântico. Para falar de poliamor, deve-se introduzir alguns conceitos importantes que são fruto das interacções e do modelo seguido pelas várias relações. Ao conjunto de pessoas numa relação poliamorosa dá-se o nome de constelação. Por analogia às relações abertas/fechadas, existe o conceito de polifidelidade que se define por uma restrição sexual a apenas alguns elementos da constelação. Dentro de uma constelação podem, ou não, existir hierarquias, e desse modo definem-se os conceitos de relações primárias e secundárias. A expressão Mono/Poli identifica um relação onde um dos elementos é mono-amoroso e o outro poli-amoroso. Define-se por compersão o sentimento de felicidade ao ver uma das pessoas com quem se relaciona feliz com outra pessoa.

As constelações podem tomar formas específicas. Por exemplo, uma relação em “V”, é uma relação onde um dos elementos, chamado pivot, tem relacionamento com duas pessoas não existindo ligação entre estas. Uma triade é uma relação de três elementos onde todos têm uma relação formada com os outros elementos. Uma quadra é uma constelação formada por quatro elementos com relações entre si. Seguindo este modelo podemos dar nomes a várias formas de relação.

Quando se fala em orientação relacional é preciso ter em atenção que esta também é identitária e nada impede uma pessoa que se identifique como poliamorosa de estar em relações mono. Na descoberta pela minha forma de me relacionar com outras pessoas, questionei primariamente a minha própria capacidade de amar, bem como o que isso significava para mim e a forma como as outras pessoas se amam e como, derivado disto, o ciúme e a posse tomam forma. Num sistema mononormativo, existe um entendimento sobre o direito que temos sobre a outra pessoa e não sobre a nossa posição na relação. Se eu for monoamorosa eu só amo uma pessoa de cada vez, se for poli, posso amar várias. Porém, o sistema mononormativo diz que se estou com alguém, esse alguém só pode estar comigo porque tenho um direito sobre a sua própria liberdade. Existem formas mais ou menos conscientes de limitar a liberdade das pessoas envolvidas.

De uma forma geral e simplificada, o poliamor é uma identidade relacional de princípio não exclusivo, mas que prossupõe ética relacional sexual, afectiva e/ou romântica. No entanto, é possível existir infidelidade se os compromissos não forem leais entre os intervenientes. Por outro lado, é uma forma de combater os formatos de monogâmia tóxica e compulsória que implicam exclusividade num formato de relação de poder e pertença. É, também, um desafio à capacidade de comunicar, pois é um valor de extrema importância neste formato relacional.

Reconhecer a existência deste modelo relacional foi, para mim, mais uma porta de um armário que se abriu depois de muito questionamento às estruturas vigentes. Deu-me também ferramentas para desconstruir de uma forma mais sólida as minhas relações e possíveis comportamentos tóxicos. No fundo, tomei consciência que a minha forma de amar é tão válida quanto qualquer outra, é tão possível quanto qualquer outra e que sair da zona de conforto é, simultaneamente, um processo doloroso e uma libertação enorme. Infelizmente, a comunidade poli ainda é vítima de uma grande invisibilidade e descriminação sistémica.

Imagem: http://www.ramihenrich.com/polyamory/

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