Recusemo-nos a ser invisíveis

Desabafo das 10h da manhã a um sábado.

Um casal de mulheres faz uma sessão fotográfica no Terreiro do Paço com um fotógrafo profissional, ou pelo menos suponho que seja.

Sem beijos. Apenas de mãos dadas, sorridentes e a olhar uma para a outra.

A sessão, pelo menos neste local, foi rápida. Uns meros 10 minutos talvez.

Logo de seguida, oiço uma conversa, ou mais um comentário, de um senhor já com os seus 50 e tal anos: “Viste as fofas? Ao menos eram fofas e não só fufas”, claramente a comentar a aparência das mesmas.

Felizmente este comentário não me foi dito a mim, não saberia porque parte começar. E para piorar o meu humor, o senhor começou a usufruir de uma expressão muito gira e muito comum do “hoje em dia”. Qualquer coisa como “hoje em dia até tiram fotos, deve ser para o casório”. Realmente o drama de tirar fotos em público é muito pior que se casarem, veja-se!

Os comentários desenrolam-se num género de monólogo. E desenrolam-se com o típico argumento de que, cada um faz o quiser da sua vida, mas em público já é demais. Da série: sejam felizes, mas não à minha frente! Sejam felizes mas não existam!

Conseguem advinhar o argumento que se segue?

“É que se uma criança vê isto… as crianças aprendem com o que vêm”

Aprendem o quê neste caso? Que duas pessoas se gostam? Ou que é possível fazer sessões fotográficas no Terreiro do Paço?

Uma coisa o senhor tem razão. As crianças aprendem com o que vêm. E procuram explicações para o mundo com as pessoas que as rodeiam. Resta saber se lhes ensinam a amar, ou a repudiar o outro.

Se o argumento do senhor vem repleto de medo e preocupação com o superior interesse da criança por ver uma troca de caricias entre duas pessoas do mesmo sexo (ou simplesmente a tirar fotos de mãos dadas…), demonstra duas coisas:

  • Paira na cabeça do senhor a crença de que a homossexualidade é “anormal”. Não pode ser vista como algo “normal” e portanto algo público.
  • E que as crianças “se tornam” homossexuais por verem comportamentos de outras pessoas que considera desviantes da norma.

Acho interessante ainda referir que o sujeito mencionou que, hoje em dia, os há demasiado exibicionismo dos homossexuais na rua, principalmente quando “trocam de saliva”. Palavras do próprio. Muito púdicas.

Ora…

Se uma criança se torna homo por ver comportamentos homo, contradiz o argumento de que é natural a heterossexualidade. A meu ver, apenas demonstra o qual frágil pode ser à luz deste argumento.

E mesmo se assim fosse verdade, à luz deste argumento não seriamos exclusivamente heterossexuais pelo “exibicionismo” (só para pegar nas suas palavras) heteronormativo que vemos no dia-a-dia? Todos os dias, em todas ruas, cafés, nos media, na literatura, etc.

Quanto ao “sejam felizes, mas…”: recusemo-nos a ser invisíveis.

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