Olhado detrás – Trudeau e a Alegria das Nádegas

“Gosto de homens com grandes nádegas.”, afirmava Théodore Géricault no séc. XIX – e se bem o dizia, melhor as pintava, nádegas de homens e garupas de cavalos. Não foi o único, as nádegas são um tema que fascinou muit@s artistas, Rosa Bonheur, Louise Bourgeois, Niki de Saint Phalle…

Porque acerca de nádegas há muito a dizer. Somos a única espécie viva de primatas com nádegas hemisféricas sobressaídas, e separadas, que surgiram quando demos (literalmente) o primeiro passo na nossa evolução: foi quando assumimos a postura vertical que o traseiro se tornou redondo e saliente, e as patas dianteiras tornaram-se mãos, livres para tocar naquilo que nos rodeia, criar objectos, abraçar-nos uns aos outros. Os macacos que ficaram na selva mantiveram as nádegas achatadas.

Mas com a verticalidade o traseiro perdeu importância para o rosto: rimos, choramos, espirramos, tossimos, arrotamos, fazemos caretas – muito mais que a grande maioria dos animais! Porque não temos uma cauda que se eriça de raiva como os gatos, ou que abana de contente, como os cães. Não temos, como muitas espécies de macacos, traseiros que se tornam vermelhos como brasas em época de cio, nem o leque de penas do pavão e do pássaro-lira, que se abre dramaticamente para maravilhar as fêmeas. As nossas nádegas são muito pobres comparadas com isto: o único movimento autónomo que têm é o de contracção – twerking não conta, é resultado de movimentos pélvicos.

Mas isto não quer dizer que o traseiro não tenha expressão – como escreveu Torquato Tasso, “E aquilo que a língua não pode exprimir, uma muda eloquência traduz pelos gestos.” Mostrar as nádegas é um acto extremamente ambíguo: pode ser uma afronta (quem não se lembra do Bart Simpson?), mas pode ser um gesto de rendição – quando nos ajoelhamos e viramos o rosto para o chão – “Cabeça para baixo, e rabinho para o ar”, como os patinhos da canção. Afronta versus Rendição, Revolta versus Resignação. Dois opostos que se expressam com as mesmas massas de carne.

Esta ambiguidade é a essência das nádegas. Elas tremem e dançam, bamboleiam-se; e a sua visão (no Contexto certo) obriga a pessoa mais séria a sorrir um pouco… São um símbolo do Proibido, que “não é assim tão grave…”. Sujeitam qualquer pessoa à humildade – Humanizam-nos, como escreveu Miguel Vale de Almeida.
O rabo redondo de Justin Trudeau é mais uma faceta de um político que tem ganho notoriedade precisamente pela sua humildade. Quem, como ele, já ganhou tanta admiração e respeito enfrentando as críticas de frente, pode dar-se ao luxo de agora enfrentá-las de trás. E, creio eu, sai vitorioso.

 

Para Aprofundar: Georges Bataille, História do Olho; Jean-Luc Hennig, Breve História das Nádegas (um livro excepcional. Sobre nádegas, está tudo lá dentro. “Pun intended”.)

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