Entrevista a João Pereira: “A brevidade das relações não nos pode deixar sem reação”

João Pereira é um jovem cantor que lançou esta semana “Echoes“, um EP que, através da sua melódica voz, nos conduz por emoções de união e ruptura. É neste balanço melancólico e bilíngue que viajamos entre ecos de uma identidade que rompe com ideias e expectativas do que é ser-se e do que é sentir. Falámos com o João para descobrirmos o seu caminho, assim:

Nascido em Lagos, vives hoje em Lisboa onde tens trabalhado no lançamento do teu primeiro EP, “Echoes”. Como foi o teu percurso para até aqui chegares?

O meu primeiro contacto com a música foi na escola básica, mais concretamente na disciplina de Educação Musical. Posteriormente, surgiu um convite para gravar dois álbuns infantis e ao agarrar essa oportunidade, aprendi uma série de valores que guardo até hoje comigo.

Quando concluí o 12º ano concorri ao curso de Artes do Espetáculo na Faculdade de Letras em Lisboa e por isso alguns dos projetos que deixei no Algarve foram perdendo força.

“Echoes” já existia dentro de mim, mas eu não sabia! Comecei a gravar algumas músicas e a partilhá-las com os meus amigos e por essa razão não fazia a menor ideia do que iria resultar a partir dai.

A certo momento percebi que essas músicas soavam como repetições ou simples memórias, que faziam parte de mim e dos outros, por isso convoquei três pessoas (que me são muito próximas) e escrevemos em parceria todas as faixas (sete ao todo).

E o que se poderá ouvir em Echoes? Sobre que cantas?

Nós fomos construindo as faixas sem pensar muito, cada um ia escrevendo o que sentia no momento. Em jeito de curiosidade, um seguidor referiu que a maior parte das minhas letras falam de “desaparecimento“, aliás a expressão”You’re Gone” aparece em pelo menos duas músicas de Echoes, achei a observação fascinante.

Antes de entrar na faculdade estive um ano parado sem perspetivas de futuro e acho que esse período foi bastante rico no sentido da criação. Como tinha demasiado tempo livre pensava em tudo e mais alguma coisa e toda essa confusão foi aproveitada de uma forma ou de outra.

De um modo geral, acho que tanto a sonoridade como as letras acompanham essa ideia de quebra emocional.

O tema ‘Drug’ – dizes-nos – retrata uma relação com um rapaz. Como vês a abordagem desta temática na tua expressão musical? Como te influenciou?

Sim, retrata a relação entre dois rapazes e muitas das pessoas não sabem disso!

A abordagem é bastante objetiva, o amor visto de uma forma obsessiva, como se essa dor não fosse suficientemente crítica para pôr fim a um relacionamento conturbado.

Na verdade, eu só participei na composição da faixa, pois a parte da letra ficou a cargo do Zé Ribeiro Brandão. Decidimos contar uma história dos nossos dias, tínhamos a perfeita noção que ao nos inspirarmos numa relação gay não iríamos excluir os relacionamentos heterossexuais.

No fundo, a finalidade da música é bastante universal: “Now this door I need to close!“, ou seja, a brevidade das relações não nos pode deixar sem reação ou sentido de mudança.

E em termos de influências, quem são as pessoas – do meio artístico ou outro -que mais te influenciam?

Tenho um grande carinho pelo Jeff Buckley e pela Lana Del Rey.

Para mim, são quase a face da mesma moeda, são excessivos quando têm que ser, e ao mesmo tempo calmos e melancólicos, essa é, para mim, uma característica fundamental para criar uma música.

praia_frente_peComo também canto em português, identifico-me bastante com o trabalho do Tiago Bettencourt, sobretudo pela singularidade da sua escrita.

Tento fazer sempre uma distinção entre aquilo que ouço e aquilo que posso usar como fonte de inspiração. A um dado momento percebi que precisava de uma música mais ritmada para este projeto e por isso, artistas mais comerciais, como Britney Spears ou Madonna ajudaram-me imenso com a minha faixa “Yours“.

Não o fiz por medo de rejeição por parte do público, fi-lo a pensar na diversidade, porque gosto bastante de ouvir um álbum que toca em diversas culturas, tanto a mais ligeira como a mais experimental.

E agora com o lançamento deste teu primeiro EP, que expectativas tens? Alguma novidade que possas partilhar?

Neste momento estou concentrado no lançamento do EP. Quero que as pessoas o ouçam de trás para a frente ou vice versa. Vou fazer uma pequena apresentação no Lx Factory em breve. Essa fase promocional será ao lado do meu produtor Gualter Sal, assim que souber o horário e respectivo alinhamento, divulgarei nas minhas redes sociais.

E, por fim, que mensagem gostarias de enviar a quem nos lê aqui – num espaço de discussão e divulgação LGBTI – e, talvez, ainda não conheça o teu trabalho?

Com esta pequena entrevista dou a conhecer o primeiro grande projeto da minha vida.

Por isso, deixo uma mensagem a quem ainda não conhece o meu trabalho: Sintam-se convidad@s a entrar e a partilhar esse espaço comigo. E  à equipa do esQrever, um muito obrigado pela entrevista e pelo trabalho exemplar junto da comunidade LGBTI.

Poderão descobrir os vários vídeos do João no seu canal no Youtube e ouvir Echoes de seguida no Spotify:

 

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Nota: Obrigado ao João pelo contacto 🙂

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