Women Summit: “Somos todas iguais” (mas umas mais que outras)

O Women Summit ’17 é um evento que afirma “sermos todas iguais” e que tem a ambição de “prová-lo”, dado que “poucos são os espaços que criam condições para realmente ouvir o que a Mulher tem a dizer sobre o mundo que a rodeia, seja nas áreas da economia, da política, das relações internacionais, da ciência ou da arte“.

Acontece que esta cimeira tem recebido inúmeras denúncias pela sua filosofia de exclusão – e esqueçamos o preço de acesso que começa com bilhetes regulares a 300€ + IVA – tal como pela sua homogenia do plantel de oradoras (exemplificado na imagem acima). Na verdade, esta iniciativa parece defender que, sim, são todas iguais, especialmente se forem brancas. Sim, são todas iguais, especialmente se forem cisgénero. Será isso mesquinhice minha? Vejamos: em vez de assumirem essa lacuna do seu evento, têm a indecência de confrontar quem lhes chama a atenção com absoluta arrogância:

[clicar nas imagens para ver em tamanho original, imagens por Len Inha]

Numa tentativa de responderem adequadamente aos comentários feitos, alegam que o único critério para os oradores e oradoras foi o seu mérito. O problema deste raciocínio – como aliás, explicámos aqui – é que este passa do pressuposto que outras mulheres (leia-se de etnias diversas ou de identidade de género trans) não possuem mérito para estarem representadas no evento. Ironicamente, este é precisamente o argumento usado por muitos e muitas machistas quando é discutido o acesso a posições de responsabilidade e de decisão no emprego. Não ver a ironia desta posição é ser-se cega.

Da mesma forma, afirmam que “a questão da raça, religião ou orientação sexual” é um “não-assunto“, o que só mostra uma falta de sensibilidade sobre o que as questões feministas trazem consigo, nomeadamente sobre a interseccionalidade nas questões de igualdade de género. É, pois, extremamente preocupante que esta Women Summit, com tamanho destaque na comunicação social portuguesa, não consiga entender a incoerência desta posição que é, no mínimo, preocupante.

Nota: o grupo GATA (Group of Activism and Transformation through Art) emitiu o comunicado que pode ser aqui lido.

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