Carta Aberta ao “Homem” em Dia Internacional da Mulher

Caro Homem Cisgénero Heterossexual,

Hoje celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Comemora-se este dia desde 1909 em que o Partido Socialista dos Estados Unidos da América o fez em solidariedade com as operárias fabris da indústria têxtil que, no ano anterior, tinham-se manifestado sem precedentes numa reivindicação os seus direitos. De igualdade, de vencimento e respeito, perante nós, homens. Homens cis, que tiveram a sorte de nascer com estes órgãos genitais correspondentes à nossa identidade. E a quem não apetece, na maior parte das vezes, ser ensinado sobre história do feminismo.

Passaram muitos anos entretanto. 108 anos para ser mais exato. Desde que as sufragistas britânicas exigiram o seu direito ao voto à performance de Beyoncé com a palavra FEMINIST em letras garrafais aconteceu muita coisa. No entanto, a desigualdade mantém-se perene e imbatível. Continuamos a receber mais pelo mesmo trabalho porque temos uma pila. Continuamos a não ser assediados a passar por uma obra porque nos cresce barba na cara. Continuamos a poder despir a t-shirt na praia mesmo quando o peito está invariavelmente coberto de pêlos ou da sua ameaça. Continuamos a poder ser considerados garanhões veteranos em lugar de putas desavergonhadas mesmo quando telefonamos às nossas mães para pedir que nos costurem as calças do engate. Continuamos a ser levados mais a sério quando falamos em público mesmo quando produzimos esmegma assim do nada e sem ninguém saber.

Já agora, sou gay. Vulgo paneleiro. Era aquele puto adolescente que muitos de vocês gozavam e até humilhavam, por iniciativa própria ou pressão de grupo. Por não saber jogar bem futebol. Por ter vergonha de me despir nos balneários. Por ouvir (quase exclusivamente) música feita por mulheres. Por gostar mais de estar com as raparigas da turma. Por admirar (muito) mais a Scully do que o Mulder. Por ser, destas e de outras formas, mais feminino do que era suposto. E isso é mau. Mesmo dentro da comunidade gay se discriminam aqueles que são mais efeminados. Logo menos discretos. Porque são embaraçosos e atraem atenções – é por isso que os excluímos logo no perfil do Grindr. E pelas mesmas razões continuamos a percepcionar os que se identificam como passivos como fracos. Porque o penetrado e a penetrada são seres inferiores. Ao Homem.

Hoje percebo que a raiz de TODA a homofobia é a misoginia e o sentimento secular instaurado de inferiorização das mulheres e de todos os homens que a elas se aproximam. Por isso quando assisto a homens gay terem atitudes claramente chauvinistas trepo as paredes e apetece-me ser a Ororo Monroe e rachá-los ao meio com um raio. Acordem. Não existem lutas segregadas de direitos LGBT e direitos de igualdade de género. Eles são exatamente os mesmos. E enquanto continuarem a venerar a Beyoncé sem perceber que ATÉ ELA sofre diariamente de misoginia (e racismo já agora) e querer usar saltos altos só porque é hilário não vão nunca deixar de ser parte do problema. A sub-categoria de homens gay misóginos está englobada na categoria de homens gay acéfalos. Ao lado dos homem gay que votaram no Trump e também das mulheres que não deixam a vagina votar.

Mas voltando ao diálogo, caros cavalheiros: sejamos feministas, meus comparsas de genitalia. Feminismo não é uma palavra feia de afronta à nossa testosterona. Não significa que as mulheres nos odeiem. Não significa nada mais que sonharmos em conjunto com o dia em que as mulheres podem simplesmente ser tratadas de igual forma. Não é bom? Sirvam de exemplo para as vossas mães. Namoradas. Esposas. Filhas. Filhos! Não custa nada pensar em todas as desigualdades de género que persistem na nossa sociedade durante um só dia. As mulheres têm de o fazer os outros 364 do ano. Porque não têm outra hipótese. E pronto amanhã podem voltar a falar do “bardamerda” do Bruno de Carvalho e outras coisas mais interessantes.

Beijinhos da bicha amiga.

Imagem: Elle

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